Um bombom salvou minha vida

Meu amigo é literalmente inquebrantável. Ele finge que não sabe.

Em outro texto, eu falava sobre as bem-aventuranças de um caxias. E dentre os meus amigos que possuem essa qualidade, não deixo de incluir o Toninho. Olhos firmes, sorriso tímido, espinha ereta: meu amigo possui a honestidade digna dos grandes caracteres. Ele, no entanto, finge que não sabe. Prefere pensar-se qual Pedro Pedreiro, cantado por Chico Buarque.

Desde que nos tornamos amigos, ele nunca mudou seu jeito de ser. Manteve o jeitão sossegado de outrora com fidelidade absolutíssima. Eu pensava: – “Ele é assim tão calmo?” Felizmente, percebi que sim. Sua paciência pode impressionar até um lama tibetano. Ele é literalmente inquebrantável – para um artista, como eu, inquebrantável até demais. Mas também esta diferença é facilmente equalizada entre nós.

O que acontece é que Toninho também é um artista. Dos mais puros, inclusive, porque é artista sem saber. Quando tiro meu caderno e caneta da mochila, ele levanta as sobrancelhas. “O que vai escrever?”, pergunta, curioso. E saboreia seu chope enquanto me observa. Talvez ele pense que sou um mago. Mas não faço nada além de caçar palavras. Nosso amigo, por sua vez, vai além e observa tudo a seu redor. Ele enxerga a luz do que escrevo às cegas.

“Somos educados a sempre boicotar a alegria.”

Certa vez, quando partilhávamos cervejas e memórias, ele me confessou seu único delito. Em alguma década de um passado recente, o jovem Toninho ganhou seu primeiro salário. Assim que ganhou a importância, foi até à mercearia. Recordou a simplicidade de seus pais, da família humilde. Lembrou do filho responsável que era. Mas naquele momento decisivo, Toninho foi enfático: me dê um chocolate, aquele que mais quero! Ele nunca mais esqueceu o gosto do cacau derretendo em sua boca juvenil. Ao contar este caso, Toninho me mostrou como somos covardes com os nossos próprios sonhos. Somos educados a sempre boicotar a alegria.

Após a revelação, cada um foi para seu canto. No trem, lembrei-me do prazer que meu chocolate preferido me proporciona. Também lembrei um amargor aleatório: quando bebê, me tomaram uma cobrinha de pano. Passei a chorar de vontade pelo dito brinquedo. Minha mãe fez outra cobrinha, mas eu queria aquela. Peguei desgosto. Enquanto eu sacolejava no trem, Toninho voltou a ser o Pedro Pedreiro de antes.

“Pegou esse violão emprestado?”

Matutei neste caso por dias. Mesmo diante de sua responsabilidade, o jovem Toninho realizou um desejo infantil. Ele, contudo, só pôde dizer sim quando descobriu o seu poder interior. De fato, poucos se importam com a voz de nossa criança dizendo: “Eu quero aquele chocolate, aquele!” Preferimos ser os adultos chatos e ressentidos. Não é raro que nossa criança nos exija descer dos sapatos altos. Existem dimensões humanas que amam subir em árvores, pisar na terra e ganhar mimos. Não podemos ser vítimas de nossas próprias vontades.

DSCF2876
O violão dos sonhos. Teatro Lyra Serrano, Paranapiacaba, dezembro de 2016.

Lembro-me até hoje do prazer de comprar meu primeiro instrumento sem a opinião dos pais. Meu outro violão estava quebrado. Não havia previsão de conserto. Simplesmente pensei: “Vou comprar um novo!” Fui à loja, fiz uma pesquisa e encontrei o violão dos sonhos. Pedindo que o guardassem em sua nova capa, retirei a quantia no banco e paguei o vendedor. Tive um belo orgasmo. Ao chegar em casa, mamãe invocou: “Pegou emprestado?” Pelo meu sorriso, não pude esconder que o tal era meu. Ela perguntou: “Mas comprou outro?” Eu não estava nem aí para o questionamento. O violão era meu, e ponto.

O chocolate do Toninho é a perfeita metáfora da vida. Se um sonho tem a possibilidade de ser posto em prática, é preciso que se faça. Mas fica a pergunta: como Toninho e eu tivemos a coragem de ir além dos medos? Como é possível sair da inércia para fazer um sonho tornar-se realidade? Essa coragem só aparece em corações dignos de heroísmo, ou está à mão de todos os que desejam ser mais felizes?

Creio que esta é uma questão íntima e particular, mas darei minha humilde opinião. Gosto de fazer coro com o assunto que a Psicanálise não se cansa de ensinar: a nossa criança pede, o nosso adulto julga e pratica (ou não). Realizar sonhos tem a ver com autoconhecimento: saber ler a verdade oculta em nosso coração. Para evitar maiores dissensões, cito o caso de meu pai, que definitivamente não conhece a pessoa de Sigmund Freud.

Se sei andar de bicicleta, bem ou mal, é por causa do meu pai.

Papai é um homem que sempre colocou os filhos acima de si mesmo. Sempre que pôde, proveu os sonhos de seus rebentos. Um deles, a bicicleta prata, recheou minha infância de tombos e vitórias. Ainda sinto a superação de tirar o apoio que impedia minhas quedas. Ele estava próximo quando viu minhas primeiras e decentes pedaladas. Meu pai não comemorou efusivamente, mas estava presente a seu modo. Se sei andar de bicicleta (mal, faça-se justiça), sei por causa dele.

Acontece que a vida é uma roteirista de outro mundo. Após uma conversa tensa, perguntei a meu pai: – “O que você pode fazer para te deixar mais tranquilo? Qual seu sonho de infância?” Ele simplesmente respondeu: “Eu queria ter uma bicicleta.” Levei um murro no coração. Sofrendo, senti-me o pai sem dinheiro que chega ao aniversário do filho de mãos vazias. Minha impossibilidade financeira deixou-me ainda mais triste. Fui nocauteado. As doces memórias da minha bicicleta prata ganharam gosto de sangue. Meu pai me deu uma bicicleta. Mas por Deus: por que ele também não pensou nele? O prazer do chocolate contrastava com o amargor do meu fracasso.

“Presenciei um milagre. O Toninho se transfigurou em luz […] Pensei-lhe um santo.”

Noutro dia, depois de outro chope com Toninho, fingi que ia comprar canetas para meu trabalho. Comprei o chocolate que meu amigo mais gosta – o mesmo de sua juventude. Em frente à estação de trem, quando íamos embora, saquei-o de meu bolso. “Para você, menino”, eu disse. Foi inacreditável: Toninho congelou. Sentiu como se o tempo parasse diante dos seus olhos. Nisto, presenciei um milagre, pois atesto e dou fé. O Toninho se transfigurou em luz e voltou a ser o garoto que ganhou o seu primeiro salário. Tremendo, ensaiou uma palavra de agradecimento, sem sucesso. Ganhei um abraço profundo e emocionado. Ele foi embora saltitando, ainda transfigurado. Eu fui sacolejar no trem comendo o meu chocolate predileto. Tornei-me o pai que chega ao aniversário do filho com o presente do ano.

Após sacolejar no trem, tive a impressão que meu melhor amigo é um santo disfarçado. Eu, humano e pecador, peguei o táxi em silêncio. A alegria e a surpresa foram de Toninho, claramente. Mas aquele chocolate – o dele e o meu – não salvaram somente minha noite, mas minha vida inteira.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s