27 lições dos meus 27 anos

1. Sempre esteja de acordo com suas próprias convicções mesmo que, por vezes, você se contradiga. A contradição é o direito de quem pensa melhor.

2. Desfrute, sempre que possível, de seu anonimato.

3. Os amigos são nossa reserva de calor para os dias frios, nosso montante financeiro em tempos de crise, o colo para nossas traquinagens. Eles são tudo o que temos.

3.1. Amigos não são os que nos obrigam a estabelecer uma conversa unilateral, ou os que consideram a amizade como obrigação de fazer favores gratuitos. A amizade é o que nos salva da crise existencial às seis e doze da tarde de uma quarta-feira qualquer.

3.2. Amigos legítimos não possuem prazo de validade, visto que são eternos.

3.3. Familiares não são garantia de amizade, mas amigos são garantia de família.

4. Vale a pena quebrar as regras, sim. O segredo é saber como.

5. Ler poemas é melhor que tomar remédios. Se a segunda opção for inevitável, leia poemas enquanto durar o tratamento.

6. É perfeitamente normal não adquirir sucesso estrondoso em tudo o que se faz. A fama também pode ser corrupção da alma.

7. A TV é uma fábrica de ilusões. Se mente, ela também é capaz de nos guiar a mundos maravilhosos.

8. Aprenda a beijar quem você ama de verdade.

9. Toda essa coisa de dieta e vida saudável é importante, desde que não tire a saúde de nossa mente.

10. Viver o fluxo natural dos sentimentos prolonga a vida. Não fique triste demais, nem feliz demais. O coração gosta de compassos frequentes.

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Henrique Vitorino na sua infância. Mauá, São Paulo, idos de 1991.

11. O silêncio das redes sociais não é de todo mau – é o tempo que você pode usar para conectar-se consigo mesmo. (vide lição 2)

12. A felicidade é abstrata; a alegria, concreta. A felicidade são momentos; a alegria é constante. A felicidade pura é impossível; a pura alegria acontece no dia-a-dia. A felicidade dorme no alto das nuvens; a alegria nos tira para dançar na chuva.

13. Quando se sentir sem direção, sem expressão ou identidade, volte para suas raízes.

14. Nossa força consiste na vulnerabilidade da dor, porque esta nos serve para refinar os sentidos.

15. Quando feitas de coração, as gentilezas eternizam.

16. Aprenda a trabalhar no meio do barulho criativo: crianças correndo, vovó fazendo bolo, tios tocando violão. Desaprenda a trabalhar sob pressão: chefes abusivos, metas inatingíveis, autoexigências infinitas. O sistema de trabalho contemporâneo é feito para a exaustão de seus trabalhadores.

17. No que se refere à energia, aprenda a canalizá-la para aquilo que você mais ama.

18. Dentro em nós, a criança criativa tem muito mais a dizer que o adulto frustrado. Se quiser ser feliz, escute-a.

19. A regra é básica, na vida e na arte: o mais leve sempre comanda o mais pesado. Levíssimas gotas de água são capazes de suportar o peso de um cardume inteiro.

20. O sexo é a expressão do que há de mais belo na vida. Nele, somos capazes de tocar o Infinito. Por essa razão, a vivência sexual necessita de vivência espiritual.

21. A sensação de desconforto não é comum. Aprenda a incomodar-se com o que é ruim para você. Se algo não se encaixa na vida, é preciso corrigir a falha. Mais vale um ano em pit-stop do que dez anos com pneus furados.

22. Quem se equilibra entre o descanso e o movimento alcançará a iluminação.

23. Não faça caridade: ajude quem é humano como você.

24. Dinheiro é poder. Aprenda a usá-lo como nos videogames: gaste-o para ajudá-lo a vencer, mas poupe-o para desafios maiores.

25. A opinião dos outros não importa tanto quanto a sua própria.

26. O medo mostra sua utilidade somente na ficção.

27. Guardar segredos é inútil, mas todos temos nossos jardins secretos. O segredo da convivência está em reconhecê-los, mas mantê-los intactos.

