Cidade pequena

“Nós do interior somo mió que os da cidade!”

Os moradores do vilarejo diziam que tudo estava em seu devido lugar. Para eles, não havia necessidade de mexericos ou querelas. Cada um estava ocupado em lutar pela sua sobrevivência. Esse era o mesmo pretexto para se considerar superiores à cidade grande, inclusive. Ufanos, batiam no peito:

– Nós do interior somo mió que os da cidade!

Todo cidadão tinha um papel definido naquela pequena aldeia. Havia o padre, com fama de santo. Havia o delegado que se ocupava em vexar os garotos que roubavam frutas. Havia os aldeões simples, matutos e desconfiados. E havia o velho Petrônio, o louco da vila.

Poucos, na verdade, ousavam-lhe trocar cumprimentos. Petrônio não era dado a converseiros. Sua aparência física contrastava com a daquela população. Olheiras bem definidas, silencioso, sorumbático: seu corpo quase não conheceu lâmina. Cortava o cabelo apenas quando lembrava. Diziam que o velho Petrônio não dormia. Apenas se enfeitava em meados de agosto, nas festividades da colheita da moranga cabotiá.

Amor interespécies

O que humanizava Petrônio era o amor por sua aboboreira, plantada bem no fundo do quintal. Em retiro, o velho passava horas, dias cuidando de sua planta preferida. Punha-lhe adubo, arejava a terra, dava-lhe água quando a chuva não vinha. Em resposta, a aboboreira lhe dava frutos cada vez mais suculentos. Nhô Vicente se crispava de inveja:

– O que o véio Petrônio tem pra ficá lambendo tanto as moranga?

A planta parecia responder aos carinhos do velho. Na época de safra, a fama da sua sopa de abóbora corria longe. Os vizinhos, antes invejosos, passavam a adulá-lo. Estavam também curiosos para conhecer um pouco mais da personalidade obtusa de Petrônio. Qualquer informação sobre ele tornava-se um trunfo. Com o tempo, passaram a existir partidários contra e a favor dele. Enquanto a cidade se ocupava em fofocar, Petrônio plantava flores ao redor dos ramos.

– Mas que bonito, o amor dele pela aboboreira!

Aos poucos, ao longo de duas décadas, Petrônio passou de louco a eremita incompreendido. Os moradores da vila tinham-lhe estranha simpatia: cada um no seu próprio canto, claro.

Sempre há o estraga-prazeres

Mas aquele agosto era aguardado com novas ansiedades. A temporada prometia a melhor abóbora que Petrônio já tinha visto. O fruto já nascera grandioso. Por isso mesmo, ele recebia atenção especial de seu dono. O velho cuidava da abóbora com carinho paterno. De alegria, Petrônio passou a ser um homem falante. Até ensaiava sorrisos. Não parava de falar na abóbora preferida. Petrônio dizia, com palavras largas: – “É no primeiro de agosto, que eu colho essa bitela!” E Nhô Vicente suspeitava, entre paredes:

– Aí tem coisa, muié! Aí tem coisa!

O tempo passou até a época da colheita. Todos os esforços de Petrônio valeram a pena. Como sempre, a safra seria farta. Mas aquela abóbora em especial atrairia os olhos até de quem não gosta. Sua cor intensa, sua densidade e formato perfeitos fizeram Petrônio saltar de felicidade. Os últimos dias de julho foram longos, colaborando para que o vilarejo nutrisse um carinho especial por ele. Interessados na sopa de abóbora passaram a convidar Petrônio para o café da tarde. No raiar do dia, pacotinhos de açúcar, farinha e até cigarros apareciam em seu alpendre. Dando pitos na palha queimada, Petrônio admirava a planta: – “Mas não é linda, minha moranguinha?”

Naquela cidade, na manhã de primeiro de agosto daquele ano, tudo estava em seu lugar. Petrônio levantou cedo e fez suas orações. Vestiu-se e, assim que o céu clareou, foi até o fundo do roçado. O tempo chuvoso não acanhou o velho solitário. Suas mãos tremiam ao imaginar o corte no ramo, o peso da abóbora em suas mãos. Mas ao fitar a aboboreira, não acreditou no que viu: sua abóbora preferida tinha sumido. Restava a nudez do ramo cortado com faca cega. O serviço foi feito com maldosa rapidez e parecia ser recente. Petrônio urrou de dor:

– Se eu pego esse diabo, eu mato!

