Tenho a maior vergonha de odiar

“…a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.”

Como me sinto velho, não confio em minhas próprias sensações. Não sei se esta impressão é apenas minha. Mas creio que nós vivemos em verdadeira época de fúria. Quando ouço Nelson Rodrigues dizer que os anos 60 eram furiosos, sinto-me levemente indignado. É claro que haviam fúrias sessentistas. Mas a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.

Não é novidade repetir que vivemos numa época de crise geral. Praticamente todos os setores pastam em campos críticos: a religião, a política, a economia, até o futebol. Transformaram o templo da arte popular em vendilhão. Eles, os donos da bola, dominaram os estádios com suas propagandas. Nem as camisas dos jogadores se salvaram. Vez ou outra, alguns torcedores dos times grandes esbravejam nas redes sociais: “Fomos roubados.” Outros dizem até haver um esquema de benefícios entre times. Nada afirmo. Apenas constato o que se diz por aí. Talvez o Brasil ainda esteja no aprendizado existencial, por isso os tropeções em tantas coisas simples.

“Quando somos velhos, é difícil acreditar na inocência e na espontaneidade das coisas.”

Como eu dizia numa outra crônica, o Brasil não teve o tempo histórico de ser velho. Somos uma nação novíssima. Mundialmente, somos novíssimos na utilização de fenômenos de massa tão globalizados. Mark Zuckerberg pôs a cereja no bolo e ficou bilionário. Talvez o americano fez algo que mudaria a humanidade para sempre numa jogada de sorte. Ou ele percebeu de forma meticulosa que as pessoas não se desprendem facilmente daquilo que possuem ligações emocionais. Quando somos velhos, é difícil acreditar na inocência e na espontaneidade das coisas.

Os tais fenômenos de massa necessitam de duas coisas, apenas: além de pessoas dispostas a compartilhar organicamente o que foi criado há um tempo atrás, necessita de uma mensagem cativante. É por isso que as saraivadas odiosas nas redes são frequentes. Li não sei onde que o ódio cativa mais que o amor. Por ser uma emoção mais simples (não precisar das complexas noções de alteridade e entrega, por exemplo), o ódio se instala com facilidade na cabeça de qualquer um. É possível encontrar pessoas que sentem ódio em comum sem muita dificuldade. Com a célebre pergunta “No que você está pensando?“, o facebook nos ensinou a abrir os portões da nossa mente – mesmo que seja para deixar escapar nosso pit bull interior.

Perdemos a vergonha e o pudor que ainda existiam nos anos 60 (aquele que Nelson Rodrigues, por ser da época, não enxergava). Naquele tempo, ainda existiam o medo do inferno, a crença em caráteres invergáveis na política, o contato humano. Éramos iludidos, porém mais felizes. No século XXI sabemos que até mesmo os países menos corruptos possuem escândalos de corrupção. Se eles não divulgam, a fim de não manchar sua fama ilibada, nós sabemos. A corrupção, assim como o amor, está no gene humano: tudo se aprende.

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“O ódio é uma flor roxa / que nasce no coração…” Deixa pra lá.

“Ao andar com gente que rouba, você perderá a vergonha de roubar.” Este foi o ensinamento simples que meus pais me outorgaram na longínqua década de noventa. Com frases simples, sem saber como, eles conseguiram moldar em mim um caráter que preza pela gentileza e pelo humanismo. Em suma, os velhinhos diziam: ao andar com gente que sente ódio, você perderá a vergonha de odiar. Não aprenda este costume. E confesso para quem quiser ouvir: tenho a maior vergonha de odiar. O que eu diria ao ser encontrado pelos amigos babando, com pedras na mão para jogar em quem esteja perto?

“Quando descobri meu corpo, entrei numa das maiores paranoias da minha vida. Aprendi a ter raiva dele.”

