Luto: uma visão alternativa

Escrevi este texto há alguns meses. Como estou me preparando para escrever uma pequena série contra a psicofobia, inicio com este tema, que muitas vezes é considerado um tabu.

* * *

O que dói não é o soco, mas o músculo ressentido. O que realmente cansa não é o esforço físico, mas a distração da sobrecarga. O que machuca de verdade não é o tapa, mas o desentendimento que conduz à agressão humilhante.

O que dói não é a morte em si, mas o que ela acarreta.

Doem todas as palavras que não foram ditas, os desencontros velados – seja por vergonha, por ignorância ou falta de oportunidade. Doem as ausências que se tornarão cada vez mais constantes: o espaço a mais no sofá, as contas por pagar, a voz transmutada em silêncio, o prato vazio à mesa esperando seu comensal.

Dói o som da verdade: nunca mais gozaremos do convívio daquela pessoa.

Embora ela tenha partido, restamos nós, os viventes. E por isso mesmo a vida deve seguir. “Como?”, perguntamos num questionamento audaz. Levantamos o tom da voz, com o dedo em riste, acusando a Vida de crueldade por nos roubar quem tanto amamos – ou tentamos amar. Pela dor amiúde cega, não entendemos que uma das belezas de nossa existência consiste exatamente em não saber o momento exato da perda definitiva de alguém, ou do nosso próprio anoitecer.

A mãe Natureza sabe muito bem de nossos limites enquanto seres humanos: o que seria se todos nós tivéssemos a data marcada para partir? Talvez alguns entrariam em pânico, fazendo tudo o que consideram ilegal, a fim de “viver a vida”. Outros se recolheriam em seus mundos como ostras e se esconderiam inutilmente do momento final.

Poucos, no entanto, sairiam de si mesmos e dariam afeto a quem precisasse. Outros poucos ofereceriam o resto de suas vidas a alegrar a vida de outra pessoa. Menos pessoas ainda seriam capazes de entender a alegria da brevidade. Chegaríamos atrasados no compromisso da existência.

É difícil alcançar a dignidade de morrer. Somos egoístas demais para nos desapegar de nosso corpo, fonte de nosso trabalho e vaidade. Pensamos demais em nós mesmos quando ignoramos o que se passa a um palmo de nosso nariz. O que dizer de todos os nossos preconceitos inúteis, de todas as crenças infundadas, de toda a indiferença gestada sem o menor incômodo da alma?

A transição dói, mas para nós. Para eles, que já se foram, não nos cabe saber: inviolável mistério. Que eu saiba, ninguém realmente voltou de lá para nos contar. Duvido que alguém conte: eles não são estraga-prazeres, ao contrário dos que vivem e lamentam sob o sol.

Chega a ser engraçado falarmos de quem se foi como se estivessem vivos, mas a vida é o nosso único dialeto. Não sabemos falar o obscuro idioma do não-ser; o som do não-estar nos causa arrepios. Mesmo chorando a partida de alguém, a vida é nosso único farol e tábua de salvação.

Alguns, talvez por isso, creem em uma vida após a vida visível. Outros preferem calar-se diante do mistério abissal; quem faz a experiência da morte, porém, consegue entender o segredo.

Quem morre não acha, mas tem a certeza. Quem morre não conjectura, sabe.

É por isso que nos resta o silêncio. A ciência não possui nenhum embasamento técnico sobre o mistério da vida. Diante do nosso orgulho e prepotência, restam oceanos e ilhas inexploradas. Pode ser que não haja nada do que queremos. Pode ser que haja tudo o que precisamos.

Cedo ou tarde, passaremos esse risco. Por enquanto, basta chorar a alegria de existir.

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Paranapiacaba, Santo André, dezembro de 2017.
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