Nome de homem

“Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino.”

Nós, mortais, sequer notamos a brevidade da inocência.

Quando me percebi, estava com dezenove anos. Havia acabado de prestar o vestibular. Todos da família estavam confiantes, inclusive os silêncios de meu pai. Uma pretensa maturidade em mim se esforçava para entendê-lo. De minha parte, não sabia o motivo de sua mudez. Lembro-me de seu carinho na infância, de sua eficácia como provedor da casa. Por que o distanciamento repentino? Talvez os primeiros fios de barba, os mesmos que apontavam o homem que seria, me afastaram dele. Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino. Desde então, meu pai ficou cada vez mais monossilábico. Passou a não interessar-se pelas minhas conversas, a não acompanhar-me no almoço, a ironizar meus gostos pessoais. Chegou o dia em que não mais nos abraçamos: ele disse que minha barba arranhava seu rosto. Desde então, me obriguei a ressignificar sua ausência. Eu, agora, devia ser um homem. Meu pai não sabia que me tornei o guardião dos meus próprios sonhos.

Até que passei no vestibular como o sexto colocado.

Em casa, todos comemoraram a possibilidade de ter um doutor na família. Eu pensei que não havia glórias na sexta colocação. Por que não a terceira, pelo menos? Eu gostaria de um lugar no pódio. Não por mim, mas por ele – o que me ensinou a querer vencer, mesmo não sendo um grande vencedor.

“Minha referência masculina tornou-se um grande e profundo vácuo.”

Este era meu pai: um homem que levava a vida com opiniões ambíguas. Se fazia amigos com facilidade, não encontrávamos nenhum deles para visitar nossa casa. Sua serenidade contrastava com seus momentos de fúria, onde ameaçava jogar o carro para nos matar. Aos outros, mostrava-se gentil. Mas em casa, livre dos olhos alheios, dizia: eu chorei só quando nasci, e olhe lá. Ele se orgulhava de ter um coração blindado a lágrimas. Aos poucos, fui acostumando a ter dois pais: o que parecia ser, e o que realmente era. Essa ambiguidade foi normal até o dia em que ele me chamou de lado.

“Podemos conversar?”, ele perguntou.

Tremi dos pés à cabeça. Com a chegada de minha adolescência, cada conversa com meu pai se transformava numa briga homérica. Ele não aceitava que eu apontasse a dubiedade de seus discursos. Na época, me esforçava para não encontrá-lo em casa. Eu recusava seus preconceitos, sua intolerância, seu menosprezo em relação a tudo o que eu gostava. Certa vez, disse que artistas eram vagabundos. Em outra, disse que eu deveria entrar numa rede de televisão para ganhar dinheiro. Como enjoei de relevar e sorrir, passei a devolver os silêncios que me foram dados. Ele não percebeu: trincheira após trincheira, minha referência masculina tornou-se um grande e profundo vácuo.

Não sei se esta sina é própria de qualquer garoto. Realmente temos que duelar contra nossa referência masculina para nos impor na vida, ou tudo isso não passa de loucura?

“Você não percebe o quanto me constrange?”

Aceitei o convite de meu pai. Ele disse que queria comprar algo e precisava de minha ajuda. Era mentira. Ao entrar no carro, ele passou a dirigir sem rumo, como se entrasse no modo de piloto automático. Senti uma horrível impressão de sequestro. Até que ele começou a dizer que se preocupava comigo. Que eu estava me tornando um homem, e que a universidade me daria tudo o que eu sonhava. Assustei-me com sua interpretação do que acontecia comigo. Como ele tinha notado? Depois de dizer tudo o que achava sobre mim, ele parou de falar. Meu silêncio agravava a situação. Meu pai queria forçar uma intimidade que não existia – ou ao menos existia em sua própria cabeça. Querendo romper o silêncio, meu pai ligou o rádio. O chiado passou a deixar-me irritado. Minhas mãos tremiam, querendo algo para se distrair. Até que ele falou: você precisa se tornar homem de verdade, e rápido. Explicou que uma relação com uma mulher me faria bem. Eu ficaria menos medroso para os desafios da vida. Sintonizando qualquer estação, o rádio pôs uma música romântica nos alto-falantes. Respondi, revoltado: você não percebe o quanto me constrange?

