Twin

A part of me is torment
Another part of me is mystery
A part of me is moment
Another part of me is eternal sleep

A part of me is true
Another part of me just fools me
A part of me is filthy
Another part of me is sacred Continue lendo “Twin”

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Sobre o ofício criativo

O trabalho não é feito só por mãos,
mas também pelo improviso do Mistério.
Um artista comunica todo o tempo:
solitário, nunca faz o seu ofício.
Quando pede ao Universo, ele o obtém,
recebendo muitas luzes lá do alto. Continue lendo “Sobre o ofício criativo”

Henrique Vitorino no CD/DVD da Casa Amarela

No dia 20 de outubro de 2018, a partir das 15h00, acontecerá o 72º Sarau da Casa Amarela. O evento será organizado para realizar a gravação do CD e DVD do referido sarau. Além dos pocket shows de Darc Maia, Tião Baia e Henrique Vitorino, o evento contará com microfone aberto para poetas.

Gerenciada por Sueli Kimura e Akira Yamasaki, a Casa Amarela é um coletivo artístico que abriga as mais diferentes expressões artísticas: música, literatura, dança, teatro, escultura, poesia. Henrique Vitorino participa da Casa desde 2014, onde já interagiu com artistas da região: o cantor e compositor Sacha Arcanjo, o ator/diretor Luka Magalhães e o multiartista Edvaldo Santana, projetado nacionalmente.

A gravação do CD/DVD será realizada no Centro Cultural Francisco Moriconi (Rua Benjamim Constant, 682, em Suzano-SP). O evento é apoiado pela Secretaria Municipal de Cultura de Suzano.

Segue a convocação oficial da Casa Amarela:

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Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro

“Pensei que a roupa de cachorro personificaria toda a minha vocação de ser jogado para escanteio.”

Sou um memorialista por excelência. E exatamente por este fato, dias festivos provocam-me de forma particular. É assim com o Natal, a Páscoa, as viradas de ano, os Sete de Setembro. No dia das Crianças, sou levado pela mão a uma lembrança distante no tempo, mas muito próxima da memória. O mundo ainda era bom e não tinha um pingo de maldade – ou seja, escrevíamos os anos com o número um. Estávamos nos idos de 1997, 1998. Tremo ao pensar que este caso já tem mais de vinte anos.

Nessa época, eu não tinha conhecimento nenhum sobre a vida. Eu vivia entre a realidade e os devaneios de meu mundo infantil e onírico. Sim, eu sonhava. E inclusive algumas crianças chamavam-me de boca aberta, nos primeiros anos de escola: “Por que ele pensa tanto? Ele é tão avoado…” Explico. “Avoado” é um termo nordestino que indica alguém etéreo, desconcentrado, com a cabeça nas nuvens. Ser avoado, atualmente, é possuir o privilégio de a internet não ter destruído minha capacidade de imaginar – o que me garante o pão como ficcionista, inclusive. Reitero que estávamos nos anos de 1997, 1998. Toda essa balela de “globalização” era só uma utopia. Continue lendo “Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro”

Cara ao cuspe

Quando a gente escolhe amar alguém até as últimas consequências, assumimos o risco de oferecer nossos dentes ao murro.

Quando gostamos de forma verdadeira, sem máscaras de proteção ou aventais de segurança, damos nossa cara ao cuspe.

Todo amor é um risco iminente de dar errado, da pessoa perfeita falhar, de uma palavra errada ferir nossas entranhas e retirar-nos o sono. Toda entrega é uma chance de cair no abismo.
Continue lendo “Cara ao cuspe”

Show “Henrique Vitorino em Curitiba!”

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(Texto por Pedro Leutmann)

Neste sábado (15), Henrique Vitorino fará o show Henrique Vitorino em Curitiba!, em única apresentação. Trazendo sucessos da Seresta, canções memoráveis da Bossa Nova e do Pop Rock, além de canções autorais e parcerias com poetas paulistanos e curitibanos, Vitorino nos convida a conhecer suas referências artísticas – seja na música, no teatro ou na literatura.

Inspirando-se no universo dos cantores da Era do Rádio, Henrique Vitorino nos guiará por uma viagem na História da Música, interpretando sucessos de várias épocas. Este multiartista de diversas facetas (cantor, poeta, violonista popular, ator, escritor, ficcionista) promete mesclar todas estas expressões de forma única.

