“Tchau, gago”: o relato de um portador de gagueira

“Deus me livre de ter vergonha da minha gagueira. Mas já sofri muito por causa dela.”

Decidi escrever este texto com menos técnica e mais improviso. Não é segredo para os amigos mais íntimos que estudo a obra de Nelson Rodrigues com afinco – somente a prosa, por enquanto. Neste sentido, o blog me serve como espaço de estudo. Baseado no mestre, tenho escrito crônicas e contos que particularmente me alegraram. Mas farei questão de romper com a métrica para falar mais de mim; de um aspecto particular que toda pessoa que me conhece, sabe: a minha gagueira.

Hoje, lido muito melhor com ela do que há dez anos. Deus me livre de ter vergonha da minha gagueira. Mas já sofri muito por causa dela. Já me senti muitas vezes constrangido, humilhado, fadado ao silêncio. Já pensei que era melhor acordar mudo ou surdo. Já pensei em aprender a Língua de Sinais e abandonar a comunicação pela fala. Hoje, consigo me comunicar através da fala e do canto, um plus na minha reviravolta. Mas vamos começar do começo.

“Prometo não ser chato e intrometido”: o bullying de alunos (e professores)

Os mais próximos dizem que eu comecei a gaguejar por volta dos seis anos de idade. Na escola, eu era um garoto muito falante. Não perdoava sequer um segundo de silêncio. Se meus amigos tinham dificuldade em saber a resposta, eu fazia questão de dizê-la. Até que uma mulher (recuso-me a chamá-la do nobre nome professora) disse para uma criança de, reitero, apenas seis anos:

– Você é muito chato!

Como se não bastasse, obrigou-me a escrever dezenas de vezes no meu caderninho de classe:

Prometo não ser chato e intrometido | Prometo não ser chato e intrometido
Prometo não ser chato e intrometido | Prometo não ser chato e intrometido
 Prometo não ser chato e intrometido | Prometo não ser chato e intrometido

Isso não é ficção, infelizmente. Eu não seria capaz de imaginar tamanha crueldade a uma criança. Ou estou fazendo drama onde não é necessário? [Se eu achar o caderno, posto a imagem no texto.]

Foi necessário algum tempo de psicanálise para que eu vencesse esse monstro. Aquelas palavras ficaram em minha cabeça durante um bom tempo de vida. Não tive condições de defender-me sozinho. Meus pais? Eles estavam ocupados com seus afazeres. Eu não os julgo, até os compreendo. Este, porém, foi um dos grandes acontecimentos que me conduziram à primeira velhice, junto ao dia em que minha tia disse que meus dentes eram feios. Quando me tornei velhinho aos seis anos, aprendi que as pessoas também podiam ser maldosas e sacanas (perdoem o termo, mas precisei escrevê-lo).

Minhas primeira e segunda velhices – a infância e a adolescência, no caso – foram permeadas de dor e sofrimento. O escritor e poeta Raul Drewnick nos afirma que devemos cuidar de nossa tristeza com carinho. Na quase totalidade daqueles dias tons-de-sépia, cuidei exemplarmente de minha tristesse. Em relação à gagueira, ainda mais problemas. Na escola, o bullying contínuo me fez um garoto calado, medroso da próxima pancada, temeroso da próxima humilhação – ambas poderiam vir a qualquer instante.

“Tive que aprender a gostar de quem me batia. (…) Aprendi a entender o xingamento como afeto.”

Ouço batidas à porta. É o meu pai.

– Olha, filho, o que eu achei. É sua camisa de escola assinada pelos colegas.

Putz. Fui imediatamente teletransportado a 2005, exatamente há treze anos. Infelizmente, não possuo muitas memórias dessa época. O inconsciente não registrou ou apagou muitas coisas – ao menos era a minha impressão. Quando peguei minha camisa, porém, uma série de memórias vieram à mente. Esta da foto, particularmente.

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“Tchau, gago. Beijos, Bru”: na escola, minha paciência devia ser gigante – e eterna.

Em ambiente escolar, eu era frequentemente citado pelo nome dos meus estereótipos: gago, riquinho, padre, bicha, feijão (apelido dado por uma professora pelo tamanho da minha cabeça!), Espírito Santo, nerd. Poucos queriam falar com o Vitorino. Na verdade, quase ninguém. A maioria dos meus colegas de classe só lembravam de mim para zombar, ou para pedir respostas na época de provas. Se eu não desse cola, era ameaçado de surra. Tornei-me piada por colocar a camisa por dentro da calça, hábito que tenho até hoje. A gagueira não me permitia reações. Eu ficava calado, esperando o dia em que todos saberiam quem eu realmente era. Aprendi a ler e escrever poesia. A mudança foi lenta, dolorosa e crua. Um artista se forma muito, muito devagar…

Anos depois, durante a terapia, constatei que aprendi a entender xingamentos como afeto. Eu pensava: “Se me chamam gago, talvez dizem que sou inteligente”; “se me chamam bicha, talvez dizem que sou sensível.” Convivi com a miséria emocional ao estilo da síndrome de Estocolmo. Pela mais absoluta necessidade, tive que aprender a gostar de quem me batia. Só após 2013 é que cheguei à terceira velhice; aí surgiram os primeiros contra-ataques.

