Drops: Akira Yamasaki

“A sina que cumpro / […] é de guerra, não de paz” (A. Yamasaki)

Quem conhece sabe: a timidez do Akira não revela o número de suas atividades. Observador perspicaz do seu amado Itaim Paulista, também é agitador cultural, organiza e frequenta diversos saraus na cidade de São Paulo, é responsável pela revelação de diversos artistas de antigas e novas gerações, mantém um blog e escreve crônicas poéticas sobre seu entorno social, no facebook. Além de tudo isto, escreve poemas com a disciplina de um samurai. A particularíssima percepção torna seus textos legítimos haicais ampliados.

Eu mesmo tive a honra de musicar vários de seus poemas – o mais conhecido deles, Inverno, ainda me emociona -, e também o tema da peça “Oliveiras Blues”, na qual também tive o prazer de atuar, sendo dirigido por Sueli Kimura e Luka Magalhães.

De acordo com o conceito do Drops, deixarei que Akira se apresente por seus textos. Vale a pena lembrar: o contato do autor está nos nomes-links, junto a cada texto postado. Com vocês, Akira Yamasaki!

 ( * * * )

Clóvis

Akira Yamasaki (1952)

1

acho bom
não contar nenhum segredo
para o clóvis

acho bom
não contrair nenhuma dívida
com o clóvis

acho bom
não aceitar nenhum convite
para almoçar com o clóvis

sei que conselhos
se fossem bons
seriam vendidos

mas por via das dúvidas
acho bom ter sempre
um pé atrás com o clóvis

2

é melhor o clóvis
não saber de nenhum detalhe
das nossas vidas comuns feitas
de pequenos fatos insignificantes

é melhor mesmo
sua mente suja
transforma sentimentos
e fraquezas humanas banais
em vergonhas sórdidas

é melhor sim
o clóvis ficar inocente
pois no lugar da língua
ele tem um punhal
cheio de infecções

é melhor assim
porque o clóvis
faça sol ou chuva
está sempre atento
e nunca esquece

 ( * * * )

– para francisco xavier

Akira Yamasaki (1952)

não tenha vergonha
de ligar para os amigos
para pedir que venham
se a dor apertar demais
e a casa ficar pequena

não tenha vergonha
de ligar para os amigos
se precisar de um ombro
onde chorar e um colo
para adormecer em paz

não tenha vergonha
de ligar para os amigos
se precisar de um chofer
para dirigir o seu carro
numa tarde ensolarada

e se amanhã não nascer
e a noite vier inesperada
trazendo junto os medos
nunca tenha vergonha
de ligar para os amigos


 ( * * * )

*

Akira Yamasaki (1952)

atiro uns versos comuns
de manhã bem cedinho
às vezes acerto numa flor
às vezes num passarinho


 ( * * * )

*

Akira Yamasaki (1952)

eu estava te esperando
na estação nova de são miguel
ontem à noite
fazia frio e chuviscava
o povo passava apressado

tomei três domecques
nenhum deles fez efeito
nem mesmo os três juntos
me deram qualquer barato

fui ficando ali de boa
mas do nada de repente
que nem folha caída
das árvores da praça do forró
uma pergunta veio no vento:
– o que seria de mim
se eu não tivesse você?

então de repente do nada
na frente da estação de trem
e da igreja velha dos índios
comecei a chorar

In: YAMASAKI, Akira. Oliveiras Blues. São Paulo: Scenarium Livros Artesanais, 2017.

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