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Resenha: Kaki

Livro: Kaki
Autor: Alvaro Posselt
Editora: Blanche
Ano de lançamento: 2015
Nota: ☆☆☆☆☆

A simplicidade é o ápice da perfeição. Nenhuma teoria pode expressar, nas palavras de Drummond, a inteireza do sentimento do mundo – uma integração particular entre o artista e seu universo criativo. Sou ainda mais ousado ao dizer que a simplicidade artística é um caminho de elevação espiritual: quando a técnica assume seu lugar verdadeiro, resta a alma do artista. Continue lendo “Resenha: Kaki”

Mercúrio-cromo

“Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje.”

Para Rosinha Morais

No último 23 de junho, fui convidado para participar do lançamento dos livros “Um segredo na letra H”, do genial Mario Neves, e “Ecos do Silêncio”, de Luka Magalhães – do qual, inclusive, já fiz uma resenha no blog. Entre os lançamentos, eu conversava com a poeta Rosinha Morais sobre os diversos tombos que levamos na vida. Pelo papo, lembramos do mercúrio-cromo: aquele remedinho que colocávamos nos machucados do século passado. Logo fui abduzido pelas memórias que o tal mercúrio me causou. Pensei obsessivamente no assunto até conseguir escrever esta crônica, o que significa uma semana.

Até o ano de 2001, eu não tinha noção do que era a vida. Tampouco tinha noção de minha velhice. Mas as memórias de minha infância são vagas e desconexas. Talvez as sofridas descobertas da vida fizeram-me assim. Ou talvez a constatação precoce de que aquela vida se tornaria pó de estrelas, guardada afetuosamente em alguns de meus neurônios. Esta descoberta foi duríssima, embora verdadeira. Aos poucos, o tempo passou e não pude acompanhar o crescimento do garoto que eu era. Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje. Continue lendo “Mercúrio-cromo”

Luto: uma visão alternativa

Escrevi este texto há alguns meses. Como estou me preparando para escrever uma pequena série contra a psicofobia, inicio com este tema, que muitas vezes é considerado um tabu.

* * *

O que dói não é o soco, mas o músculo ressentido. O que realmente cansa não é o esforço físico, mas a distração da sobrecarga. O que machuca de verdade não é o tapa, mas o desentendimento que conduz à agressão humilhante.

O que dói não é a morte em si, mas o que ela acarreta. Continue lendo “Luto: uma visão alternativa”

Nome de homem

“Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino.”

Nós, mortais, sequer notamos a brevidade da inocência.

Quando me percebi, estava com dezenove anos. Havia acabado de prestar o vestibular. Todos da família estavam confiantes, inclusive os silêncios de meu pai. Uma pretensa maturidade em mim se esforçava para entendê-lo. De minha parte, não sabia o motivo de sua mudez. Lembro-me de seu carinho na infância, de sua eficácia como provedor da casa. Por que o distanciamento repentino? Talvez os primeiros fios de barba, os mesmos que apontavam o homem que seria, me afastaram dele. Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino. Desde então, meu pai ficou cada vez mais monossilábico. Passou a não interessar-se pelas minhas conversas, a não acompanhar-me no almoço, a ironizar meus gostos pessoais. Chegou o dia em que não mais nos abraçamos: ele disse que minha barba arranhava seu rosto. Desde então, me obriguei a ressignificar sua ausência. Eu, agora, devia ser um homem. Meu pai não sabia que me tornei o guardião dos meus próprios sonhos. Continue lendo “Nome de homem”

Nunca fui santinho

“Se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.”

Ao Carlos, meu professor de teatro

Embora não pareça, sempre flertei com o caótico da vida. Trocando em miúdos: eu adorava ver o circo pegar fogo. Não à toa, eu assistia freneticamente as fitas VHS do Rally Havoc, onde carros e motos voavam das formas mais perigosas possíveis. Meu eu criança também adorava o famoso programa “A ponte do rio que cai”, uma versão brasileira do americano Wipeout. Eu morria de rir com os tombos, quedas e cambalhotas dos participantes. No fundo, se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.