Henrique Vitorino em Curitiba! é um show pensado “de coração para coração”, nas palavras de Vitorino. Esta intimidade afetuosa, muito própria deste garoto, com certeza conquistará a todos. Se você gosta de shows repletos de emoção, amizade e alegria, faça já sua reserva!

“Henrique Vitorino em Curitiba!”
15/09/2018, sábado, a partir das 20h30
Mestre dos Bares: Av. Paraná, 1820 – Boa Vista – Curitiba/PR
Reservas/informações: (41) 99646-3903
Couvert: R$ 15

 

O sagrado prazer da criatividade

Senti falta do ócio criativo nos últimos dias. Tive, portanto, que arrumar algum tempo livre para rabiscar versos e consertar palavras – longe do sudoku ou das torturas matemáticas, agrada-me a arte dos versos métricos. Adoro contar palavras e pensar se elas encaixam-se ou não em determinado ritmo. Como a arte da música também é constante em meu trabalho, a métrica é fundamental.

Falando em métrica, este poema foi escrito em versos hendecassílabos: ou seja, com onze sílabas. Os acentos tônicos localizam-se nas sílabas 3, 7 e 11.

Foi também interessante escrever sem pensar em rimas finais. Tenho treinado exercícios de concisão literária, seja na prosa ou na poesia (veja aqui uma de minhas últimas lições), e a ausência de rimas roubou-me a timidez. O importante foi a mensagem: o prazer artístico é o combustível que nos permite caminhar. Num domingo onde participei do Sarau da Casa Amarela, em São Miguel Paulista, este poema muito vem a calhar.

Sem mais conversas, segue o texto: Continue lendo “O sagrado prazer da criatividade”

O quase não é “só mais um detalhe”

“João foi o contraponto da tristeza de minha infância.”

Ao Rei da noite paulistana, o Roberto Luna,
que me sugeriu esta crônica após uma noite de trabalho

Nestes dias, a Escola Nacional de Teatro fez um pedido de protocolo: era necessária uma cópia de meu histórico escolar. Para encontrar tal documento, realizei verdadeira epopeia dentro de meu quarto. Foi necessário procurar, fuçar, revirar, mexericar e xeretar, além de outros sinônimos. Depois de árdua busca, encontrei o tal documento. Tendo-o em mãos, exultei, mas não por muito tempo: outros grifos me roubaram a atenção. Com bordas vermelhas, enxerguei o sussurro que vinha da caixa: Pedagogia do violão Del Vecchio. Ali estava outro documento: meu diploma de violonista assinado pelo mestre João.

É fato inconteste que tive dois mestres do violão: além de meu cunhado Rafael, o João propriamente dito. Se o primeiro deu o impulso inicial, o último aprimorou a crueza de meu talento. João foi o contraponto da tristeza de minha infância. Nossa amizade, coroada por trinta e três anos de diferença, era peculiar e curiosa. Deixei o histórico escolar de lado. Aquele caderno antigo já me havia transportado para a década passada, quando pude conviver intensamente com meu professor. Continue lendo “O quase não é “só mais um detalhe””

A paixão fatal

“Tem congestionamento até para morrer?”

Entre pensamentos, Seu José fazia casa de paisagem:

– Que coisa mais sem graça! Ó, tédio!

Não havia quem o demovesse de criticar o velório da própria esposa. Os outros parentes comentavam:

Coitado do Zé… Tão quieto! Deve estar sofrendo.

Seu sofrimento, no entanto, era ficar rodeado de parentes escandalosos e insuportáveis. Dino, um dos irmãos da mulher, era seu verdadeiro desafeto. Decidiu capitular ao vê-lo de olhos marejados: “Na morte não se odeia ninguém.” Mas ao ouvir o choro exagerado de seu adversário, foi capaz de berrar:

– Não aguento essa palhaçada!

E saiu para queimar cigarros, esperando que um milagre o salvasse do marasmo. Continue lendo “A paixão fatal”

Cigarro, cheguei!

“Quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso.”

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”, dizia Gérson, o jogador de futebol que nos trouxe o Tri de 1970. Com esta frase, Gérson revelou uma das facetas brasileiras até então desconhecida. Em essência, somos duais, duplos. Se os brasileiros são inocentes e festivos, também sabem ser perversos e cruentos; todos vivemos na corda bamba entre a hospitalidade e a intolerância. Uma frase de propaganda de cigarro tornou-se a explicação cabal do brasileiro hodierno, quiçá de todos os que existiram.

