Entre os dedos da eternidade

“Se todos nós soubéssemos nossa data de partida, tal detalhe seria suficiente para entrarmos em histeria coletiva.”

Na minha primeira velhice (ou o que chamam infância), a morte era um dos meus temas preferidos para pesadelos. Morria de medo ao pensar em deixar de existir. Se a minha morte me causava horror, a morte dos outros era ainda mais estranha. Felizmente, fui poupado de tais acontecimentos. Na minha infância, lembro da morte de poucas e raras pessoas. Esta velhice pode ter sido triste, mas ainda não era povoada por fantasmas conhecidos.

Este meu afastamento em relação à morte não foi de todo prejudicial. Se eu pensasse nisso quando pequeno, minha inocência pueril seria ainda mais castigada. Se todos nós soubéssemos nossa data de partida, tal detalhe seria suficiente para entrarmos em histeria coletiva. A ignorância da morte, principalmente da nossa, pode também nos servir como bênção. Na contramão, o ditado “Memento mori, carpe diem” servia para frustrar os jovens monges que não controlavam os pecados da carne.

“É agora que a gente tem que chorar?”

A primeira morte que vi de perto foi a de minha avó. Para mim, ela foi mais madrasta que madrinha. O acidente da cobrinha de pano foi fundamental para que eu nutrisse por ela uma dor, uma dissonância – por tratar-se de uma criança, era uma rixa boba, mas imperdoável. Eu ouvia dizer das exigências que ela fazia a meu pai, particularmente: – “Faça isso, faça aquilo, não quero assim, quero daquele jeito.” Minha avó era um delicioso suco de limão, mas com o azedume da casca. Talvez ninguém pôde aproveitar sua possível doçura, oculta entre mil defesas e preconceitos. Ao ser informado de seu falecimento, não fui acatado: – “Você vai ao velório, sim! Onde já se viu abandonar sua própria avó?”

Como acabei de afirmar, fui obrigado a ir ao cemitério. O dia estava escaldante, nos fazendo derramar água pelos olhos e pela pele. Velório de espanhol é aquela coisa: sempre tem um homem fora, fumando; outro contando piadas para amenizar a dor; outros chorando junto ao féretro e ainda outros sem saber porque estavam ali. Eu fazia parte do último grupo. Não lembro da minha idade, mas ainda não era adolescente. Meus primos, que moravam com ela, estavam mudos. Ao chegar no local, eu não soube o que sentir. Faltei perguntar à minha mãe, num canto: – “É agora que a gente tem que chorar?”

“Se choramos de menos, somos insensíveis. Se choramos demais, somos melosos.”

Minha estranheza em relação àquela situação foi digna da náusea de Jean-Paul Sartre. Naquele momento de minha pequenez, questionei (mesmo sem saber) a imposição do padrão do luto em nossa sociedade. Se choramos de menos, somos insensíveis. Se choramos demais, somos melosos. Se fazemos alarde, somos escandalosos. Se somos discretos, somos indiferentes. O enlutado não tem paz para sentir o que precisa. Custa lembrar que o luto, assim como o sono ou a fome, é uma necessidade única e particular? Uns sentem a necessidade de chorar; outros, como eu, nem tanto. Enquanto eu me esforçava para entender, via os adultos chorando. Mas ao tocar a mão gélida de minha avó, não consegui derramar uma lágrima. Só chorei depois de algumas horas, ao ver o semblante lacrimoso de minha mãe.

“A escatologia não é para qualquer um.”

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Há dez anos, eu não veria essa imagem sem lembrar a morte – e sem me apavorar.

Na minha primeira velhice, a morte me lembrava o maldito cachorro morto. Aquela cena repugnante só me fazia entender a parte física da morte. Até hoje sinto arrepios ao lembrar, claro. Mas aos poucos, foi possível entender que existem outras realidades, muito maiores e mais complexas do que a simples decomposição – que, creio eu, ocorre em torno de três dias. A escatologia física não é para qualquer um. Mas é possível estudar o fim daqueles que amamos de forma isenta e fria? Como lidar com a eterna falta dos nossos queridos? Eu enfrentei este drama quando perdi meu reitor espiritual, o verdadeiro pai da minha vocação religiosa.

Padre Pedro: a segunda grande perda que assisti de perto. Este meu amigo era um homem muito querido e bondoso. Sua bondade, no entanto, era proporcional à sua fragilidade física. Padre Pedro convalescia com a mesma frequência que trocava de roupa. “É coisa espiritual”, os fiéis diziam, apavorados. Mas o padrezinho lutou contra tudo o que se pode imaginar: diabetes, câncer, problemas na visão, mobilidade reduzida, má circulação, problemas cardíacos e pulmonares. Ele era um herói. Até que, em dado momento, não suportou uma drenagem no pulmão e teve uma parada cardíaca. Era o ano de 2010. Eu estava no seminário. Não pude acompanhá-lo presencialmente, mas as notícias iam e vinham como o vento.

No luto, achei que Padre Pedro tivesse me traído.