Na minha infância e primeira velhice, eu tinha tempo de sobra para pensar. Não havia o que “fazer”. Depois dos estudos, eu ia ao terreno que havia atrás de casa, ou ao lado – os terrenos baldios ainda eram abertos – para pesquisar e criar pensamentos. Além de minhas invenções, eu não era uma criança ocupada (e as crianças ocupadas de hoje me causam pânico.) Meu único trabalho era ler e criar. Continue lendo “Nunca fui santinho”

Questão de criatividade

“Um dia eu serei como Rimbaud!”

Artur sonhava com as glórias de um grande escritor. Seu desejo, porém, não era apenas vender livros best-seller. Ele desejava inscrever seu nome na história da Literatura. Sua juventude o fazia sonhar alto. Em seus devaneios, pensava:

– Um dia eu serei como Rimbaud!

Ao mesmo tempo em que sonhava com a glória, Artur padecia de um enorme bloqueio criativo. Fazia semanas que ele não escrevia. Quando o fazia, tinha a sensação que seu texto estava péssimo. Certo dia, louco de tédio, visitou uma exposição de pintura. Acabou conhecendo Lúcia e Donaldo, o casal de curadores responsáveis pela exposição. No meio da primeira conversa, Artur disparou:

– Vocês poderiam ajudar um escritor? Eu, no caso? Faz tempo que sofro de bloqueio criativo e não consigo escrever nada. Continue lendo “Questão de criatividade”

Drops: Akira Yamasaki

“A sina que cumpro / […] é de guerra, não de paz” (A. Yamasaki)

Quem conhece sabe: a timidez do Akira não revela o número de suas atividades. Observador perspicaz do seu amado Itaim Paulista, também é agitador cultural, organiza e frequenta diversos saraus na cidade de São Paulo, é responsável pela revelação de diversos artistas de antigas e novas gerações, mantém um blog e escreve crônicas poéticas sobre seu entorno social, no facebook. Além de tudo isto, escreve poemas com a disciplina de um samurai. A particularíssima percepção torna seus textos legítimos haicais ampliados.

Eu mesmo tive a honra de musicar vários de seus poemas – o mais conhecido deles, Inverno, ainda me emociona -, e também o tema da peça “Oliveiras Blues”, na qual também tive o prazer de atuar, sendo dirigido por Sueli Kimura e Luka Magalhães.

De acordo com o conceito do Drops, deixarei que Akira se apresente por seus textos. Vale a pena lembrar: o contato do autor está nos nomes-links, junto a cada texto postado. Com vocês, Akira Yamasaki!

Continue lendo “Drops: Akira Yamasaki”

Vida digital: um ato de comédia

Personagens: Moça, Velho.

Ambiente: Praça de bairro. Há um banco. Ao começar a cena, Moça mexe no celular. Velho chega aos poucos e senta-se ao lado de Moça.

Ato único

VELHO (sem querer incomodar)
O tempo está quente, né?

MOÇA (ignora)

VELHO
Gostaria de pedir uma coisa.

MOÇA (deixa o celular, incomodada)
Que foi?

VELHO
Desculpe incomodar. Não quero atrapalhar você.

MOÇA (ainda mais incomodada)
Agora que me chamou, fale! Continue lendo “Vida digital: um ato de comédia”

Homenagem aos geriatras

“O trabalho do geriatra é tão belo quanto necessário.”

Passeando pelos arquivos de meu computador, encontro este pequeno texto sobre os médicos que nos acompanham (ou acompanharão) no processo de envelhecimento: os geriatras. Quem não conhece o trabalho de um geriatra? Apenas os que morreram jovens. Como bom velhinho precoce que sou, decidi compartilhar minhas reflexões com o blog. Segue o texto: Continue lendo “Homenagem aos geriatras”

Entre os dedos da eternidade

“Se todos nós soubéssemos nossa data de partida, tal detalhe seria suficiente para entrarmos em histeria coletiva.”

Na minha primeira velhice (ou o que chamam infância), a morte era um dos meus temas preferidos para pesadelos. Morria de medo ao pensar em deixar de existir. Se a minha morte me causava horror, a morte dos outros era ainda mais estranha. Felizmente, fui poupado de tais acontecimentos. Na minha infância, lembro da morte de poucas e raras pessoas. Esta velhice pode ter sido triste, mas ainda não era povoada por fantasmas conhecidos. Continue lendo “Entre os dedos da eternidade”

“Tchau, gago”: o relato de um portador de gagueira

“Deus me livre de ter vergonha da minha gagueira. Mas já sofri muito por causa dela.”