Ainda hoje, a voz de Gérson ecoa em meus ouvidos. O que nós, pessoas comuns, seríamos capazes de fazer para “levar vantagem”? O que é uma vantagem, afinal? Ora, a vantagem é um benefício, um privilégio. No futebol – o esporte praticado pelo autor da frase -, a vantagem significa não interromper o jogo por conta de uma falta insignificante, se isso for melhor para o time que sofreu a falta. É possível concluir que a vantagem é uma situação onde estamos à frente, ou em melhor condição que outrem. Deste modo, quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso. Continue lendo “Cigarro, cheguei!”

27 lições dos meus 27 anos

1. Sempre esteja de acordo com suas próprias convicções mesmo que, por vezes, você se contradiga. A contradição é o direito de quem pensa melhor.

2. Desfrute, sempre que possível, de seu anonimato.

3. Os amigos são nossa reserva de calor para os dias frios, nosso montante financeiro em tempos de crise, o colo para nossas traquinagens. Eles são tudo o que temos. Continue lendo “27 lições dos meus 27 anos”

Resenha: Kaki

Livro: Kaki
Autor: Alvaro Posselt
Editora: Blanche
Ano de lançamento: 2015
Nota: ☆☆☆☆☆

A simplicidade é o ápice da perfeição. Nenhuma teoria pode expressar, nas palavras de Drummond, a inteireza do sentimento do mundo – uma integração particular entre o artista e seu universo criativo. Sou ainda mais ousado ao dizer que a simplicidade artística é um caminho de elevação espiritual: quando a técnica assume seu lugar verdadeiro, resta a alma do artista. Continue lendo “Resenha: Kaki”

Mercúrio-cromo

“Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje.”

Para Rosinha Morais

No último 23 de junho, fui convidado para participar do lançamento dos livros “Um segredo na letra H”, do genial Mario Neves, e “Ecos do Silêncio”, de Luka Magalhães – do qual, inclusive, já fiz uma resenha no blog. Entre os lançamentos, eu conversava com a poeta Rosinha Morais sobre os diversos tombos que levamos na vida. Pelo papo, lembramos do mercúrio-cromo: aquele remedinho que colocávamos nos machucados do século passado. Logo fui abduzido pelas memórias que o tal mercúrio me causou. Pensei obsessivamente no assunto até conseguir escrever esta crônica, o que significa uma semana.

Até o ano de 2001, eu não tinha noção do que era a vida. Tampouco tinha noção de minha velhice. Mas as memórias de minha infância são vagas e desconexas. Talvez as sofridas descobertas da vida fizeram-me assim. Ou talvez a constatação precoce de que aquela vida se tornaria pó de estrelas, guardada afetuosamente em alguns de meus neurônios. Esta descoberta foi duríssima, embora verdadeira. Aos poucos, o tempo passou e não pude acompanhar o crescimento do garoto que eu era. Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje. Continue lendo “Mercúrio-cromo”

Baile com Roberto Seresteiro e Banda Eira

A única forma de vislumbrar o futuro é reencontrar o passado. E ontem (24), o SESC 24 de Maio recebeu Roberto Seresteiro e a Banda Eira. Com muita disposição e bom humor, Roberto e banda nos conduziram por diversos clássicos da Música Popular Brasileira. Continue lendo “Baile com Roberto Seresteiro e Banda Eira”

Luto: uma visão alternativa

Escrevi este texto há alguns meses. Como estou me preparando para escrever uma pequena série contra a psicofobia, inicio com este tema, que muitas vezes é considerado um tabu.

* * *

O que dói não é o soco, mas o músculo ressentido. O que realmente cansa não é o esforço físico, mas a distração da sobrecarga. O que machuca de verdade não é o tapa, mas o desentendimento que conduz à agressão humilhante.

O que dói não é a morte em si, mas o que ela acarreta. Continue lendo “Luto: uma visão alternativa”

Nome de homem

“Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino.”

Nós, mortais, sequer notamos a brevidade da inocência.