“Eu me sentia péssimo quando me interrompiam. Hoje sei que possuo um tempo diferente dos outros.”

Primeiro: a família.

– Como assim, você saiu do seminário?

Não vou comentar as dificuldades que passei. Após a faculdade de Filosofia, foi difícil aceitar e entender quem eu realmente sou – tanto para os outros, quanto para mim mesmo. Após a saída da experiência seminarística, eu me lancei ao mundo. Nele, conheci grandes amigos: a turma da Casa Amarela, em São Paulo; a turma da Casa Posselt, em Curitiba; grandes amigos que são verdadeiros parentes Brasil afora; infindáveis amigos virtuais. Com eles, aprendi a aceitar minhas próprias limitações e compreendê-las, na medida do possível. Gago ou não, meus amigos me amam do mesmo jeito, assim como eu os amo infinitamente.

Eu nunca parei de gaguejar. Creio que nunca vou parar completamente. Mas aprendi a encontrar uma zona de conforto quando ela me surpreende. Amigos próximos aprenderam a ter paciência. Os não tão amigos continuam a fazer cara feia. Mas quando surge uma imitação, uma piada sem graça ou o desejo de acelerar minha fala, sinalizo “Pare”:

– Só um minuto. Eu ainda estou falando.

Eu me sentia péssimo quando me interrompiam, quando completavam o que queria dizer (diziam “li-mão” quando eu queria dizer” lim-pe-za”.) Hoje sei que possuo um tempo diferente dos outros. Quando eu interrompo ou corrijo os apressadinhos, quão prazerosas são suas caras de surpresa!

Segundo: o palco.

Curitiba. A turma está prestes a assistir uma apresentação do Henrique Vitorino. A ansiedade é geral. Faz tempo que o Vitorino não se apresenta em solo curitibano. O Vitorino preparou uma atração nova: um personagem caipira, ainda sem nome. Ele espera que as pessoas gostem, mas não tem certeza se isso vai acontecer. Vitorino lembra do conselho de vários amigos: “Não pense, fale.”

– Bas noite! Ieu sô o Pedro Jão Antônio da Silvêra, i vô apresentá procês a canção do gago caipira qui’stá caidinho di amôr.

Cantei. Fui aplaudido ruidosamente. Ali estava não somente meu personagem, mas eu mesmo, sem cortes. O estágio mais alto de “cura” da minha gagueira foi fazer piada sobre o assunto. O tempo de humilhações, dores e problemas ficou no passado. Eu sou outro: assumi que minha gagueira é engraçada sim, e ponto. Lembro de dizer aos amigos do Paraná, aos risos:

– Pelo amor de Deus, não me deixem gaguejar na primeira sílaba de Curitiba!

Assim descobri, de graça, que minha gagueira é charme.

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6 comentários em ““Tchau, gago”: o relato de um portador de gagueira

  1. Como bem escreveu Lulu:

    “Não existiria som
    Se não houvesse o silêncio
    Não haveria luz
    Se não fosse a escuridão
    A vida é mesmo assim
    Dia e noite, não e sim
    Cada voz que canta o amor não diz
    Tudo o que quer dizer
    Tudo o que cala fala
    Mais alto ao coração
    Silenciosamente eu te falo com paixão”

    Meu amigo, não que as pessoas precisem passar por esses obstáculos para crescer, para vencer e para mostrar seu valor aos outros, ao mundo. Mas quando se passa por isso, o entendimento de si e do outro, a dimensão da palavra superação do sentido de amar, é tudo mais intenso e, talvez por isso mesmo, mais permanente. Do pouco que lhe conheço, sei o quanto cresceu e quanto talento tem, além de todo o potencial que ainda pode aflorar. Você é um artista imenso, um ser humano maravilhoso e um grande amigo. Um cara que a gente sente paz, prazer em estar por perto e trocar uns dedos de prosa. E eu só posso desejar o melhor de tudo sempre pra você.

    Do amigo,

    Manogon

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  2. Henrique, seu texto tem uma qualidade rara: a simplicidade. Tudo flui como um riachozinho tranquilo, sem a pressa e sem a pretensão dos grandes rios. Ele não quer transbordar, inundar, encharcar. Quer ser o que é: um momento de beleza sob o sol. Narra uma história com a qual o leitor logo se identifica e à qual se associa com um sorriso. O drama tem o tom exato e não exclui o bom humor. Naturalidade extrema. Eu o aconselho a procurar uma editora de livros juvenis e talvez acertar com ela um livro que certamente seria muito interessante.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Raul, meu amigo, ouvir tais elogios me traz grandes felicidades. Fico muito contente por atingir o objetivo, que é a objetividade e a simplicidade. Você é, certamente, um de meus exemplos para a boa escrita. Reitero que seu elogio me deixou muito feliz e determinado a continuar escrevendo!

      Sobre a editora, eu tenho alguns projetos de livros (um de contos e um romance). Poderíamos conversar melhor sobre o assunto?

      Meu melhor abraço, cheio de gratidão!

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