Decidi escrever este texto com menos técnica e mais improviso. Não é segredo para os amigos mais íntimos que estudo a obra de Nelson Rodrigues com afinco – somente a prosa, por enquanto. Neste sentido, o blog me serve como espaço de estudo. Baseado no mestre, tenho escrito crônicas e contos que particularmente me alegraram. Mas farei questão de romper com a métrica para falar mais de mim; de um aspecto particular que toda pessoa que me conhece, sabe: a minha gagueira. Continue lendo ““Tchau, gago”: o relato de um portador de gagueira”

Resenha: Ecos do Silêncio

Livro: Ecos do Silêncio
Autor: Luka Magalhães
Editora: Casa Amarela Edições
Ano de lançamento: 2018
Nota: ☆☆☆☆

Em certa ocasião, ele entregou-me um livro. Apenas. Citando o místico católico Afonso Ratisbonne (1814-1884), ele nada me disse, mas tudo entendi. Foi com este jogo silencioso que ele, o Luka, me convidou para apreciar “Ecos do Silêncio”, sua primeira obra. Continue lendo “Resenha: Ecos do Silêncio”

Boletim do Vovô – 1

Este texto foi publicado ontem (27) em meu facebook. Pela sua singeleza e graça, resolvi postá-lo também no blog. Os boletins servirão como documentários da minha convivência com o vovô, além de ser pérolas que transformam o cotidiano… Em eternidade. Eis a missiva virtual:

* * *

Vovô Antonio está bem, assim como eu: juntos, reclamamos do mau tempo e da dor nas costas. Ele fica super contente com o resultado das minhas aulas de teatro:

– Você realmente está mais magro…! Continue lendo “Boletim do Vovô – 1”

Cidade pequena

“Nós do interior somo mió que os da cidade!”

Os moradores do vilarejo diziam que tudo estava em seu devido lugar. Para eles, não havia necessidade de mexericos ou querelas. Cada um estava ocupado em lutar pela sua sobrevivência. Esse era o mesmo pretexto para se considerar superiores à cidade grande, inclusive. Ufanos, batiam no peito:

– Nós do interior somo mió que os da cidade!

Todo cidadão tinha um papel definido naquela pequena aldeia. Havia o padre, com fama de santo. Havia o delegado que se ocupava em vexar os garotos que roubavam frutas. Havia os aldeões simples, matutos e desconfiados. E havia o velho Petrônio, o louco da vila.

Poucos, na verdade, ousavam-lhe trocar cumprimentos. Petrônio não era dado a converseiros. Sua aparência física contrastava com a daquela população. Olheiras bem definidas, silencioso, sorumbático: seu corpo quase não conheceu lâmina. Cortava o cabelo apenas quando lembrava. Diziam que o velho Petrônio não dormia. Apenas se enfeitava em meados de agosto, nas festividades da colheita da moranga cabotiá.

Continue lendo “Cidade pequena”

Ponto A (rumo ao Ponto B)

As pessoas não querem mais ficar perto umas das outras.
Mas o que afasta não é a máquina, é o descontrole do uso.

As populações dos países veem seus governos afundados em escândalos.
Mas os erros dos governantes não ficam mais nas gavetas.

As grandes corporações manipulam nossa realidade.
Mas o jornalismo independente cresce aos borbotões.

O preconceito de diversos tipos tornou-se mais escancarado.
Mas a luta contra eles está mais aberta.

Não temos futuro, nem sabemos para onde ir.
Mas os grandes passos da História sempre são incertos.

Temos medo do que vai nos acontecer no futuro.
Mas nossos pais e nossos avós também tiveram.

Hoje o conceito de “família” está desestruturado.
Mas novas formas de família o completam.

Os artistas estão perdidos ou comprados.
Mas a Arte não.

Os jovens de hoje não serão como os adultos de hoje.
Mas serão os adultos do amanhã.

Não há desculpas para o pessimismo.
Tudo depende do seu ponto de vista.