Quando me percebi, estava com dezenove anos. Havia acabado de prestar o vestibular. Todos da família estavam confiantes, inclusive os silêncios de meu pai. Uma pretensa maturidade em mim se esforçava para entendê-lo. De minha parte, não sabia o motivo de sua mudez. Lembro-me de seu carinho na infância, de sua eficácia como provedor da casa. Por que o distanciamento repentino? Talvez os primeiros fios de barba, os mesmos que apontavam o homem que seria, me afastaram dele. Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino. Desde então, meu pai ficou cada vez mais monossilábico. Passou a não interessar-se pelas minhas conversas, a não acompanhar-me no almoço, a ironizar meus gostos pessoais. Chegou o dia em que não mais nos abraçamos: ele disse que minha barba arranhava seu rosto. Desde então, me obriguei a ressignificar sua ausência. Eu, agora, devia ser um homem. Meu pai não sabia que me tornei o guardião dos meus próprios sonhos. Continue lendo “Nome de homem”

Nunca fui santinho

“Se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.”

Ao Carlos, meu professor de teatro

Embora não pareça, sempre flertei com o caótico da vida. Trocando em miúdos: eu adorava ver o circo pegar fogo. Não à toa, eu assistia freneticamente as fitas VHS do Rally Havoc, onde carros e motos voavam das formas mais perigosas possíveis. Meu eu criança também adorava o famoso programa “A ponte do rio que cai”, uma versão brasileira do americano Wipeout. Eu morria de rir com os tombos, quedas e cambalhotas dos participantes. No fundo, se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.

Na minha infância e primeira velhice, eu tinha tempo de sobra para pensar. Não havia o que “fazer”. Depois dos estudos, eu ia ao terreno que havia atrás de casa, ou ao lado – os terrenos baldios ainda eram abertos – para pesquisar e criar pensamentos. Além de minhas invenções, eu não era uma criança ocupada (e as crianças ocupadas de hoje me causam pânico.) Meu único trabalho era ler e criar. Continue lendo “Nunca fui santinho”

Questão de criatividade

“Um dia eu serei como Rimbaud!”

Artur sonhava com as glórias de um grande escritor. Seu desejo, porém, não era apenas vender livros best-seller. Ele desejava inscrever seu nome na história da Literatura. Sua juventude o fazia sonhar alto. Em seus devaneios, pensava:

– Um dia eu serei como Rimbaud!

Ao mesmo tempo em que sonhava com a glória, Artur padecia de um enorme bloqueio criativo. Fazia semanas que ele não escrevia. Quando o fazia, tinha a sensação que seu texto estava péssimo. Certo dia, louco de tédio, visitou uma exposição de pintura. Acabou conhecendo Lúcia e Donaldo, o casal de curadores responsáveis pela exposição. No meio da primeira conversa, Artur disparou:

– Vocês poderiam ajudar um escritor? Eu, no caso? Faz tempo que sofro de bloqueio criativo e não consigo escrever nada. Continue lendo “Questão de criatividade”

Drops: Akira Yamasaki

“A sina que cumpro / […] é de guerra, não de paz” (A. Yamasaki)

Quem conhece sabe: a timidez do Akira não revela o número de suas atividades. Observador perspicaz do seu amado Itaim Paulista, também é agitador cultural, organiza e frequenta diversos saraus na cidade de São Paulo, é responsável pela revelação de diversos artistas de antigas e novas gerações, mantém um blog e escreve crônicas poéticas sobre seu entorno social, no facebook. Além de tudo isto, escreve poemas com a disciplina de um samurai. A particularíssima percepção torna seus textos legítimos haicais ampliados.

Eu mesmo tive a honra de musicar vários de seus poemas – o mais conhecido deles, Inverno, ainda me emociona -, e também o tema da peça “Oliveiras Blues”, na qual também tive o prazer de atuar, sendo dirigido por Sueli Kimura e Luka Magalhães.

De acordo com o conceito do Drops, deixarei que Akira se apresente por seus textos. Vale a pena lembrar: o contato do autor está nos nomes-links, junto a cada texto postado. Com vocês, Akira Yamasaki!

Continue lendo “Drops: Akira Yamasaki”

Vida digital: um ato de comédia

Personagens: Moça, Velho.

Ambiente: Praça de bairro. Há um banco. Ao começar a cena, Moça mexe no celular. Velho chega aos poucos e senta-se ao lado de Moça.

Ato único

VELHO (sem querer incomodar)
O tempo está quente, né?

MOÇA (ignora)

VELHO
Gostaria de pedir uma coisa.

MOÇA (deixa o celular, incomodada)
Que foi?

VELHO
Desculpe incomodar. Não quero atrapalhar você.

MOÇA (ainda mais incomodada)
Agora que me chamou, fale! Continue lendo “Vida digital: um ato de comédia”

Entre os dedos da eternidade

“Se todos nós soubéssemos nossa data de partida, tal detalhe seria suficiente para entrarmos em histeria coletiva.”

