Os “caxias” correm risco de extinção

“Em terra de malandro, quem obedece é caxias.”

Gostaria de retratar um dos saudosismos mais caros de minha infância, o personagem do caxias. Ouvi a palavra pela primeira vez na minha idade escolar. Referindo-se a uma professora que não faltava no trabalho nem com o cumprimento do apocalipse, alguém disparou: – “Nossa, como ela é caxias!” Logo imaginei um senhor de quepe e barbas longas.

Eu não estava de todo errado: o termo remonta ao Duque de Caxias, o patrono do nosso Exército. Tendo barbas ou não, a imagem do tal caxias permaneceu intacta em minha cabeça infantil. Mais tarde, fiquei triste ao constatar que a professorinha anunciava o fim de um período em nosso país. Não existe sequer um caxias no Japão, terra de gente trabalhadora. Sua presença também não faria sentido nos Países Nórdicos. Nossa época rareia este personagem tipicamente brasileiro.

Não existem mais caxias como os de antes. Aliás: existem, sim. Mas são raríssimos. Os outros, corados e abundantes, são os chatos. Por não conhecer muitos caxias, acabamos por confundi-los com os outros. Ao aprendermos a diferenciar os chatos dos legítimos caxias, reconheceremos a sua importância na construção de nossa identidade nacional. Os caxias, ao contrário dos chatos, se dedicam ao trabalho duro e silencioso que está velado a nossos olhos.

É possível conhecer um chato pelos seguintes sintomas: não possui qualquer compromisso com o que polemiza; faz-se de surdo a todas as críticas; precisa de alarde em tudo o que faz; possui discursos infantilizados; tem horror a exigências; e o principal, revela sagaz hipocrisia.

“O chato está sempre na moda. O caxias traz em si a maturidade da vida.”

Vamos aos fatos. O caxias não reclama, mas faz. Independente se o trabalho lhe agrada ou não, acredita que este é mais importante que sua opinião. O chato, por sua vez, reclama muito por pouca coisa. Insinua não querer por não gostar. O chato escandaliza sua vontade de não-agir. Macula o silêncio orante do caxias, berrando mantras desafinados e mancos.

Essa característica assinala o primeiro ponto: o chato não tem compromisso com o que reclama. Se preciso for, o caxias dará seu suor, sangue e alma. O chato dá apenas dor de cabeça. Nos outros, de preferência.

Sigamos ao segundo ponto. Quem já viu caxias reclamar por ser caxias? O verdadeiro caxias é abnegado. Faz voto de pobreza ao não se importar com sua própria imagem. Nosso amigo contrasta duramente com o chato, que precisa criar a impressão que é cult, moderno, high-tech. O caxias convive com sua solidão à guisa do monaquismo. Já o chato está sempre na moda. Aliás, não se diz chato: se diz boring.

Em terra de malandro, quem obedece é caxias. E o caxias não obedece porque deve, mas porque pode. O caxias possui a doce ingenuidade de um imperativo categórico.

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O caxias não se importa com aquilo que falam dele. E muitas vezes, de forma injusta, chamamos o caxias de chato. Mas o que palpita em seu peito é um coração de carne. O coração do caxias deseja o bem de todos, mesmo que deva sacrificar-se para isso. O chato? Trata a todos com o cinismo de um carrasco. O caxias não precisa da energia dos aplausos: isso mesmo o torna mais econômico. Conviver com um chato exige um custo maior na convivência: ouvidos moucos e ombros largos, memória curta e pavio longo.

Tendo certeza de seu próprio valor, o caxias traz em si a maturidade da vida. Neste ponto, identifico-me com eles, pois tive a honra de nascer velho. O chato nunca terá a oportunidade de sair da infância. Se o chato envelhece, ele adquire a rabugice – assunto bem mais complexo e digno de outras crônicas. O caxias não é rabugento, mas exigente. Sabe que toda pessoa pode ser melhor, se assim o quiser. Enquanto o caxias é o filho adulto que cuida dos pais velhos, o chato é o rapagão que reclama da mesada dos pais aposentados.

O verdadeiro caxias foge da polêmica. O chato legítimo converte sua vida privada em show. O caxias procura o resultado. O chato polemiza o processo. O caxias pergunta: – “Como?” O chato provoca: – “Mas eu fazia assim…”

O insigne doutor Oswaldo Cruz foi um de nossos caxias mais necessários.

As redes sociais ofereceram grande terreno para o desenvolvimento da chatice. Como a vida dos mortais – nestes, eu incluso – não é interesse digno de vitrine, uma avalanche de notícias irrelevantes nos arromba a porta. É possível que um caxias utilize a internet. Sua presença na rede, porém, limita-se ao útil. O caxias não possui a necessidade de mostrar-se. Sabendo de seu valor, o caxias alimenta-se automaticamente, como numa fotossíntese emocional.

Último, porém importante: o chato não suporta a sinceridade do caxias. Sua conduta inflexível o leva à loucura. Enquanto o chato agoniza de ódio, o caxias levanta às cinco; toma seu café com pão na chapa e sai para o trabalho antes do pico. O chato o fuzila, atrás de seus óculos. O caxias não se estressa, pois sabe da importância de seu dever. O chato reclama do volume do trabalho, e o caxias apenas executa suas tarefas. Ao terminar o dia, o caxias volta para casa, toma um banho, faz o jantar e ouve seu disco predileto. O chato fecha a porta atrás de si, senta no sofá e dorme de calça jeans.

Estes sólidos argumentos mostram a importância dos caxias em nosso país. Grandes gênios brasileiros tiveram essa qualidade, haja vista o melhor médico que o Brasil já teve, Dr. Oswaldo Cruz. Mesmo sob severas críticas da imprensa brasileira, Dr. Oswaldo realizou um trabalho ímpar no mundo. Infelizmente, o prestígio só veio após a premiação internacional. Mas Dr. Oswaldo não cedeu um passo sequer. Ele não queria os aplausos para si, mas desejava a saúde do Brasil. Enquanto existir, o povo brasileiro possui o dever de agradecê-lo e mantê-lo na memória.

Por tudo isso, aprendi a amar os caxias que conheço. Se eu tivesse a oportunidade, gostaria de voltar à minha infância. Procuraria a professorinha e diria: – “Dona Conceição, muito obrigado por ser meu modelo de caxias!”

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