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Um bombom salvou minha vida

Meu amigo é literalmente inquebrantável. Ele finge que não sabe.

Em outro texto, eu falava sobre as bem-aventuranças de um caxias. E dentre os meus amigos que possuem essa qualidade, não deixo de incluir o Toninho. Olhos firmes, sorriso tímido, espinha ereta: meu amigo possui a honestidade digna dos grandes caracteres. Ele, no entanto, finge que não sabe. Prefere pensar-se qual Pedro Pedreiro, cantado por Chico Buarque.

Desde que nos tornamos amigos, ele nunca mudou seu jeito de ser. Manteve o jeitão sossegado de outrora com fidelidade absolutíssima. Eu pensava: – “Ele é assim tão calmo?” Felizmente, percebi que sim. Sua paciência pode impressionar até um lama tibetano. Ele é literalmente inquebrantável – para um artista, como eu, inquebrantável até demais. Mas também esta diferença é facilmente equalizada entre nós.

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Tempo: o melhor casulo

“Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios.”

No dia de descanso, ao acordar de uma soneca, lembrei-me da criança triste e esforçada que eu era. Revisitei cada drama vivido na transição para a adolescência, ou segunda velhice, onde não sabia quem eu era ou o que faria no mundo. Foram tempos mágicos, mas igualmente sofridos. A inconstância típica de um ser em construção marcou-me profundamente. Hoje, mais calmo e indiferente a certas coisas, ainda me comovo quando vejo alguém se perguntando: – “Mas o que faço da vida, meu Deus?”

Minha segunda velhice tinha uma característica própria: o anseio de atrair carinho e atenção dos mais velhos. Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios. Aprendi a entender a mudez dos gestos e ler palavras entrecortadas. Competia comigo mesmo em busca de um ombro amigo. Não sabia se deveria encarnar o ser “maluco” que se plasmava em mim, ou se utilizaria a máscara que definiria minha vida, como numa peça da Commedia Dell’Arte. Meu espírito se curvava a um regime de meritocracia emocional. Continue lendo “Tempo: o melhor casulo”

Até os parquinhos apodrecem

“Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas.”

Muitas das inspirações deste blog surgem das minhas viagens de ônibus pela cidade. Nelas, não tenho vergonha de ser nostálgico. Sinto como se o clipe de minha vida passasse diante de meus olhos. Numa das reminiscências, fui transportado ao ano de 2003, talvez 2002. Devia ter entre dez a onze anos. Se minhas memórias da infância são sempre desconexas, as memórias do meu eu velhinho sempre estão intactas.

Como qualquer velho que se preze, eu era uma criança triste e pungente. Sentia desde o berço, como Augusto dos Anjos, minha vocação para a pungência. A pungência é, inclusive, a qualidade-mor dos nostálgicos e dos observadores. Quando entendi (depois de adulto) o conceito japonês de wabi-sabi, acalmei-me. Wabi-sabi é algo que gosto de traduzir como “a estética do efêmero.” Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas. Continue lendo “Até os parquinhos apodrecem”

Drops: Carlos Drummond de Andrade

“O poeta da pedra no caminho me punha pedras no sapato.”

Drummond é um dos grandes poetas brasileiros que não deixa de pôr pedras em meu sapato. Seus poemas sempre me foram pungentes. Não à toa, carrego no peito uma grande estima pelo Itabirano.

Quem sou eu para falar de Drummond? Deixarei que ele fale por si mesmo, por seus poemas. Inclusive, a ideia do Drops é não trazer dados biográficos. Traremos apenas os poetas e suas mensagens. Que as palavras de Drummond continuem reverberando em nossos corações, assim como o meu coração tremeu ao ouvi-lo ainda na minha primeira velhice.

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Uma vida crepuscular

“Quem olha nos olhos de seus fantasmas nunca mais é o mesmo.”

Naquela Mauá de lembranças ternas e antiquíssimas, algo particular me ronda a mente. Nestes momentos, é incrível perceber como algo tão distante pode materializar-se em meus pensamentos: o crepúsculo. Como poderei definir a sensação mágica de uma criança ao assistir quase diariamente aos mais belos crepúsculos de sua vida?