Na minha primeira velhice (ou o que chamam infância), a morte era um dos meus temas preferidos para pesadelos. Morria de medo ao pensar em deixar de existir. Se a minha morte me causava horror, a morte dos outros era ainda mais estranha. Felizmente, fui poupado de tais acontecimentos. Na minha infância, lembro da morte de poucas e raras pessoas. Esta velhice pode ter sido triste, mas ainda não era povoada por fantasmas conhecidos. Continue lendo “Entre os dedos da eternidade”

“Tchau, gago”: o relato de um portador de gagueira

“Deus me livre de ter vergonha da minha gagueira. Mas já sofri muito por causa dela.”

Decidi escrever este texto com menos técnica e mais improviso. Não é segredo para os amigos mais íntimos que estudo a obra de Nelson Rodrigues com afinco – somente a prosa, por enquanto. Neste sentido, o blog me serve como espaço de estudo. Baseado no mestre, tenho escrito crônicas e contos que particularmente me alegraram. Mas farei questão de romper com a métrica para falar mais de mim; de um aspecto particular que toda pessoa que me conhece, sabe: a minha gagueira. Continue lendo ““Tchau, gago”: o relato de um portador de gagueira”

Resenha: Ecos do Silêncio

Livro: Ecos do Silêncio
Autor: Luka Magalhães
Editora: Casa Amarela Edições
Ano de lançamento: 2018
Nota: ☆☆☆☆

Em certa ocasião, ele entregou-me um livro. Apenas. Citando o místico católico Afonso Ratisbonne (1814-1884), ele nada me disse, mas tudo entendi. Foi com este jogo silencioso que ele, o Luka, me convidou para apreciar “Ecos do Silêncio”, sua primeira obra. Continue lendo “Resenha: Ecos do Silêncio”

Cidade pequena

“Nós do interior somo mió que os da cidade!”

Os moradores do vilarejo diziam que tudo estava em seu devido lugar. Para eles, não havia necessidade de mexericos ou querelas. Cada um estava ocupado em lutar pela sua sobrevivência. Esse era o mesmo pretexto para se considerar superiores à cidade grande, inclusive. Ufanos, batiam no peito:

– Nós do interior somo mió que os da cidade!

Todo cidadão tinha um papel definido naquela pequena aldeia. Havia o padre, com fama de santo. Havia o delegado que se ocupava em vexar os garotos que roubavam frutas. Havia os aldeões simples, matutos e desconfiados. E havia o velho Petrônio, o louco da vila.

Poucos, na verdade, ousavam-lhe trocar cumprimentos. Petrônio não era dado a converseiros. Sua aparência física contrastava com a daquela população. Olheiras bem definidas, silencioso, sorumbático: seu corpo quase não conheceu lâmina. Cortava o cabelo apenas quando lembrava. Diziam que o velho Petrônio não dormia. Apenas se enfeitava em meados de agosto, nas festividades da colheita da moranga cabotiá.

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Ponto A (rumo ao Ponto B)

As pessoas não querem mais ficar perto umas das outras.
Mas o que afasta não é a máquina, é o descontrole do uso.

As populações dos países veem seus governos afundados em escândalos.
Mas os erros dos governantes não ficam mais nas gavetas.

As grandes corporações manipulam nossa realidade.
Mas o jornalismo independente cresce aos borbotões.

O preconceito de diversos tipos tornou-se mais escancarado.
Mas a luta contra eles está mais aberta.

Não temos futuro, nem sabemos para onde ir.
Mas os grandes passos da História sempre são incertos.

Temos medo do que vai nos acontecer no futuro.
Mas nossos pais e nossos avós também tiveram.

Hoje o conceito de “família” está desestruturado.
Mas novas formas de família o completam.

Os artistas estão perdidos ou comprados.
Mas a Arte não.

Os jovens de hoje não serão como os adultos de hoje.
Mas serão os adultos do amanhã.

Não há desculpas para o pessimismo.
Tudo depende do seu ponto de vista.

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Um bombom salvou minha vida

Meu amigo é literalmente inquebrantável. Ele finge que não sabe.

Em outro texto, eu falava sobre as bem-aventuranças de um caxias. E dentre os meus amigos que possuem essa qualidade, não deixo de incluir o Toninho. Olhos firmes, sorriso tímido, espinha ereta: meu amigo possui a honestidade digna dos grandes caracteres. Ele, no entanto, finge que não sabe. Prefere pensar-se qual Pedro Pedreiro, cantado por Chico Buarque.