A vergonha é um sentimento ligado aos outros. Sartre dizia que o inferno eram os outros. Em partes, concordo. Os outros são o inferno na medida em que nos tolhem, nos punem por não cumprirmos aquilo que desejam. Mas os outros também nos dão noções importantes para a vida. Lembro-me de ter aprendido na igreja: “Você precisa ser casto.” Ora, o ensinamento de castidade total é até bonito, desde que o ouvinte tenha cabelinhos brancos. Contudo, ensinar a castidade para um garoto de quinze anos é algo ridículo, para não dizer triste. Quando descobri meu corpo, entrei numa das maiores paranoias da minha vida. Era como se minha carne fosse impura demais para ser hospedeira do corpo de Cristo. Vivia numa imensa sensação de sujeira. Aprendi, inclusive, a ter raiva do meu corpo. Eu me achava feio, como dizia ainda em outra crônica. Lutava ferozmente para transformar um poço de hormônio e desejo num pântano de emoções envelhecidas. Deveras me maltratava. Hoje, mais velhinho, consigo entender a situação e até rir dela. Mas abro o coração: tenho vergonha de odiar porque já odiei, inclusive a mim mesmo.

Algumas pessoas disseram: “Você fala muito de você nas suas crônicas. Eu não teria coragem.” Retifico. Meu blog não é espaço de drenagem para minhas represas emocionais. Tudo o que digo aqui já foi devidamente analisado, superado e arquivado. Também é necessário lembrar que estamos lidando com um escritor. Quem conseguiria separar o trigo da vida do joio da ficção?

Voltemos à questão do ódio. Na época em que nutri este troço contra mim mesmo, eu era pequeno. Foi a minha segunda velhice, a tal “adolescência”, que eu nunca soube o que é. Eu imaginava que minha vida era triste. Como havia prefigurado o filósofo Sören Kierkegaard, minha vida havia tornado-se mera possibilidade de existência. Eu não vivia, mas gastava todo o meu tempo livre imaginando, confabulando, criando motivos para viver. Eu odiava minha vida porque não conseguia entendê-la sozinho. É claro que toda esta habilidade em confabular me foi útil para escrever ficção. Mas o tempo passou até eu entender que foi uma bela mancada comigo mesmo. Hoje eu já me entendo melhor. Mas quando vejo alguém espumando, dizendo verdades ácidas e praguejando, vem à mente o termo considerado pejorativo: “Coitado, coitado…”

“Não acreditamos em nada mais além de nós mesmos.”

Sim, eu tenho a maior vergonha de odiar. Tenho, inclusive, vergonha de andar com quem odeia. Não quero aprender maus costumes. Uns dizem que me comporto com isenção. Mas o que seria a isenção, senão calar o ódio irracional que mora em mim? Nunca deixei de dar minha opinião – não à toa, este blog existe e está bem, obrigado. Mas eu sou da época em que ainda existia o medo do inferno, o livrinho preto onde Deus anotava nossos pecados; o deus-pai que olha pela fechadura para ver o que fazemos no banheiro. Hoje, moldamos um ídolo à nossa imagem e semelhança. Não acreditamos em nada mais além de nós mesmos. Enquanto eu tento filosofar e prossigo quebrando meus ídolos a golpes de martelo, outros orgulham-se da cólera e da baba em sua boca. Que a Vida não me permita andar por essas estradas.

Os pensadores do século XXI que me perdoem. Já tenho um peso muito grande nas costas para carregar ideologias de outras cabeças. Prefiro botar minha cachola para funcionar, mesmo que outros digam: “Está errado”. No início, eu acreditava que não seria legal escrever regularmente. “O que vão pensar de mim?”, eu pensava. Tinha vergonha de assumir minha solidão. Hoje, faço coro com Nelson Rodrigues: “Quem opina é um solitário.” Entre os inúmeros dois lados que se enfrentam como Santos e Palmeiras na final da Copa do Brasil, eu deixo o meu ódio isento. Prefiro pensar, maturar, deixar quieto, para então escrever. Se isso for isenção, orgulho-me da minha mudez. Sabe o que é? Eu tenho vergonha de vociferar qualquer coisa que me venha à mente.

Mas de verdade, lá no fundo, acho que não teria vergonha. Como o xará Nelson Gonçalves cantava, confessarei algo que “nem às paredes confesso”. Eu seria capaz de vociferar apenas uma coisa selvagem e ácida: tenho o maior nojo de misturar goiabada e queijo branco. E só.

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