Em minhas imaginatividades, creio que o crepúsculo é o momento onde o tempo entra em suspensão. A mágica ilumina o ambiente. Quem para para assistir pode tocar esta atmosfera etérea. Eu, particularmente, fui criado em um lugar alto. Nas palavras de Herivelto Martins, esse detalhe me deixava “mais pertinho do céu”. Nas costas da casa, o sol se punha. À frente vinha o clarão de seu nascimento. Ao ler a Odisseia de Homero, aprendi que a deusa Aurora vinha pessoalmente em sua carruagem para acordar o Sol. Sem querer, passei a desejar-me encontrar com ela, mesmo que por um segundo.

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Tenho a maior vergonha de odiar

“…a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.”

Como me sinto velho, não confio em minhas próprias sensações. Não sei se esta impressão é apenas minha. Mas creio que nós vivemos em verdadeira época de fúria. Quando ouço Nelson Rodrigues dizer que os anos 60 eram furiosos, sinto-me levemente indignado. É claro que haviam fúrias sessentistas. Mas a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.

Não é novidade repetir que vivemos numa época de crise geral. Praticamente todos os setores pastam em campos críticos: a religião, a política, a economia, até o futebol. Transformaram o templo da arte popular em vendilhão. Eles, os donos da bola, dominaram os estádios com suas propagandas. Nem as camisas dos jogadores se salvaram. Vez ou outra, alguns torcedores dos times grandes esbravejam nas redes sociais: “Fomos roubados.” Outros dizem até haver um esquema de benefícios entre times. Nada afirmo. Apenas constato o que se diz por aí. Talvez o Brasil ainda esteja no aprendizado existencial, por isso os tropeções em tantas coisas simples.

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Henrique Vitorino no Anael Lopes Show

[Anael Lopes (centro) com os convidados Henrique Vitorino e Marco Aurélio Manupella. Foto: Jota Jardim.]

Henrique Vitorino esteve no programa Anael Lopes Show, da Rádio ABC 1570 AM, ontem (21).

Com muito bom humor, Anael conversou com Vitorino sobre o seu interesse pela seresta, ouvido absoluto e a gagueira – uma peculiariedade também comum ao Rei dos Boêmios, Nelson Gonçalves. Além da conversa, Vitorino interpretou dois sucessos de Nelson: “A volta do boêmio”, de Adelino Moreira, e “Nunca”, composição do gaúcho Lupicínio Rodrigues.

Além de Henrique Vitorino, Anael recebeu Marco Aurélio Manupella. Em nome do Fórum São Paulo, Manupella entregou-lhe um prêmio pelos serviços prestados no rádio.

O Programa Anael Lopes Show é transmitido aos sábados, das 13h00 às 15h00.

O referido programa pode ser assistido aqui ou na fanpage da Rádio ABC.

Santo André, um tutorial

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“Alguma coisa acontece quando ando a pé / Pelas avenidas do centro de ti, Santo André”

o futuro já começou quando encontro Santo André, é incrível como minha sintonia com a cidade não se perde, aos poucos me vejo dentro de seus cruzamentos e faróis, é verdade que tudo isto tem um alto preço para o ambiente, sou fruto desta paranoia urbana, mas tudo também tem suas alegrias. o céu estava cinza e é assim que gosto de ver a minha terra da garoa particular, que é mãe da garoa de são paulo

pra quem não conhece esta é a avenida edson danillo dotto, mas qualquer andreense chama de avenida perimetral, o primeiro e eterno nome

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Os santos também traem (Ato III)

“Quem viu o carnaval de Antônio deve assistir sua retratação.”

IV – “Esse Santo Antônio me paga!”

Para que o encontro não terminasse ainda mais funesto, Pedro e Joana juraram acalmar os ânimos de Graça. Foram correndo atrás da mãe combalida. Os músicos de Antônio faziam cara de paisagem. Os convidados, por sua vez, faziam cochichos mordazes. No banner, o rosto de Jorge reinava silencioso e absoluto.