Até que me disseram: – “O Padre Pedro morreu.” De início, não acreditei no que ouvi. Depois de entender, senti muita raiva dele. Não acreditava que ele poderia me trair de tal maneira. Senti-me abandonado, esquecido, enganado. Tive fé que ele sairia daquela situação. “Como pode ser, se acreditei tanto em Deus?”, dizia, socando as paredes. À noite, depois do velório, o cachorro morto insistiu em assustar-me. Só consegui domá-lo depois de alguns dias. Depois de adulto, minha interpretação da morte ficou melhor e pior. Melhor, porque é menos enigmática. Pior, porque sei que não existe saída.

Mas a minha imaginação é artística; por isso mesmo, infantil. E por ser infantil, acredito que todos nós nos reencontraremos em algum lugar. Minha crença não possui nada a ver com religião. É aquela coisa de menino sonhador, quando fica sentado no quintal e, olhando para cima, dá formas e nomes às nuvens. É assim que penso a morte. Meu Céu não faria sentido se eu ficasse sozinho no imenso vácuo, em pleno espírito, no tédio da beatitude. As nuvens só fazem sentido quando todos nos abraçarmos, depois ficarmos sentados lá em cima, jogando bolas de gude com as estrelas, contando piadas e ouvindo belas canções. Acredito até hoje que meus ídolos foram cantar no Céu. E quem consegue provar que estou errado, se eu não consigo provar que estou certo?

O Toninho sempre me diz: “Passamos a vida toda aprendendo a envelhecer.”

E o que é a vida, senão acreditar e esperar? Durante nossas existências particulares, temos o dever de decifrar o enigma. O Toninho, meu melhor amigo, sempre me diz que gastamos a vida toda para aprender a envelhecer. Eu sou ainda mais ousado: gastamos toda a vida para aprendermos a morrer. É claro que existem acidentes e violências por toda parte. Mas se estivermos vigilantes e preparados, provavelmente sentiremos menos falta e menos dor. Como diz o provérbio já citado, do qual gosto muito: “Memento mori, carpe diem”: lembre-te de que vais morrer, aproveite o dia. Aproveitar o dia, em minha opinião, é amar, respeitar, entender, relevar, perdoar e todos aqueles outros clichês que estamos fartos de saber. Aproveitar o dia é não deixar que um telefonema no meio da noite nos pese a consciência pelo resto da vida.

Ao crescer e fazer boas amizades, perdi grande parte da minha obsessão com a morte. Na minha memória, guardo momentos eternos – como o dia em que o Toninho ganhou um chocolate de presente, ou todas as vezes em que meu avô me olha nos olhos. O amor é o antídoto do medo. E a morte é irrelevante para quem é consciente sobre o milagre da vida. Nosso coração não esquece quem sabe amar: tanto para eles que vão, como para nós que ficamos. E quando nós também formos, outros nos recordarão. Este é o ciclo perpétuo do afeto.

Bobby: um apaixonado pela vida; por isso mesmo, apaixonante

Este assunto amoroso me faz lembrar do Roberto, que carinhosamente chamo de Bobby. O Bob é um desses amigos conscientes sobre o milagre da vida. Nos conhecemos online, mas nossa amizade supera os limites das redes sociais. Por coincidência, eu soube que ele é socorrista voluntário nas madrugadas. Esse cara tem a paciência de me ensinar a falar alemão, de bater papo ao telefone diariamente (apesar da minha gagueira) e revisar meus textos. Tudo isso sem esperar um único beijo no rosto, um simples abraço, um mero agradecimento. Para devolver um pouco do bem que ele me faz, digo de maneira desbragada:

– Bobby, você é o cara! Quem dera ter mais amigos como você!

E ele sempre diz: – “Venha me visitar pessoalmente, vamos tomar uma boa cerveja alemã enquanto fazemos macarrão caseiro. Você vai gostar!” O espinho na carne é que eu era muito tímido para conhecê-lo.

“Já faz três meses.”

Acontece que o Bobby sumiu por um tempinho. Soube que estava com problemas cardíacos. O meu coração, claro, foi à boca: exames, rotinas, a paciência de esperar os médicos e os trâmites de hospital. Até que veio a notícia: o Bobby está internado. Seu irmão (não disse que nossa amizade é maior que as redes?) me avisou: espere um pouco, logo ele te retorna. Deixei de falar com ele por um bom tempo. Quando perguntei pelo amigo fiel, o irmão abaixa a cabeça do outro lado da tela: – “Henrique, o Bobby morreu. Já faz três meses.”

A mensagem e o tempo passaram, mas o vazio ainda dói em meu peito. Após receber a notícia, calei-me. Não consegui derramar uma lágrima sequer. A voz de Bobby ecoou em meus ouvidos. Naquele dia, eu jurei para mim mesmo, em voz alta:

– Eu nunca mais vou amar meus amigos pela metade, nunca mais…

 

Para o Leopoldo, meu tributo.
Tio, eu te amo hoje e sempre.

 

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