Dali em diante, ele não mais olhou para mim. Meu pai saiu do piloto automático. Parou na porta de casa e perguntou se eu queria ficar. Ele disse que precisava comprar cigarros. Saí sem dizer nada, remoendo o amargor da expulsão. Ele partiu depressa, arrancando. Fiquei com vergonha do cachorro que andava na rua.

Incoerências à parte, assustei-me com o desejo de meu pai. Passei o resto da tarde matutando. Seu desejo era o de me fazer feliz, mesmo que fosse a seu modo. Talvez fosse um recomeço. Mas a distância entre nós era muito grande. Um salto apressado não era a melhor saída.

Sua fala, entretanto, envenenou meus pensamentos. Não pude deixar de lembrá-lo falando sobre as mulheres. É certo que eu sentia falta, sim. Mas falar justo para ele? Não seria melhor guardar meus pensamentos, ocultar meus desejos, como fiz até os dias de hoje?

Talvez fosse a última chance.

Tomei coragem. Numa tarde, minha mãe tinha ido à igreja. Meu pai estava na sala, fumando. A camisa entreaberta revelava os pelos de seu peito. Não percebeu minha presença, concentrado em seus próprios devaneios. Eu disse: Pai, o que você falou sobre mulher?

“Dê graças a Deus pelo pai que você tem.”

Meu pai reagiu num susto: Está mesmo interessado? Seus olhos se acenderam num passe de mágica. E dizia: Eu sabia que você ia voltar. Talvez soubesse, talvez não – somos do mesmo sangue, afinal. Ele pediu que eu sentasse a seu lado no sofá. Batendo a mão em minha coxa, olhou meus olhos com afeto. Disse: Ainda há muito para você entender, meu filho.

Naquela tarde de sol claro, meu pai me contou sobre os mistérios do corpo masculino. Explicou-me qual a atração de um homem por uma mulher. Disse que, antes de minha mãe, era muito namorador – herança genética de meu avô. Disse ainda, justificando: Meu filho, eu não tive quem me ensinasse essas coisas. Dê graças a Deus pelo pai que você tem.

E que pai eu tinha?

No fim da conversa, combinamos que iríamos até a porta de um local. Um estabelecimento para homens, como meu pai dizia. Que eu guardasse segredo de minha mãe, pelo amor de Deus, porque ela era muito ciumenta. Era um compromisso selado entre dois homens: ele e eu. Acabei cedendo. No dia seguinte, ao sair do computador, encontrei uma caixa de bombons em cima de minha cama.

Nunca é tarde para um homem querer seu pai.

Passei os dias seguintes em silencioso tormento. Por que eu não recusei o convite de meu pai? Seria melhor continuar calado. Mas se aceitei algo apenas para agradá-lo, seu carinho também me atraía. O corpo de uma mulher me dava curiosidade, mas a presença de meu pai trazia segurança. Pela primeira vez, senti orgulho dele. Tanto amor, porém, não era suficiente para calar minhas revoltas. Eu recusava ser o filho do Afonso namorador.

Até que chegou o começo da tarde de sábado. Meu pai tomou banho e fez a barba. Veio bater na porta do meu quarto: Filho, não vai se arrumar? Minha mãe, mulher intuitiva, estranhou a recente camaradagem masculina. Mas bendisse a Deus, que era melhor os dois saírem juntos que brigar.

Meu pai foi esquentar o carro e aguardou minha chegada. Ao sairmos, colocou seu CD favorito. Aquelas músicas antigas me faziam lembrar da infância. Ele cantarolava, sorria para mim e gracejava – parecia estar prestes a perder sua virgindade. Demorou quase uma hora para chegarmos na cidade vizinha, numa rua de pouco movimento. A casinha cor de creme ficava perto da esquina. Quase não notei sua existência, não fossem as luzinhas colorindo a indicação: Aberto. Ele, meu pai Afonso, foi incisivo: Aqui é território masculino. Se contar à sua mãe, já viu. Nunca mais te trago.

