Vida digital: um ato de comédia

Personagens: Moça, Velho.

Ambiente: Praça de bairro. Há um banco. Ao começar a cena, Moça mexe no celular. Velho chega aos poucos e senta-se ao lado de Moça.

Ato único

VELHO (sem querer incomodar)
O tempo está quente, né?

MOÇA (ignora)

VELHO
Gostaria de pedir uma coisa.

MOÇA (deixa o celular, incomodada)
Que foi?

VELHO
Desculpe incomodar. Não quero atrapalhar você.

MOÇA (ainda mais incomodada)
Agora que me chamou, fale!

VELHO
Vocês, jovens… Não têm paciência conosco! Não sabem respeitar os cabelos brancos de um velho. O que será de nós?

MOÇA (volta a mexer no celular)
Você não viu que eu estava ocupada?

VELHO
É que eu preciso de você.

MOÇA (em estupefato)

VELHO
Sim, mocinha. É isso mesmo. Preciso de sua ajuda.

MOÇA (medrosa)
Mas por que você precisaria de mim?

VELHO
Preciso de algo que só você pode fazer.

MOÇA (apavorada)
Eu me sinto lisonjeada.

VELHO
O que aconteceu? Você aparenta estar nervosa.

MOÇA
Não, é só o frio.

VELHO
Estar com frio num tempo tão agradável? Isso não é normal. Posso aquecê-la. (Num pulo, fica mais próximo de Moça.)

MOÇA (finge mexer no celular enquanto estuda os movimentos do Velho)

VELHO
Pois bem. Agradeço por poder ficar a seu lado. Nestes tempos modernos, a solidão é tão grande…

MOÇA
Bem se vê.

VELHO
E como deve ter percebido, eu mesmo tenho ficado muito sozinho. Não tenho com quem conversar.

MOÇA (finge não escutar o Velho)

VELHO (faz um silêncio constrangedor)
Desculpe-me por incomodá-la. Talvez seja minha hora.

MOÇA (respira profundamente, em alívio. Diz ironicamente)
Tão cedo?

VELHO (mostra um relógio dourado e entretém-se com ele)
Não consigo ver as horas. Que adianta ser velho, se não consigo ver as horas?

MOÇA (cobiça o relógio)
Talvez eu possa ajudá-lo…

VELHO (com interesse exagerado)
Pode me ajudar?

MOÇA
Não, disse que o gás está caro!

VELHO (empolga-se)
E não é que está mesmo? Outro dia, vi na televisão que devemos respeitar o meio ambiente. Vamos parar de usar o gás e voltar aos fogões de lenha. Eu gostei, até porque os jovens de hoje não sabem cortar lenha. Quem dera se as mãozinhas que digitam no celular soubessem cortar lenha!

MOÇA (expressa fastio)

VELHO
Como disse, já estou de saída. Desculpe incomodá-la.

MOÇA
Não por isso. Fique mais!

VELHO
Mas você não estava ocupada?

MOÇA
Sim… Não… Eu estava lendo um jornal digital.

VELHO (como que repetindo palavras mágicas)
Jornal…! Digital…!

MOÇA
Sim, é muito simples. É só pesquisar o jornal de sua preferência, e pronto!

VELHO
Como se fosse fácil!

MOÇA
Mas voltemos ao problema. Você não consegue ver as horas?

VELHO
Meus olhos não servem nem para um espantalho. Estou no bico do corvo, filha.

MOÇA (ironiza)
Não diga assim! Você parece tão jovial…

VELHO
Você vai me ajudar, ou não vai?

MOÇA
Apesar de sua educação, vou ajudar sim.

VELHO
Então você quer ajudar o vovô, docinho?

MOÇA (assusta-se)
Sim…

VELHO
Então aguarde só um minuto.

[Velho enfia uma mão dentro das calças e começa a mexê-la. Moça se desespera.]

MOÇA (grita)
Socorro! Socorro!

[Moça sai. O Velho tira uma sacola de dentro das calças. Aos poucos, descobre um celular para a plateia.]

VELHO
Esses jovens, que só pensam besteira. O que será de nós, os velhos?

 

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