Com muito suor, os dois filhos imploravam a atenção da mulher: – “Abre, mãe, abre a porta!” Ao deixar-se ver, a viúva estava em choque. Disse que jamais esperava tal atitude por parte de um filho. Os dois irmãos juraram que a situação seria resolvida ainda no mesmo dia: – “Quem viu o carnaval de Antônio deve assistir sua retratação.” Após o argumento filial, Graça conteve as lágrimas. Pediu que os filhos saíssem, pois queria pôr os sentimentos em ordem.

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Os santos também traem (Ato II)

“[…] passou a comportar-se como quando no quartel.”

II – A guerra que a Guerra causou

Apesar dos conflitos e de certa submissão de Graça, o casal permanecia firme. Ninguém ousava plantar dúvidas no sentimento entre os dois. Ambos batiam no peito quando diziam superar juntos os problemas individuais. Sua família servia como prova de autenticidade. Aos poucos, Jorge e Graça ganharam netos e bisnetos. A semente havia frutificado. Continue lendo “Os santos também traem (Ato II)”

Os santos também traem (Ato I)

“Se fosse necessário, ela morreria pura como nasceu. […] Ela orgulhava-se de sua fidelidade incorruptível.”

I – Os velhinhos amavam-se mais que tudo

Jorge era paranaense dos Campos Gerais. Maria da Graça vinha do Nordeste. Ambos encontraram-se em São Paulo, no tempo em que as mulheres eram recatadas e os homens ainda cumprimentavam com os chapéus abanando. Eram os anos trinta. Paixão à primeira vista, claro, mas sem agravos. Ela viera a estudo; ele preparava-se para guerrear no estrangeiro. Casaram-se neste interlúdio.

Ele só contou a Graça que era soldado quando estavam bem apaixonadinhos. Ela tremeu-se toda, disse que não era justo. Mas optou por ficar com ele. Passou a incomodar-se com os italianos berrantões do Bixiga, como se a guerra acontecesse por culpa deles. Alguns disseram que ela fazia até o sinal-da-cruz ao passar por lá. Continue lendo “Os santos também traem (Ato I)”

Quem é burro é mais feliz?

“Existe hoje uma miríade de seres iluminados…”

“Ó feliz culpa, que mereceu tão grande Redentor!” Com esta frase do Exultet de Páscoa, Tomás de Aquino exalta a existência do pecado original. É engraçado pensar num monge fazendo apologia ao pecado. Este gracejo, porém, não foi gratuito. Herdando do platonismo o puro desprezo à matéria, a tradição católica não poderia abandonar esta contradição entre Luz e Trevas, Bem e Mal, Deus e o Homem – assim mesmo, em maiúsculas. O conhecimento teológico guardado pelos monges era divino; a ignorância, reservada ao povo simples e analfabeto, era diabólica. O estado de beatitude (ou seja, conhecer a presença de Deus) só era permitido aos santos e iluminados. “O que vem além disso”, citando o apóstolo Paulo, “é do maligno”.

Encontramos um fato concreto neste conceito. A luz é o que permite o conhecimento. Mas surgem perguntas cabais: quem possui o acesso ao conhecimento? É possível fazer juízos de valor sobre a luz ou a treva de um indivíduo? E a mais importante: quem pode considerar-se iluminado? Visto o fenômeno atual dos “grandes iluminados”, gastei uma parte do meu dia para dissecar a questão.

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Diplomados em idiotice

“Sabia que quem chama o irmão de idiota vai para o inferno?”

Ao lembrar-me da infância, sinto um saudoso nó na garganta. Tenho muitas lembranças daquela Mauá onde apenas os livros eram meus fiéis companheiros. Em tenra idade, eu vivia minhas fantasias num bairro cheio de nomes de escritores: Tomás Antonio Gonzaga, Raul de Leoni, Inglês de Souza. O patrono de minha rua era o maranhense Raimundo Corrêa. Não havia ambiente melhor para educar minha alma pueril, já tão artista.

Sem que eu soubesse, minha meninice foi toda plenilúnio, exceto pelo fato de eu ser considerado um garoto-prodígio. Nunca tive paz. Entre louvores e elogios, eu tentava subsistir como uma criança normal. Recusava a superioridade que os outros me conferiam: saber de tudo aquilo era normal. Mas meu vocabulário destoava completamente de meu tamanho. Lembro-me de um caso curioso que aconteceu por volta dos meus seis anos.

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