Tempo: o melhor casulo

“Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios.”

No dia de descanso, ao acordar de uma soneca, lembrei-me da criança triste e esforçada que eu era. Revisitei cada drama vivido na transição para a adolescência, ou segunda velhice, onde não sabia quem eu era ou o que faria no mundo. Foram tempos mágicos, mas igualmente sofridos. A inconstância típica de um ser em construção marcou-me profundamente. Hoje, mais calmo e indiferente a certas coisas, ainda me comovo quando vejo alguém se perguntando: – “Mas o que faço da vida, meu Deus?”

Minha segunda velhice tinha uma característica própria: o anseio de atrair carinho e atenção dos mais velhos. Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios. Aprendi a entender a mudez dos gestos e ler palavras entrecortadas. Competia comigo mesmo em busca de um ombro amigo. Não sabia se deveria encarnar o ser “maluco” que se plasmava em mim, ou se utilizaria a máscara que definiria minha vida, como numa peça da Commedia Dell’Arte. Meu espírito se curvava a um regime de meritocracia emocional.

Como sofrimento pouco é bobagem, resolvi confiar minhas mazelas ao amigo que mais teria condições para entendê-las: o pároco local. Eu enxergava um exemplo de vida naquele homenzinho. Certa noite, tinha a ideia de escrever-lhe uma carta – ainda se faziam cartas na década de 2000. Ao todo, a missiva rendeu mais ou menos três páginas. Entreguei-a em mãos. Assim foi com outras dezenas de cartas, sempre prolixas e confusas. Nunca, até os dias de hoje, recebi uma resposta.

“A descoberta do tempo como desculpa me deixou décadas mais velho.”

Ao ficar um pouco mais velho, notei que tal cura não tinha tempo de me responder. Ele era um homem extremamente ocupado e trabalhador. Por isso mesmo, não teria condições de dizer a um adolescente: – “Fique tranquilo. Confie no seu amigo aqui, tudo vai dar certo.” O silêncio era a forma mais prática de cansar-me, talvez frustrar minhas esperanças. A descoberta do tempo como desculpa me deixou décadas mais velho. Enquanto eu não descobria, continuava tremendo a voz entre o açúcar das palavras.

Faço parênteses ao tempo em que vivo. Em certa dita, ouvi uma criança dizendo: “Não posso, sou muito ocupado.” Como bom velhinho, indignei-me de forma imediata. Uma criança é ocupada em quê, para quê? Em tempo: o pequeno em questão aprendeu a usar o tempo para mentir. Na minha época, a criança tinha o dever de estudar, mas sem a pressão “empreendedora” do século XXI. Éramos perfeitos flâneurs, no sentido mais libertino do termo. Bastava um terreno aberto: passávamos horas fazendo pesquisa de campo. Entendíamos a Biologia, a Física e a Química sem precisar dos livros. Foi ali onde entendi o que era a decomposição, por exemplo. Nunca tive aulas de alemão, de poesia ou de música. Tudo surgiu por espontânea curiosidade.

Esta mesma curiosidade tornava-me humilde para aprender. Todo conhecimento, de caráter técnico ou existencial, exige certa paciência do aprendiz: uns mais, outros menos. Eu me sabia criança. “O segredo da vida virá com o tempo”, pensava. Ao conversar com as duas gerações mais novas que a minha, percebo que essa humildade foi substituída por arrogantes pernas-de-pau. Vivem como se a internet fosse o seu mundo. Não vão além daquilo que não se interessam. Acham que um estímulo mais exigente é marcação pesada, quase ofensa em nível pessoal. Na minha idade escolar, eu fui vítima de bullying. Era roubado, apanhava e sofria hostilizações de vários tipos. Sei bem o que significa a expressão “humilhação total”. Mas algumas exigências dos adultos foram necessárias para tornar-me um ser humano melhor.

Antes de voltar ao assunto principal, lembrei o mestre João dizendo: – “Quero a sequência de Lá menor, agora!” E ai de mim se eu errasse o exercício. De primeira, achava que ele me exigia por pirraça, para me fazer sofrer. Hoje, ao executar “A volta do boêmio” em Lá menor, encho os olhos de lágrimas e gratidão. Por feliz coincidência, eu sabia do mestre que me ensinava. Obrigado, João, obrigado.

Este “egoísmo” benéfico da arte foi fundamental para que minha alma se salvasse.

