Resenha: Ecos do Silêncio

Livro: Ecos do Silêncio
Autor: Luka Magalhães
Editora: Casa Amarela Edições
Ano de lançamento: 2018
Nota: ☆☆☆☆

Em certa ocasião, ele entregou-me um livro. Apenas. Citando o místico católico Afonso Ratisbonne (1814-1884), ele nada me disse, mas tudo entendi. Foi com este jogo silencioso que ele, o Luka, me convidou para apreciar “Ecos do Silêncio”, sua primeira obra.

Para mim, cantor e músico irriquieto, o tema é assaz complexo. Falar de silêncio é falar das reentrâncias da linguagem, das inúmeras esquinas onde a razão tromba com o sentimento. Lembro de ter visto algo na Filosofia: diante do inenarrável, nos resta o silêncio. Alvaro Posselt, um dos mais determinados haijins que conheço, e do qual sou fã confesso, canta em seus versos:

Silêncio no templo
Após tocar o sino
Compreendo o silêncio
(Alvaro Posselt)

Luka foi além do silêncio. De início, admirei sua paixão pelo tema. Por enésimas vezes, tive a oportunidade de conhecer o Luka poeta, o Luka roteirista, o Luka diretor de teatro, o Luka ator, o Luka letrista de melodias feitas por mim. Ao ler sua obra, contudo, fui apresentado a um novo Luka: o observador. Na verdade, creio que este é o Luka mais visceral, o que dá sentido a todos os outros. Este novo homem, mais oculto, é cheio de significados; sua função é oferecê-los a nós, espectadores de seu jogo poético.

Um detalhe breve, mas significativo. Luka insere versos apenas com reticências (…), o que permite a inserção de pensamentos do leitor.

Se o silêncio dói
as palavras podem machucar

E se as palavras machucam
o amor pode morrer

E se o amor morrer
nasce o silêncio que dói.

Participando do jogo, escrevi em voz (e caixa) alta nas paredes do coração:

Se o silêncio dói
as palavras podem machucar
como vidro na carne viva

E se as palavras machucam
o amor pode morrer
como flor na terra seca

E se o amor morrer
nasce o silêncio que dói.

(Luka Magalhães. Versos em negrito de Henrique Vitorino)

Luka não tem medo de desnudar-se. Logo no primeiro poema, o branco silencioso da página. Adorei este detalhe, que se repete algumas vezes ao longo do livro. Alguns facilmente tornariam-se desatentos. Sabendo do jogo do autor, permaneci calado. Deixei que as letras impressas, mudas, ganhassem voz:

E do barulho que volta,
sinto calar-me a alma
vívida e morta (…)

Ressonâncias. O jogo silencioso de Luka permitiu que eu ouvisse vozes em mim – a vergonha, a tristeza que carrego desde a primeira velhice, o medo da morte. Lembrei-me de um medo de criança: o de que minha alma saísse para passear enquanto eu dormia.

Aquieta-te
como as almas
que fogem
dos corpos. (…)

Lendo à noite, no mais absoluto silêncio, respirei fundo. Fiz esforço para continuar a leitura, confesso. Cada poema captava minha atenção de forma singular, não deixando que eu passasse às próximas páginas. As vozes continuavam falando em minha cabeça. Deixei que elas cansassem de falar. Os assuntos eram os mesmos: qual o sentido da vida?, o que fazer para enfrentar a morte?, é possível uma filosofia que transcenda o pensamento?. Com naturalidade, Luka deu voz aos meus pensamentos mais viscerais, quase instintivos. A solução foi pegar um lápis.

Como que sem querer, inúmeras formas começaram a surgir no branco das páginas. Paro aqui para contar um detalhe. De um tempo para cá, a espiral tornou-se um símbolo particular de eternidade, de pós-vida. E nisto, tenho conversado com meus dois melhores amigos (o vovô e o Toninho, um personagem da vida real) sobre o mistério do não-existir. Espero que estejam firmes e fortes daqui a trinta anos – e assim será!, mas as estatísticas atestam o contrário. Com estes ecos do silêncio, este medo apareceu. Até que um poema serviu-me de bálsamo. Ousadamente, eu o nomeei “Antonio” (o nome dos meus dois melhores amigos, exatamente os que mais temo perder). Habituado a fazer parcerias, inseri um verso tímido ao fim do poema: “Para sempre.”

Antonio (Post-life)

Quando tua boca
se fechar às palavras,
quando teu silêncio
cerrar na alma,
quando tua voz não ecoar
e o vazio do som nascer,
saiba que cada suspiro,
respiro,
cada balbuciar
me aviva!

E sei que estás comigo.
Para sempre.

Depois deste poema, que falou com toda força à minha alma, limito-me ao silêncio.

 

 

 

Muito obrigado, amigo.

 

 

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