Questão de criatividade

“Um dia eu serei como Rimbaud!”

Artur sonhava com as glórias de um grande escritor. Seu desejo, porém, não era apenas vender livros best-seller. Ele desejava inscrever seu nome na história da Literatura. Sua juventude o fazia sonhar alto. Em seus devaneios, pensava:

– Um dia eu serei como Rimbaud!

Ao mesmo tempo em que sonhava com a glória, Artur padecia de um enorme bloqueio criativo. Fazia semanas que ele não escrevia. Quando o fazia, tinha a sensação que seu texto estava péssimo. Certo dia, louco de tédio, visitou uma exposição de pintura. Acabou conhecendo Lúcia e Donaldo, o casal de curadores responsáveis pela exposição. No meio da primeira conversa, Artur disparou:

– Vocês poderiam ajudar um escritor? Eu, no caso? Faz tempo que sofro de bloqueio criativo e não consigo escrever nada.

Tocados por tal sinceridade, Lúcia e Donaldo se entreolharam. Era raro encontrar um jovem tão interessado nas artes. O casal notou o brilho de seus olhos. Contra o desejo de Donaldo, Lúcia decidiu:

– É claro, será um prazer!

Ambos fizeram contato e trocaram telefones. Nos próximos dias, o casal convidou Artur para uma visita em seu apartamento. Obcecado pelo poder aquisitivo e pela cultura dos dois, Artur rilhava os dentes: “Eu serei como Rimbaud, ah! Se vou!”

Apesar de certa resistência, o casal gostava de seu novo amigo. Donaldo era um tanto exigente com Artur, mas nunca deixou de ler e avaliar seus escritos. Lúcia, ao contrário, era cheia de mimos. Enquanto os dois trabalhavam na sala ou no escritório de Donaldo, Lúcia servia suco de laranja.

– Mas não precisa, Dona Lúcia!

Assim, visita após visita, o rapaz começou a sentir-se mais à vontade. Conversava com Donaldo mais abertamente, e chegou até a lavar a louça do almoço, sob os risonhos protestos do casal. A simplicidade de Artur cativava Lúcia que, cada vez mais, gostava de cercá-lo de carinho.

A falta que um filho faz

Ninguém era capaz de saber porque Lúcia era tão carinhosa com Artur. Sua motivação talvez fosse a ausência. Lúcia e Donaldo não tiveram filhos. Este espinho machucava a carne dos dois. A vinda de Artur, deste modo, surgia como uma aparição miraculosa.

Para Donaldo, as coisas eram diferentes. Seus sentimentos passeavam entre o afeto filial e o ciúme. Ele podia ser um pai frustrado, mas não era bobo. Artur era mais jovem, mais bonito e mais dedicado à artes. Se ele realmente quisesse, poderia conquistar Lúcia sem esforço. Lembrou-se de quando a esposa dizia estar carente e procurava homens pela internet:

– O problema não são eles, sou eu!

A cada visita de Artur, Donaldo ficava mais atento. Dedicou-se a não mais prestar atenção nos textos do rapaz, mas atacar sua integridade artística. Dizia: “Não está legal, não tem apelo comercial, você precisa estudar mais Português.” Nada, no entanto, demovia o jovem de sua obsessão. Em certa feita, as críticas severas chamaram a atenção de Lúcia. Ela esperou deitar-se com Donaldo para censurá-lo. Ele reagiu, espumando:

– Se você quiser que ele escreva, que você o ajude!

A partir desta noite, Donaldo sentiu que Artur invadiu a privacidade de seu leito. Passou a encontrar desculpas profissionais para não ajudá-lo. Assumiu quase todas as exposições de sua empresa, trabalhando dia e noite. Preferia deixá-lo sozinho, em casa, enquanto Lúcia fazia o suco de laranja.

Os velhos sempre têm razão

Para Artur, tudo ia bem. Mas a ausência de Donaldo abriu parênteses em seu pensamento: “Por que ele mudou tanto assim?” Em dúvida, resolveu pedir conselho a Mário, seu tio. O velho arrepiou-se todo:

– Cuidado, garoto! O cara está com ciúme de você. Mulher casada é espeto!

Ele percebeu que a opinião do tio era correta. Mas Artur idolatrava a vida de Rimbaud. Pensou em como o tal poeta foi transgressor por amar alguém casado e mais velho. Se fosse preciso, ele pagaria o preço da genialidade. Sem dizer nada ao tio, Artur quis que o ciúme de Donaldo explodisse: “Eu serei como Rimbaud, e assim será!”

O apartamento de Lúcia e Donaldo, por sua vez, tornou-se um ringue de acusações e ameaças. Ela foi chamada de traidora; ele, de ausente. Sem saber o que fazer para acalmar o marido, ela ameaça sair de casa. Num ato desesperado, Donaldo diz:

– Se você sair de casa, eu te mato!

Lúcia tomou nojo de Donaldo. Ela mesma tomou a iniciativa de dormir na sala. Passou a recusar os carinhos e os pedidos de perdão do marido. Ele, por sua vez, desesperou-se. Perder Lúcia era perder tudo o que tinha, na vida e nos negócios. Numa noite, também ameaçou sair de casa. Lúcia ignorou seu apelo. Para reagir ao desprezo, Donaldo saiu logo cedo, sem que Lúcia percebesse. Pediu que o porteiro guardasse sua chave, e que só a entregasse novamente a ele em pessoa. Ao cruzar o portão de entrada, Donaldo profetizou: “Se com ela eu fui ao céu, por ela eu vou ao inferno!”

