Até os parquinhos apodrecem

“Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas.”

Muitas das inspirações deste blog surgem das minhas viagens de ônibus pela cidade. Nelas, não tenho vergonha de ser nostálgico. Sinto como se o clipe de minha vida passasse diante de meus olhos. Numa das reminiscências, fui transportado ao ano de 2003, talvez 2002. Devia ter entre dez a onze anos. Se minhas memórias da infância são sempre desconexas, as memórias do meu eu velhinho sempre estão intactas.

Como qualquer velho que se preze, eu era uma criança triste e pungente. Sentia desde o berço, como Augusto dos Anjos, minha vocação para a pungência. A pungência é, inclusive, a qualidade-mor dos nostálgicos e dos observadores. Quando entendi (depois de adulto) o conceito japonês de wabi-sabi, acalmei-me. Wabi-sabi é algo que gosto de traduzir como “a estética do efêmero.” Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas.

“Isso também vai acabar…”

Voltemos ao pequerrucho. Meu pai me levava pouco a divertimentos – hábito que mantenho fielmente até os dias de hoje. Além dos livros, eu era amigo dos meus silêncios. Até que meu pai resolveu inovar e levou-me a um parquinho próximo à nossa casa. Fui à loucura. “Como pode haver tanta luz, tanto som, tanta vida?”, pensava. Ali tinha de tudo: carrinho bate-bate, roda gigante, carrossel, até barco viking. Não acreditava que aquilo podia ser real. Apesar de toda a vida, uma voz cochichava no meu ouvido: “Isso também vai acabar.”

Fiquei feliz pela descoberta do parquinho, mas triste por mim. Enquanto meu pai tentava me entreter, pensava no que aconteceria quando eu fosse um homem grande. Talvez tudo aquilo fosse arquivado num lugar entre as memórias e os sonhos. Até que algo realmente me entreteve: a ferrugem de um dos carrinhos bate-bate. Aprendendo sobre o fenômeno de oxidação (reitero, aos onze ou doze anos), constatava que o ferro estava apodrecendo. Novamente a voz sugeriu: “Isso também vai acabar.”

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O exoesqueleto de um besouro. Paranapiacaba, Santo André, dezembro de 2017.

“Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com a morbidez. […] Eu olhava o sorriso dos cavalinhos e sentia vontade de gritar.”

Este caso me lembra certa particularidade infantil. Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com a morbidez. De um lado, os mistérios da vida sempre me excitaram. De outro, o julgamento cristão da morte e da corrupção carnal sempre me causaram horror. Nos anos 90, ainda existia o hábito de espalhar todas as fotos da família no tapete da sala. Numa dessas pesquisas, encontrei a foto da exumação de um dos meus avós. Limito-me a dizer que foi difícil ver o esqueleto de meu avô. Noutra vez, vi um plástico jogado no terreno de casa. Ao abri-lo, havia um cachorro morto. Seu estado de decomposição já lhe fazia mostrar os dentes e os buracos dos olhos. As varejeiras, os vermes no intestino e o mau cheiro me causaram o terror da morte pela primeira vez. Gritando, voltei para meu quarto. Nunca mais falei sobre o assunto. Estes dois fatos foram determinantes para ensinar-me algo: tudo existe para decompor.

Aquela ferrugem no carrinho bate-bate não era apenas falta de reparo. A mancha na tinta azul-celeste mostrava que nem minha infância seria poupada do fim. Meu pai dizia: – “Olha, que maneiro! Você está dirigindo!” E eu pensava: – “Isso vai apodrecer, já está apodrecendo.” Papai nem imaginou o que se passava em minha cabeça: o vislumbre dos carrinhos jogados ao chão, corroídos pela umidade. Via todo o parquinho destruído: a roda gigante apodrecendo, o barco viking apodrecendo, os cavalos do carrossel divertindo as crianças em pleno desespero. Eu olhava o sorriso dos cavalinhos e sentia vontade de gritar. Meu pai perguntava: – “O que foi, filho?” E eu pedia para voltar para casa. Só me acalmava ao lado de Robinson Crusoé.

