O Brasil não precisa de heróis, mas de cidadãos

“Barry Manilow tornou-se tão humano quanto uma banda punk de garagem.”

“Violão não é para mim!” Toninho confessou sua indecisão entre dois copos de chopp: o dele e o meu. Estamos à mesa, no ofício da psicanálise de boteco. Seus olhos vacilam. O gole alivia a garganta seca. Mais um gole ajuda a dar serventia às mãos indecisas. Depois da afirmação grave, calou-se.

A frase doeu fundo. Violão não é para mim, disse o amigo. Sabendo que trabalho com música, a frase soa como acinte. Se não é para alguém, o violão é para ninguém. Se é para ninguém, o violão também não é para mim. Mexo as sobrancelhas de propósito. Ele pretende suar frio, mas solta um riso tímido. Continuo repetindo em minha memória: violão não é para mim. Nos encaramos num silêncio largo.

Se o violão não é para o nosso amigo, para quem seria? O violão pertenceria somente aos artistas iluminados, como Francisco Tárrega, Agustín Barrios, Andrés Segovia? Quem poderia apropriar-se de um violão, a não ser alguém dotado de técnica sobrenatural? Quem poderia intitular-se bom violeiro, além da criatura que deixaria os anjos harpistas morrendo de inveja?

Acredita em Toninho quem dissocia a arte da vida real. Felizmente, para o seu equívoco, monstros sagrados também erram. Grita em meu favor o semitom do piano de Barry Manilow. Era plena cerimônia do Nobel de 2010, na cidade norueguesa de Oslo. Ao inflar-se com os exigentes aplausos nórdicos, ele tocou uma nota errada. A mágica se desfez. Barry Manilow tornou-se tão humano quanto uma banda punk de garagem. Depois da gafe, os olhos claros da plateia vigiaram cada movimento seu, cada nota, cada frase. O astro americano deixou escapar a sua humanidade.

“Se entendêssemos a arte, não precisaríamos cultuá-la.”

Respeitando o diálogo terapêutico, resolvi provocar Toninho. Perguntei-lhe: – “Como é?” Ele contorceu-se como uma criança quando quebra o vaso da mãe: – “Não, não é para mim. Não insista.” De fato, não insisti. Dentro de mim, contudo, resistia um silêncio inquieto. Se o violão não é para ninguém, a arte não faz sentido. E o que resta da vida se a arte é relativa? Sem querer, meu amigo foi semiótico. Quando expus a questão filosófica, Toninho arrepiou seus cabelos brancos.

E o Toninho fez a pergunta evitada por miríades de filósofos: qual o sentido da arte? A arte, por si mesma, não faz sentido. E a ausência de sentido é o que confere seu encanto. Se entendêssemos a arte, não precisaríamos cultuá-la. Qualquer obra de arte seria tão comum quanto uma receita de bolo de fubá. O problema não surge na arte, mas na técnica artística. Toninho não teme a arte em si, mas o limite de sua compreensão acerca do infinito. Ele acredita que uma mente madura não poderá alcançar a maturidade artística com rapidez.

Nisto, o problema se agrava. Nossa cultura não colabora para uma saída na questão dos velhos. Em nosso vocabulário, a própria palavra velho é carregada de preconceito. Incluímos uma pessoa velha na mesma categoria de uma roupa velha. Respeita-se a pessoa idosa como se ela não fosse velha. A velhice é escamoteada dos nossos olhos, estereotipada na sociedade e inclusive na arte. Hoje o idoso vive mais. Mas não vive com eternos vinte anos. Velhos ou não, os idosos continuam lutando contra a decadência de sua vitalidade. O jovem se sente ameaçado quando um velho precisa de seu assento. No frêmito da insânia digital, o bebê adulto esquece da cortesia e do respeito aos velhos. No Carnaval, a ditadura dos corpos jovens. Uma rainha de bateria idosa seria objeto de galhofa. A sensualidade brasileira tem horror à velhice.

“O Brasil ainda não teve o tempo histórico de ser velho. Somos uma nação novíssima.”

Dada a situação, quem teria a coragem de mudar esse conceito? O Brasil ainda não teve o tempo histórico de ser velho. Somos uma nação novíssima. Nossa essência, inclusive, ainda está em latente evolução. Como disse Darcy Ribeiro, nossa identidade é ser ninguém. Enquanto isso, a China repousa dentro de suas antiquíssimas Muralhas. A Índia possui quase seis mil anos e está novinha em folha, dominando a tecnologia como poucos países no mundo. A Lituânia, um dos reinos mais antigos da Europa, orgulha-se de sua maturidade e da herança dada aos irmãos europeus. Nós, brasileiros, aprenderemos a conviver com a maturidade em cima da hora, quase atrasando. Nada mais comum ao jeito brasileiro de ser.

Em nosso país, poucos bem-aventurados sabem reconhecer a força e a importância dos idosos. Assim como Toninho pensa que o violão não é para ele, muita gente pensa que a vida plena não é para quem viveu muito. Tendo corpo jovem e mentalidade velha, eu digo de cátedra. Quem pensa deste modo ou se enganou, ou morreu em vida. Nossos velhinhos ainda têm muita lenha para queimar, e ai de quem discordar. A idade avançada não é motivo de pânico; só são necessários cuidado e afeto.

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O corpo de Henrique Vitorino posa para o mestre Luiz Rettamozo. Curitiba, 2017.

Estendendo a pergunta, podemos questionar: – o idoso é para quem? Como poderíamos pensar formas de acolhimento verdadeiro? Como evitar a piedade e a compaixão que tornam a pessoa idosa fragilizada e dependente? Cabe a nós repensarmos o conceito de velho: não falamos de objetos velhos. Falamos de pessoas que sentem orgulho de suas velhas idades. Tratamos de gente que possui muito que oferecer, através da experiência de vida e de novas vivências.

Voltemos à querela com nosso velho amigo. Se não o violão, o que é para Toninho? Qualquer coisa que ele quiser aprender. O que é para a pessoa idosa? Tudo o que ela quiser ser, desde que seja respeitada sua integralidade. Que o horror à velhice seja condenado ao esquecimento perpétuo. Nós, brasileiros, somos jovens que amadureceram. Essa condição nos exige novas posturas, novos olhares, novos entendimentos. Talvez seja o que Toninho precise: a maturidade artística só se realiza com a maturidade da vida.

Logicamente, existem os idosos incapazes, em situações graves e muito particulares. Também eles precisam de nosso carinho e respeito. De repente, Toninho me encara com seu sorriso habitual. Percebo que sou afortunado ao me incomodar com todas essas questões aos vinte e seis anos, na minha primeiríssima velhice. O Brasil não precisa de heróis, mas de cidadãos que deem justo valor aos que vieram antes de nossa época. E anuncio: sou grato à Vida por saber que vou envelhecer amando os meus cabelos brancos.

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