Nunca fui santinho

“Se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.”

Ao Carlos, meu professor de teatro

Embora não pareça, sempre flertei com o caótico da vida. Trocando em miúdos: eu adorava ver o circo pegar fogo. Não à toa, eu assistia freneticamente as fitas VHS do Rally Havoc, onde carros e motos voavam das formas mais perigosas possíveis. Meu eu criança também adorava o famoso programa “A ponte do rio que cai”, uma versão brasileira do americano Wipeout. Eu morria de rir com os tombos, quedas e cambalhotas dos participantes. No fundo, se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.

Na minha infância e primeira velhice, eu tinha tempo de sobra para pensar. Não havia o que “fazer”. Depois dos estudos, eu ia ao terreno que havia atrás de casa, ou ao lado – os terrenos baldios ainda eram abertos – para pesquisar e criar pensamentos. Além de minhas invenções, eu não era uma criança ocupada (e as crianças ocupadas de hoje me causam pânico.) Meu único trabalho era ler e criar.

Essa vida com os pés na lua ajudou a construir minha pretensa cara de santo; o que, felizmente, não é verdade. Lembro-me como se fosse hoje: sala de aula, turma quieta, professor ausente. A sobremesa da merenda era caqui. Todos tinham o seu. Um dos colegas de classe ficou zangado com outro. O aluno zangado arremessa o caqui no uniforme branco do segundo. O segundo joga o caqui dele e erra, acertando um terceiro. Em segundos, a guerra estava institucionalizada. Até o meu caqui sumiu de minha mesa. Não estava envolvido na guerra, mas assisti a cena. E adorei por um simples detalhe: o caqui que nos deram estava passado ao ponto de não poder ser comido. [Um minuto de silêncio pelas escolas públicas do Brasil.]

“Eu adorei ver meus colegas banhados de caqui. […] A punição foi injusta.”

E sabe que a belicosa greve – justa ou não – me causou uma crise de riso? Eu adorei ver os colegas banhados de caqui. Seu estado soou como uma doce justiça a todo o sofrimento que me causavam. Parecia que todos saímos da escola e fomos a uma gincana. Mas a ordem foi restabelecida. Os diretores foram chamados e reprimiram a classe inteira aos gritos, à força. Eles talvez nem sabiam que os caquis não mais estavam em ponto de degustação. A classe inteira foi punida, inclusive os alunos que não guerrearam – eu, no caso. A punição foi injusta. Aqueles diretores não entenderam nada sobre protestos pré-adolescentes. Mas se eles roubaram minha vontade de rir, não me calaram.

10527282_1399122746979283_7140868838124724360_n
Eu e a mão do meu avô – sempre ele, para sempre. Santo André, julho de 2014.

Nas aulas da belíssima Escola Nacional de Teatro, aprendi que a dimensão cômica da vida é exatamente a mais grotesca, amedrontadora, instintiva. E o ator cômico aprende a rir da cara do perigo. Não há crise existencial onde há humor, pois o humor não teme o ridículo. Quem é sério não gosta de pôr as mãos no barro. Por isso mesmo os sérios não gozam a vida, não evoluem. As pessoas que gargalham possuem um brilho misterioso no olhar. Quando aprendi a rir, descobri uma verdade intragável: meu lado santinho só me atrapalhava. Condenei-o ao inferno, felizmente.

A psicanálise e o teatro me ensinaram a rir das coisas. Ainda não me considero um bom laugher. Mas já consigo rir do que, há um ano, me fazia chorar de dor. Aprendi a rir da minha gagueira. Aprendi a rir do meu jeito velho e desajeitado, da minha vontade de usar paletó e suspensório. Consigo rir de certas ausências que a vida me dá. Na minha primeira velhice, fui praticamente privado de ter amigos. O que eu fiz? Aprendi a criá-los. Com eles, eu desbravava ilhas remotas, inventava peripécias e podia, sem o menor pudor, imaginar homéricas guerras de caqui.

“Nem as perninhas tortas escaparam!”

Eu me transporto ao ano de 2008 (ai de mim, o teletransportado). Eu estava prestes a ingressar no seminário. Antes dele, encontros longos e maçantes de preparação. Na biblioteca, reinavam o ar abafado, tédio e sono. O padre mais temido da congregação regia o encontro. Ele me escolheu para fazer uma dinâmica. Disse: “Venha comigo até aqui.” Ele foi em direção ao fundo da sala. Eu também, só que imitando o padre em questão. Os colegas quase infartaram pelo riso contido. Eles não acreditaram que cometi tamanha audácia. O padre virou-se e perguntou: “O que aconteceu? Por que estão rindo?” Não era necessário dizer nada. Nem preciso dizer que a imitação salvou o dia. Após o encontro estressante, pelos corredores, meus colegas diziam: “Você é louco, Henrique! Nem as perninhas tortas escaparam!”