Na segunda velhice, minha obsessão com a decomposição adormeceu. Amar a sabedoria em detrimento do corpo: esta era minha filosofia. Além daqueles dois casos, a morte nunca me foi próxima. O medo do fim parou de me assustar. Até que meu querido reitor espiritual faleceu. Os seminaristas compareceram ao velório em peso, e eu era um deles.

“O luto havia me apunhalado pelas costas. […] eu chorava de horror.”

Meu reitor e eu éramos quase pai e filho. Sendo meu confidente, ele ouvia meus pecados particulares em confissão. Ao me absolver, confiava a mim um abraço demorado e fraterno. Foi também ele quem começou a ensinar-me a cultura e a língua germânica. Vivíamos trocando palavras em alemão. Sua morte consternou o meu espírito. No velório, minhas pernas amoleceram. Só cantei na cerimônia de corpo presente porque acreditei em Deus, mesmo que às cegas. O luto havia me apunhalado pelas costas. No fim de tudo, me enfiaram na van, e eu voltei para o sítio.

Se aquele medo antigo havia se calado, o fantasma da morte do reitor passou a
assombrar-me em cada olhar, em cada respiração. O cérebro formava a imagem: em dias, meu querido reitor estaria podre e entregue às larvas. Pelo nojo da decomposição, eu chorava de horror. De forma sádica, o cachorro podre novamente mostrava seus dentes. Frank Sinatra tentava distrair-me. Não consegui dormir. No dia seguinte, o veredicto final: os algodões no nariz do reitor. Meu amigo tornou-se um cadáver pálido. Os padres não me permitiram ir ao sepultamento. Diziam que o falecido iria “ressuscitar” um dia. Eles mentiram. Nunca mais o vi.

Depois do reitor, ainda perdi algumas amizades. Algumas mortes foram naturais; outras, dramáticas. A maturidade, contudo, mostrou-me o lado positivo da morte. Aprendi a arte de consolar os vivos. Continuo não indo a velórios. Mas dou o meu ombro a quem precisar de um carinho, de um sorriso, de um “Vamos lá, a vida continua.” A voz do meu velhinho continua a dizer que tudo vai apodrecer. Certo dia, retruquei com ousadia: – “E enquanto não apodrecer, o que pode ser feito para eternizarmos a existência?” Assim, de graça e pela primeira vez, venci o horror da morte.

“Esfreguei os olhos, pensando ver uma alucinação.”

Até que estava indo para o trabalho num dia qualquer. No seu frenesi habitual, meu celular vibrava e emitia luzes. Era cedo e eu estava sentado à janela – o lugar preferido dos pungentes observadores. Os fones de ouvido tocavam uma música para despertar o corpo. Não havia sacado o porta-notas (sou velhinho mesmo, assumo). De repente, uma informação violenta sequestra as meninas dos meus olhos. Fui pego de surpresa, quase com as calças na mão.

Ele estava lá: o parquinho da minha infância. Não acreditei. Esfreguei os olhos, pensando ver uma alucinação. Mas as cores do teto do carrossel não me enganavam. A pista dos carrinhos bate-bate tinha o mesmo tamanho. Meu coração disparou. Por alguns segundos, pude vislumbrar meu eu tão inocente, tão ingênuo. Senti vontade de ir até lá e abraçar o dono: – “Sabia que eu andei nesse brinquedo quando pequenito?” Mas o dono não me reconheceria. Eu passaria como o louco a abraçar desconhecidos. Os belos segundos passaram depressa. Meu sonhado parquinho virou um terreno baldio com brinquedos velhos.

Meu menino faminto olhou-me nos olhos. No fundo, cobrou-me duramente: – “Por quê, paizinho, por quê?” Senti o nó que sufoca a garganta dos adultos. A pergunta do meu menino era justa. “Por que o tempo passa, meu Deus? Não seria melhor viver para sempre naquele mundo sem maldade? Mesmo triste, meu Pai, eu não era uma criança feliz?”

Engoli seco. Não havia crianças, música, cores ou algodão doce. Era cedo demais. O terreno baldio também é outro. Diante de mim, restaram as memórias apodrecidas pelo tempo. Fui traído pela vontade de chorar.

henrique

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