E como ele sabia daquele lugar?

Contrariei meus desejos e saí do carro. Seguindo suas indicações, entrei na casa e pedi para falar com Mariana. A atendente era uma velha; cheiro e voz de cigarro. Você é o Charles? Sim, sou. Como ela sabia meu nome? Quarto doze, ela resmungou. Entregou-me uma chave e sinalizou a escada com as sobrancelhas.

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Casarões. Ouro Preto – MG, janeiro de 2017.

O tremor de antes crispou-me o espírito. Enquanto eu subia os degraus, senti desejo de voltar e abraçar meu velho. Quis dizer-lhe: Pai, perdoa, eu voltarei a ser criança de novo! Mas era tarde demais. Seu sorriso era a prova de que eu não poderia frustrá-lo. Cada passo me aproximava do matadouro: o menino que fui estava prestes a desaparecer. Sentia-me partindo, vendo meus pais cada vez menores no cais do porto. Diante da porta rosa-choque, o terror da orfandade me paralisou. Pensei: Eu sou o filho do Afonso. Girei a maçaneta sem fazer barulho.

O menino cede lugar ao homem.

Mariana já estava no quarto. Ela me olhou sem novidades. Quando me viu sentar na cama e pôr o rosto entre as mãos, perguntou: Está acontecendo alguma coisa? Eu quis ficar em silêncio. Disse: Não é com você, moça, sou eu. Ela disse que minha reação era muito comum e que, se eu não quisesse, não precisava fazer nada. Ao ver a lingerie vermelha, senti o medo da vida. Pedi desculpas e comecei a chorar. Chorei doído, chorei alto, como uma criança abandonada chora por seus pais. A moça apavorou-se. Para interromper meus passos desesperados pelo quarto, ela me abraçou. Deixou que eu desabafasse minhas lágrimas, entaladas pela arrogância masculina. Devagar, ela acarinhava meus cabelos e tocava minhas mãos. As lágrimas secaram. Aos poucos, deram lugar a um desejo estranho e intenso. Ela continuava ali, abraçada a mim, com nossos corpos molhados. Quando percebeu minha vontade, ela conduziu-me à cama. Ali, Mariana fez coisas que ficam gravadas na memória; ela mostrou-me os verdadeiros limites do prazer. Ambos sorríamos e nos olhávamos nos olhos. Fizemos tudo assim mesmo, de luz acesa. Quis ver os detalhes do que acontecia, pois havia deixado de ser criança. Ao terminarmos, ela pediu que eu fosse embora. Perguntei: Seu nome verdadeiro é Mariana? Ela reiterou: Vá embora, às seis horas tenho outro cliente, estou atrasada. Regurgitei novamente o gosto amargo da expulsão. Fechei a porta e não olhei para trás. Confessei para mim mesmo: Esse nome lembra minha mãe.

Ao sair, a velha resmungou: Já está pago. Devolvi a chave e agradeci. Ela assustou-se com meu cumprimento. Outro Charles cruzava a porta da casinha, mais decidido e maduro.

Afonso, meu pai, me acenou do carro. Eu não o reconheci. Creio que também ele não me reconheceu. Disse: E aí, filhão? Gostou do que viu? Não respondi. Encostei meus braços na abertura da janela do carro. Ele perguntou o que aconteceu. Preocupado com meu silêncio, ele suspirou: Quer ir para casa? Respondi que eu ia de ônibus. Eu já era homem o suficiente para não mais depender dele. Notei que os olhos de meu pai começaram a marejar. Perguntou como se pedisse piedade: Tem certeza? Agradeci o nobre gesto, virei as costas e fui andar por aí, entre os estilhaços de minha inocência.

Meu pai, depois de cinquenta e seis anos, chorou pela primeira vez.

 

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