Como diria o humorista mexicano Bolaños, a imitação “foi sem querer querendo”. Senti a obrigação de rir daquele que nos olhava do alto de sua sabedoria. Embora geralmente seja, cabelos brancos não são garantia de experiência. E todos nós, rapazes desejosos de humildemente servir a Deus, éramos vistos como números – mais ou menos como uma empresa olha seus funcionários. O seminarista é o que praticamente faz todas as funções de um padre, mas não é valorizado como tal. Isso me enfurecia (sempre fui de querer aplausos, por isso que virei artista). Naquele dia, um quase-seminarista – alguém pior que um seminarista – mostrou o ridículo de um padre com quase cinquenta anos de “experiência”. Apontei como um discurso do século XIX não se encaixava nestes tempos complexos. Perdi a vergonha em pensar: “Isso é ridículo!” Este mesmo pensamento suscitou o riso mordaz de meus colegas. Sem falsa modéstia, eu realmente salvei aquela tarde.

“O ridículo salvou minha vida.”

E o que é ridículo? Aquilo que é digno de riso. E digo com certeza: o que é digno de riso nos faz felizes. Anos depois, eu economizei tempo e dinheiro de terapia ao perceber que poderia rir do que quisesse. Reconheço, sem sombra de dúvidas, que sou um ridículo de carteirinha. O jeito de velho aos vinte e seis anos, a vontade de andar de paletó pela casa, a necessidade de por perfume para escrever: tudo isso é ridículo. Aprendi a rir também de minhas pretensas sabedorias. Em 2008, este conhecimento ainda estava distante. Mas aprendi a rir do padre que nos olhava do alto de seu conhecimento. Até hoje ele não sabe porque rimos daquela dinâmica. Será que ele é tão sábio assim?

Através das aulas de teatro, o ridículo salvou minha vida. Perdi o pudor de parecer estranho, de ser diferente, das pessoas pensarem: “Ele realmente não tem nada a ver conosco.” Ser peculiar é um privilégio. Não sou mais um na multidão. E rio de mim com vontade. Perdi o respeito pelas minhas dores: delas, rio selvagemente. Rio a ponto de doer. Já que não preciso temer a gagueira, por exemplo, ela diminuiu consideravelmente. Embora eu seja com os outros, não sou politicamente correto comigo mesmo. Rio das situações ridículas que a gagueira me traz. E meu aprendizado atual é levar essa alegria curativa a quem está ao meu redor.

Chegou o dia em que enganei meu próprio avô.

Recentemente, peguei o hábito sadio de pregar peças. Consigo não rir antes de contar uma piada, ou de convencer alguém sobre uma bobeira qualquer. Às vezes, não me reconheço. E tal estranhamento é uma sensação maravilhosa. Quando me percebo, estou rindo junto da pessoa com quem brinquei. Lembro-me, no ano de 2014 ou 2015 (ai de mim!), quando preguei uma peça no meu avô.

Em certa feita, visitaríamos a sinagoga que frequento. Como era a primeira visita do velhinho, queria guardar boas recordações. Eu sei que o vovô usa paletó apenas em situações muito necessárias. Por isso mesmo, o convenci:

– Vovô, precisamos usar traje social. Vai que implicam com nossa roupa, né?

Assim foi. Vovô saiu de casa mais bonito e mais cheiroso que o bebê Johnson. Eu também estava de terno e gravata. Antes da sinagoga, fomos curtir um pouco no shopping. Lá, tirei belas fotos do vovô engravatado – imponentes, inclusive. Até que chegamos à sinagoga.

“Se você fizer isso de novo, eu te mato!”

Quando chegamos à reza, o velho se revoltou. “Não acredito, não acredito!” Os homens estavam vestidos normalmente: alguns mais radicais usavam até bonés, ou camisas de time. Com aqueles olhinhos azuis, Vovô me encarou: “Não acredito que você me fez usar paletó para isso. Você me pregou uma peça…” Minha concentração nas orações virou poeira. Quanto mais eu ria, mais o vovô se invocava. Até que ele entendeu o ridículo da situação, e começou a rir também. Éramos dois malucos engravatados, rindo em pleno serviço de Cabalat Shabat. Ao voltar de metrô para casa, um vovô sorridente prometeu: “Se você fizer isso de novo, eu te mato!”

Não tive como convencer o vovô sem pregar-lhe uma peça. Ele ficou um pouco bravo, pelo calor da roupa. Até que, dias depois, eu mostrei as fotos. Ele matutou: “Rapaz, não é que ficou bonito?” Foi aí que o vovô colocou a melhor foto no facebook. Ganhou mais de cem curtidas.

11146559_674624359316075_960636209158254426_n

(Convenhamos: um belo modelo, não?)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s