Desde que nos tornamos amigos, ele nunca mudou seu jeito de ser. Manteve o jeitão sossegado de outrora com fidelidade absolutíssima. Eu pensava: – “Ele é assim tão calmo?” Felizmente, percebi que sim. Sua paciência pode impressionar até um lama tibetano. Ele é literalmente inquebrantável – para um artista, como eu, inquebrantável até demais. Mas também esta diferença é facilmente equalizada entre nós.

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Tempo: o melhor casulo

“Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios.”

No dia de descanso, ao acordar de uma soneca, lembrei-me da criança triste e esforçada que eu era. Revisitei cada drama vivido na transição para a adolescência, ou segunda velhice, onde não sabia quem eu era ou o que faria no mundo. Foram tempos mágicos, mas igualmente sofridos. A inconstância típica de um ser em construção marcou-me profundamente. Hoje, mais calmo e indiferente a certas coisas, ainda me comovo quando vejo alguém se perguntando: – “Mas o que faço da vida, meu Deus?”

Minha segunda velhice tinha uma característica própria: o anseio de atrair carinho e atenção dos mais velhos. Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios. Aprendi a entender a mudez dos gestos e ler palavras entrecortadas. Competia comigo mesmo em busca de um ombro amigo. Não sabia se deveria encarnar o ser “maluco” que se plasmava em mim, ou se utilizaria a máscara que definiria minha vida, como numa peça da Commedia Dell’Arte. Meu espírito se curvava a um regime de meritocracia emocional. Continue lendo “Tempo: o melhor casulo”

Até os parquinhos apodrecem

“Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas.”

Muitas das inspirações deste blog surgem das minhas viagens de ônibus pela cidade. Nelas, não tenho vergonha de ser nostálgico. Sinto como se o clipe de minha vida passasse diante de meus olhos. Numa das reminiscências, fui transportado ao ano de 2003, talvez 2002. Devia ter entre dez a onze anos. Se minhas memórias da infância são sempre desconexas, as memórias do meu eu velhinho sempre estão intactas.

Como qualquer velho que se preze, eu era uma criança triste e pungente. Sentia desde o berço, como Augusto dos Anjos, minha vocação para a pungência. A pungência é, inclusive, a qualidade-mor dos nostálgicos e dos observadores. Quando entendi (depois de adulto) o conceito japonês de wabi-sabi, acalmei-me. Wabi-sabi é algo que gosto de traduzir como “a estética do efêmero.” Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas. Continue lendo “Até os parquinhos apodrecem”

Drops: Carlos Drummond de Andrade

“O poeta da pedra no caminho me punha pedras no sapato.”

Drummond é um dos grandes poetas brasileiros que não deixa de pôr pedras em meu sapato. Seus poemas sempre me foram pungentes. Não à toa, carrego no peito uma grande estima pelo Itabirano.

Quem sou eu para falar de Drummond? Deixarei que ele fale por si mesmo, por seus poemas. Inclusive, a ideia do Drops é não trazer dados biográficos. Traremos apenas os poetas e suas mensagens. Que as palavras de Drummond continuem reverberando em nossos corações, assim como o meu coração tremeu ao ouvi-lo ainda na minha primeira velhice.

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Uma vida crepuscular

“Quem olha nos olhos de seus fantasmas nunca mais é o mesmo.”

Naquela Mauá de lembranças ternas e antiquíssimas, algo particular me ronda a mente. Nestes momentos, é incrível perceber como algo tão distante pode materializar-se em meus pensamentos: o crepúsculo. Como poderei definir a sensação mágica de uma criança ao assistir quase diariamente aos mais belos crepúsculos de sua vida?

Em minhas imaginatividades, creio que o crepúsculo é o momento onde o tempo entra em suspensão. A mágica ilumina o ambiente. Quem para para assistir pode tocar esta atmosfera etérea. Eu, particularmente, fui criado em um lugar alto. Nas palavras de Herivelto Martins, esse detalhe me deixava “mais pertinho do céu”. Nas costas da casa, o sol se punha. À frente vinha o clarão de seu nascimento. Ao ler a Odisseia de Homero, aprendi que a deusa Aurora vinha pessoalmente em sua carruagem para acordar o Sol. Sem querer, passei a desejar-me encontrar com ela, mesmo que por um segundo.

Continue lendo “Uma vida crepuscular”