O maracujá (ou “A garota mais feia da paróquia”)

“Não suportava tamanha exposição de minha pequenez.

Sou um ser nostálgico por excelência. Creio que não consigo deixar de lembrar do passado nem debaixo d’água. Por isso mesmo, vieram à tona meus poemas de juventude – junto com o personagem que os escrevia, claro. Pelo fato de ter encontrado hoje um poema escrito há doze anos, esse antigo fantasma me fez cócegas nos pés. E para falar de meus poemas e do eu que me habitava, preciso falar sobre o ambiente em que estava metido.

Antes de escrever, eu lia e muito. Li autores dos mais variados, os mais e menos célebres. Graças à Elizangela, minha sempre venerada professora de Português, pude ter vasto conhecimento sobre a poesia brasileira. Mas peguei o péssimo hábito de comparar meus textos com os dos mestres. Não por influência dela, claro. O desejo de ser notado e aclamado era unicamente meu.

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Por que o desejo tenro de ser notado e respeitado? Na pré-escola dos anos 90, as crianças geralmente tiravam fotos vestidas de bichinhos – talvez por influência do comercial da Parmalat. Era moda febril e, por ser febril, era ridícula. Não suportava tamanha exposição de minha pequenez. No dia da tortura, deram-me a fantasia de cachorro – a que eu não queria. Quando posei para a câmera e abri um sorriso, uma tia que me acompanhava disse: – “Não sorria. Você tem uma abertura entre os dentes. Seus dentes são feios.” Nunca mais sorri para foto alguma, até hoje.

Aprendi, pelo menos, uma lição desta frase infame. Entre os dentes e o caráter, todos nós temos algo de feio para mostrar. Ainda bem que minha feiura era só a abertura dos dentes. A história aconteceu no longínquo século XX. Estávamos no ano de 1997, o mesmo ano em que denunciei o assassinato do índio Galdino. Como eu teria resiliência emocional aos seis anos? Alguns já tinham a mania de me chamar “gênio”. Eu, no entanto, não tinha qualquer inteligência para a vida real. Não sabia o que era uma nota de dez reais. Na época, só conhecia as capitais do mundo até então. Enquanto eu repetia como um papagaio que São Petersburgo não era a capital da Rússia, os adultos insistiam em me por rótulos. Todos nós temos algo de feio para mostrar.

“Tive que aprender a ser esperto antes da hora.”

Depois que alcancei a terceira velhice, pude entender a situação com óculos mais acurados. A pobre tia invejou o sorriso que saiu de minha inocência. Sentindo-se ameaçada pelo brilho de um ser tão pequeno, ela fez questão de ofuscar-me. Eu dizia antes que cada um tem algo de feio para mostrar. Infelizmente, ela tinha algo feio a esse ponto. Além desta, outra verdade ululante: já em 1997 ela não tinha dentes para sorrir. Ao dormir em sua casa, minha irmã e eu ríamos do sorriso úmido e mórbido da dentadura no copo. Ela foi capaz de esperar o momento certo para beliscar-me. Asseguro que não é feio usar dentadura. Feio é dizer que uma criança é feia porque tem dentes.

Ao saber de toda a confusão, meus pais ficaram nervosos – e mais nada. Com certeza, pensavam que eu era inteligente a ponto de saber me defender (sempre a maldita “genialidade”!). Mas a bomba ficou para mim. Este e outros problemas me presentearam com a marca da velhice precoce. Tive que aprender a ser esperto antes da hora. Até aprender, eu apanhava calado dos amigos, dos adultos, da vida. Fui saco de pancadas até enjoar da profissão. Isso mudou um pouco na minha segunda velhice, que as pessoas chamam de adolescência. Eu era um broto cheio de espinhas e dúvidas.

“Talvez meu sentimento por ela não era o amor, mas a solidariedade.”

A maldição dentária me perseguiu também nesta fase. Na segunda velhice, nunca consegui atrair o amor de qualquer pessoa. Eu era velho e estranho demais: aos quinze anos, quem anda naturalmente de paletó e gravata? Mal sabia que o meu boêmio particular já esperneava para sair da caixa. Em tempo: eu ainda acreditava que era feio. Fazia questão de exaltar as diferenças gritantes entre a minha mente senil e o meu corpo, falando, vestindo e pensando como um homem velhíssimo. Enquanto os jovens da minha época escutavam bandas emo (quem lembra disso?), eu estudava alemão. Ohne Lehrer: sem professor.