O roubo da abóbora

Com os berros de Petrônio, os vizinhos mais próximos o acudiram.

– O que foi, Nhô Petrônio?

– Minha moranguinha, a mais bonita, sumiu! Sem ela, eu não me aguento!

A vila soube rapidamente do acontecido. Uma garotinha correu para buscar-lhe água fresca com açúcar. Dois homens o acalmavam. Petrônio não se conformava, encharcando sua barba com lágrimas torrenciais. Ao ver tamanha desolação, Nhô Vicente pensou: – “Talvez eu que seja um covarde.” Foi necessária uma hora para que Petrônio recuperasse a calma.

Após acalmar Petrônio, a cidade compadeceu-se dele. Todos queriam descobrir quem cometeu tal delito. Até o delegado somou esforços na investigação. O espevitado Toninho, filho de italianos coléricos, apanhou até confessar o que não cometeu. Ele berrava: – “Io non roubei niente, papà!” Mas além de corrigir o possível delito, seu pai o batia por não ter a ideia antes do ladrão. Depois da surra, Toninho foi trabalhar na roça com a pele roxa de pancadas.

Fui eu

Pelo cruento desfile de Toninho, o ladrão dispôs-se à rendição. Era Alberto, filho de Nhô Vicente. O rapazinho que sonhava com o sacerdócio era o orgulho da família. Contudo, teve vergonha de contar ao pai que seu corpo ardia. Considerou a abóbora um presente divino. Vendo as flores campestres que a cercavam, pensou: – “Está abandonada.”

Usando um canivete velho achado em casa, Alberto separou a abóbora de seu ramo. Levou-a consigo enquanto ainda era madrugada. Escondido debaixo do trator Massey-Ferguson do pai, recostou-se num pneu traseiro. Com o mesmo canivete, fez um furo pequeno e profundo na carne da abóbora. Desfolhou ali seu primeiro orgasmo.

Ao ouvir a história, o vilarejo arrepiou-se dentro das roupas. Petrônio não poderia receber pior ofensa. O velho, num repente, voltou à personalidade obtusa de sempre. Após o sermão do delegado, Petrônio exigiu a abóbora vilipendiada. Ela ainda estava debaixo do trator Massey-Ferguson, exibindo o furo impudico. Petrônio desmaiou Alberto com um safanão no rosto. Seu pai, Nhô Vicente, o deixou desmaiado na chuva. Ele não era pai de moleque ladrão e sem-vergonha.

Finalmente eu e você, a sós

O velho voltou para casa com a cobiçada abóbora. Sua roupa estava molhada pela chuva. Ao entrar em sua velha tapera, pôs a abóbora em cima da cama. Tirou a roupa molhada e secou-se. Num súbito, pensou em comê-la assim mesmo. Conversava consigo mesmo:

– Ela não é linda? Mas claro que é!

Deitando ainda nu em sua cama de palha, Petrônio admirava a cor daquela abóbora, sua densidade e formato. As mãos calejadas e peludas ensaiavam carinhos no fruto. Pensava no sabor e no caldo que ela teria. Num acesso de desejo, passou a cheirá-la e lambê-la ferozmente. Sua barba e bigode passaram a ter fiapos laranjas. Erguendo o furo da abóbora à altura dos olhos, Petrônio disse, apaixonado:

– Andou provocando até o Alberto, não é? Não minta para o teu marido. Venha cá, vou acabar com esse teu cio!

O velho sorriu com malícia: ele nunca enjoaria do sabor de abóbora. Agradeceu a Deus por não precisar fazer o furo. Empurrando seu membro invejável, a abóbora cedeu aos poucos. Nenhuma mulher do vilarejo imaginava o prazer que Petrônio dava à abóbora. Se soubessem, não mais o largariam. Mas Petrônio sentia-se inegavelmente unido à natureza.

Morrendo de amor por ela, Petrônio semeou-a uma, duas, três, quatro vezes, até exaurir-se. Dormiu ainda rijo, com sua semente banhando as sementes de sua mais linda abóbora. À noite, ainda sonolento, deu-lhe mais três provas de amor.

No dia dois de agosto, o vilarejo tinha tudo em seu devido lugar. Um Petrônio calado foi cuidar da plantação de milho. Sua esposa, a bela aboboreira, o aguardava com outras catorze abóboras.

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