Volto para minha tarefa anterior. Comecei a romper minha dependência do tal pároco aos catorze anos, quando descobri a poesia. Parei de escrever cartas para ler Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina, Vinícius de Moraes. Descobri a voz de Elis Regina. Embevecido, passei a não ter tempo de escrever para o sacerdote. Certa vez, ele me perguntou: – “Não vai me escrever mais?” Não quis respondê-lo. Meu ofício descobriu-se outro: viver artisticamente para minha própria fruição. Este egoísmo benéfico foi determinante para a salvação da minha alma, além de qualquer religião.

Como bom leitor, passei a escrever poemas. Todos eles eram ridículos (qual poema não é?), mas igualmente verdadeiros. São hoje relatos fiéis de minhas inconstâncias, de medos antigos, das experiências que vivi. Um deles diz: “Agora digo em código o que só suporto pela fé.” E outro trecho explicita: “Naquele dia da morte de Cristo, tu também eras carrasco. Eu, caindo de um penhasco, perdi a minha razão.” Que verdade, que sentimento puro! Se estes textos não têm qualidade literária ou comercial, fazem parte do meu processo de evolução humana. Fui bendito ao escrevê-los. Esta vivência, além de me provar um artista, me libertou das cartas ao pároco. Descobri que eu e o artista de mim eram a mesma pessoa.

O artista sente prazer com a sua própria obra.

Desde os catorze anos, praticamente não parei de fazer arte. Esta determinação continua comigo. Fico encantado com tudo o que leio, o que produzo, o que canto, o que estudo. Em meu trabalho criativo, passo horas fazendo todas essas coisas. Nisto surge minha indignação acerca do “tempo”: o que aquela criança dizia quando não tinha tempo? Se ela quisesse passar o dia todo jogando videogame, dormindo ou flanando pela internet, que me dissesse – eu também sei matar tempo útil. Mas que não venha com a ousadia de dizer que “não possui tempo”. Cada crônica deste blog demora em torno de três horas para nascer. Antes das cinco da tarde, comecei a escrever. São quinze para as sete e eu ainda estou aqui. Gasto tempo escolhendo o CD adequado para ouvir, digitando, rindo, formatando memórias antigas, textos e imagens. Contemplando o que faço, sinto a mágica da vida. Isso me ajuda a ter o tempo necessário para tudo o que tenho vontade de fazer.

Se eu não admirar meu próprio trabalho, não sinto o prazer para continuá-lo. No texto bíblico, o autor sagrado põe na boca de Deus: – “Que ótimo! Criei mais uma maravilha! Amanhã farei outra, ainda maior que essa!” Não é raro dizer que o ser humano joga o jogo de Deus. De fato, somos capazes de criar; toda criação legítima, por sua vez, tem seu tempo próprio. O artista em questão reconhece e ama as particularidades de cada obra. É igual o amor de um pai por cada um de seus filhos. Eu exulto quando consigo publicar meus humildes textos aqui no blog. Uma vez, um amigo insosso disse: – “Você não deve escrever crônicas assim. Elas devem ter enredo, objetivo, tal e coisa, coisa e tal.” Segui a dica de ler Moacyr Scliar, mas continuo escrevendo. Para ele, deixei a amarga tarefa de criticar o que não faz.

“Tudo na vida depende da arte da conquista.”

Voltando à minha segunda velhice, que chamam “adolescência”: na minha época, ser adolescente era sinal de rebeldia. Claro que minhas rebeldias não foram deveras gritantes. Eu ouvia Green Day e U2, escrevia poemas e tinha amigos quarenta anos mais velhos. Mas nunca deixei de questionar, de desejar revolução. Na época, graças a alguns questionamentos, assumi pequena inimizade com meus pais. Hoje, ambos rimos de tudo. Eu pude ser um adolescente estranho, mas nunca alienado. Não tive tempo de me envolver em ideias fantasiosas.

Hoje, o “jovem” adulto que sou afirma: você precisa ser mais direto, ir mais ao ponto; fale menos e faça mais; aprenda a não ser ranzinza; seja menos resmungão; arrisque o quanto puder. Meu velho interior me ensina que ninguém é obrigado a dar nada a ninguém, inclusive carinho e atenção. Tudo na vida depende da arte da conquista. E assim, com amor e gratidão, procuro aprender cada lição que a Vida me dá. A Vida é uma professora exigente, mas ninguém melhor que os professores exigentes.

Por ser mais velhos, talvez meus pais sabiam deste segredo. Por que não me contaram, então? Por que me deixaram sofrer algumas coisas que não eram necessárias? Antes de escrever a crônica, fiquei revoltado com este vacilo. Só agora, depois de três horas, entendi: eles não romperam meu casulo juvenil. É o esforço da lagarta que a permite ser uma livre borboleta.

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