“Você é a mãe que eu tive”

Ao notar a ausência de Donaldo, Lúcia ligou para Artur: “Socorro, meu marido enlouqueceu!” Chegando ao apartamento, o jovem digeriu o acontecido. Seu tio estava certo. Estar com Lúcia era invocar a fúria de Donaldo, mas o interesse na riqueza fez Artur perder a noção de perigo. Para testar o amor de Lúcia, ele fez-se preocupado. Ameaçou nunca mais voltar. Ela implorava: “Não, pelo amor de Deus!” Quando ela soluçava entre lágrimas e gemidos, Artur fingiu:

– Você é a mãe que eu não tive.

Isto foi o suficiente para que Lúcia o beijasse e, depressa, arrancasse suas roupas.

Sem casa nem paz de espírito, Donaldo andava pelas ruas. Ao ver um bar próximo à sua casa, decidiu entregar-se à bebida. Lembrou que, quando jovem, a paixão por Lúcia o fez um novo homem. Ela dizia: “Ou a bebida, ou eu!” Naquele momento, Donaldo escolheu o amor. Agora não havia fuga: ele escolhia o seu próprio fim. De repente, Donaldo nota Mendonça, um de seus antigos amigos de bar.

– Você por aqui? Quem é boêmio sempre volta ao lar!

O traído, conforme manda a lei da boemia, expôs todo o seu problema. Disse que esse rapaz foi a maldição de seu casamento. Repetiu a frase até exaurir-se: “Ao céu com ela, ao inferno por ela.” Quanto mais bebia, mais era desejoso de vingança. Sem querer, Mendonça entrega o ouro: “Você tem visto o Barreto?”

Donaldo lembrou que Barreto, seu antigo chefe, era um exímio caçador. Como sem querer, encontrou o telefone de Barreto em sua agenda no celular. Ligou com voz macia:

– Barretão, tudo bem? Você está usando aquela Magnum? É que preciso dela para caçar. Claro! Eu passo aí. Chego em trinta minutos.

Mendonça sentiu o sangue congelar.

As nuances violentas do amor

Em casa, no leito de amor, Lúcia ria: “Somos dois loucos!” Artur amava em silêncio absoluto. Fazia questão de ouvir os lamentos da mulher:

– Você sabe o Donaldo? Aquele cara é um fraco, um paspalhão.

– O quê?

– Ele só pensa em trabalho. Nunca me satisfez, sabia? Eu me casei porque era um bom negócio. Nisso nós concordamos. Ele foi um bom profissional. Mas ele não respeitou minha vontade de ter outros homens. E eu preciso de um homem-homem!

– Se você quiser, eu te satisfaço.

Lúcia, nua, deitou-se novamente em sua cama. Artur foi por cima. Ao invés de possuí-la, porém, ele apertou seu rosto com a mão esquerda. Exigiu: “Não faço nada de graça. Você tem que me ajudar com uma quantia.” Ela tremeu os lábios: “Mas meu afeto já não é suficiente?”

Artur já não era o rapaz doce de outrora. Começou a questioná-la, ameaçá-la, forçá-la a pagar seus beijos e carinhos. O afeto havia se tornado exigência. Lúcia experimentou a força dos braços do rapaz. Ela sofria: “Não, Arturzinho, não!” Pensou que a indiferença do marido era melhor que a violência do amante.

O calor das demandas de Artur era tão intenso que Donaldo chegou despercebido.

Chorar em Paris é chorar do mesmo jeito

Quando o marido abriu a porta do apartamento, Lúcia gritou: “Agora é o meu fim!” Pelo tamanho desespero, ela conseguiu desvencilhar-se de Artur. Ao chegar à sala, contudo, decepcionou-se: Donaldo estava bêbado. Lágrimas vieram aos seus olhos carentes. Não conseguiu pedir ajuda. Nua, deitou-se e chorou no tapete persa da sala, acreditando que seu destino era a infelicidade total.

Donaldo, bêbado, não percebeu a nudez de sua mulher. Antes, foi ao quarto. Ali estava um Artur quieto, doce – e que ainda colocava a camisa.

– Você tocou na minha mulher.

– Não diga isso. Você está bêbado.

– Você tocou na minha mulher!

Artur abre a gaveta de um criado-mudo e pega uma faca, guardada ali sem que Lúcia percebesse. O jovem orgulhou-se de sua transgressão heróica, ao estilo de Rimbaud. Aquilo, com certeza, daria um bom romance. De longe, o rapaz grita para Donaldo:

– Se chegar perto, eu te abro a goela!

Donaldo não perdeu a calma. Ele gostava de beber porque o álcool lhe ajudava a pensar. Devagar, ele escondeu as mãos atrás das costas.

– Nunca, Arturzinho, eu encostaria em você.

Num relance, Donaldo saca a Magnum de Barreto. O tiro na cabeça é certeiro. Sorrindo, o traído não acredita: “Minha mira é mesmo boa!” Num jorro, o vermelho vivo do sangue constrasta com o branco frio. Na sala, o grito de Lúcia arranha as paredes.

Artur caiu morto na cama. Ele não teve tempo de pensar que, como Rimbaud, viveu e morreu por sua arte.

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