Mas o Amor, filho do deus da Abundância com a mendiga Pobreza, quis jogar comigo. E jogou um jogo sujo. Ele fez-me apaixonado pela garota mais feia da paróquia. Isso foi o que me disseram, visto que o amor é cego. Comecei a ficar doente. Não via a hora de estar na igrejinha branca. A menina nem me notava. Mas quedei-me desejando sua feiura inteira. Nem me importava se ela era feia, ou não. Eu apenas amava. O próprio Platão ficaria impressionado ao ver tamanha transcendência da matéria. Eu sabia que todos a achavam feia. Mas queria aquela feiura só para mim. Nada de contar para ninguém: bastavam os julgamentos pelo meu jeito de ser e falar. Na época, eu já gaguejava. O amor travava minhas palavras de um jeito dramático.

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Talvez meu sentimento por ela não era o amor, mas a solidariedade. Não pretendo ser cruel. Digo com a voz da experiência: os oprimidos sempre costumam somar as vozes. Ambos estávamos juntos em nossa feiura particular. O estranhamento imposto a nós pelos outros era recíproco. Acontece que, numa tardinha qualquer, a garota feia soube que eu a amava. Ela disse que as coisas não eram bem assim, que éramos amigos, coisa e tal. Fui posto na geladeira que os jovens de hoje chamam “friendzone”, e os da minha época chamavam “bota”. Fiquei arrasado. Eu fui rejeitado pela garota mais feia da paróquia. Juro que ouvi a voz da tia má: – “Não falei que seus dentes eram feios?”

Talvez a garota feia tenha sentido um grave estranhamento. Ou talvez ela não tivesse motivos para acreditar no amor de ninguém. Quando ela me encontrou munido de perfume, paletó e cartas amanteigadas, chocou-se ao extremo. Talvez eu não fosse feio, e sim estranho demais para ela. Embora eu tenha superado o antigo modelo de amor, carrego ainda hoje esses hábitos antigos. Sou velho até para amar. Hoje, a garota feia seguiu seu caminho, e espero que esteja muito feliz. Eu, de paletó e com cartas de amor nas mãos, fiquei na mesma.

Não posso terminar sem dar um ponto final em minha tia. Mesmo na minha primeira velhice, eu sabia que não poderia deixá-la impune. Nessa época, a injustiça já me era muito dolorosa. Graças aos Céus, eu fui dotado de uma contemplação atenta, que sempre flertava com a anarquia. Nada me escapava do olhar e, quando eu queria, o mundo vinha abaixo. Acreditem: eu fui o pestinha que perguntou sobre as flatulências do meu pai diante do chefe dele. A pobre tia não sabia com quem estava mexendo.

“Alea jacta est” tinha o mesmo encanto que “Maracujá de gaveta”.

Na primeira velhice, meu mundo era feito de palavras e expressões riquíssimas. Já pequeno, aprendi a frase de César quando atravessou o rio Rubicão, contrariando o Senado Romano: – “Alea jacta est.” Mais ou menos à mesma época, ouvi um xingamento curioso: maracujá de gaveta. Perguntando o significado, ouvi: – “Quando o maracujá fica velho demais, ele seca.” Simplesmente arquivei a frase em minha memória, esperando o dia de sua liberdade.

O tempo passou: eu ainda frequentava a casa da minha tia. Infelizmente, convivi com ela em sua época mais autoritária – apesar de não ter havido época mais liberal. Esperei que ela me deixasse fora do sério: me proibir de bater bola, não deixar dormir tarde, qualquer coisa assim. Lembro-me de ser uma manhã fria. Ela, de sangue espanhol, ludibriava o tourinho do alto de sua impáfia adulta. Quando notei, fui tomado pela ira divina. A palavra mágica criou vida em meus lábios: – “Maracujá-de-gaveta!” Ela congelou. Lembro-me que, a partir dali, fui tratado com mais humanidade.

Moral da história: a garota feia seguiu seu caminho. Há dois anos, eu a encontrei num restaurante. A tia maluca também vive, e está mais maracujá-de-gaveta que antes. Sua voz em minha cabeça, contudo, só sumiu depois de um ano de terapia.

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