Mercúrio-cromo

“Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje.”

Para Rosinha Morais

No último 23 de junho, fui convidado para participar do lançamento dos livros “Um segredo na letra H”, do genial Mario Neves, e “Ecos do Silêncio”, de Luka Magalhães – do qual, inclusive, já fiz uma resenha no blog. Entre os lançamentos, eu conversava com a poeta Rosinha Morais sobre os diversos tombos que levamos na vida. Pelo papo, lembramos do mercúrio-cromo: aquele remedinho que colocávamos nos machucados do século passado. Logo fui abduzido pelas memórias que o tal mercúrio me causou. Pensei obsessivamente no assunto até conseguir escrever esta crônica, o que significa uma semana.

Até o ano de 2001, eu não tinha noção do que era a vida. Tampouco tinha noção de minha velhice. Mas as memórias de minha infância são vagas e desconexas. Talvez as sofridas descobertas da vida fizeram-me assim. Ou talvez a constatação precoce de que aquela vida se tornaria pó de estrelas, guardada afetuosamente em alguns de meus neurônios. Esta descoberta foi duríssima, embora verdadeira. Aos poucos, o tempo passou e não pude acompanhar o crescimento do garoto que eu era. Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje.

Mas o assunto do mercúrio ressuscitou-me uma lembrança pueril. Era um dia de sol, de céu claro. Eu estava no terreno que ficava atrás de minha casa, intra muros. Ali poderia passar horas inteiras explorando, aprendendo, pensando, cavucando o chão sem ser perturbado. Eu brincava de algo: não sabia se correndo ou andando de bicicleta. Até que caí. E caí de joelhos, ralando especialmente o esquerdo. Como aquilo doeu! O sangue corria pela perna enquanto eu corria para o banheiro. Minha mãe não viu nada. Estanquei o sangue com papel higiênico. Abri o armarinho: ele estava lá, como que esperando para ser usado. A pazinha da embalagem acariciou meu machucado recente, tingindo o corte com um vermelho-neon. Aquele dia e aquele ferimento ficaram gravados em minha mente. Vinte anos depois, revivi o mesmo alívio de curar meu machucado com mercúrio-cromo.

“O merthiolate era mais um corretor moral que um remédio…”

E o mercúrio curava mesmo. Alguns dias depois, o ferimento estava praticamente curado. Claro que eu não gostava de me machucar, mas aquele era um santo remédio. Confiávamos nele, que não ardia (o inimigo das crianças de outrora, o merthiolate, era mais um corretor moral que um remédio.) E de forma curiosa, eu sabia que tanto a infância quanto o mercúrio-cromo iriam acabar. De fato, sua venda foi proibida no Brasil em abril de 2001. O mercúrio é um metal que permanece no corpo de forma cumulativa. Na verdade, ele era um vilão. Com sua partida, foi embora a certeza de que meus problemas teriam solução fácil e rápida. A proibição do mercúrio coincidiu com o início de minha velhice.

Algum compositor romântico já deve ter escrito: “É mais fácil curar um joelho ralado que um coração partido.” A cura de ambos, contudo, exige tempo. Não à toa, ao nos recuperarmos em um hospital, somos chamados de pacientes. O paciente necessita compreender o tempo de forma diversa a uma pessoa comum. Se num corpo sadio a recuperação demora um dia, o corpo do paciente necessita de vinte dias para alcançar o mesmo desempenho. No amor e na doença, somos todos pacientes – contemplativos, inquietos e sensíveis, tendo na espera o único lenitivo possível. Pacientes impacientes dão problemas para suas equipes médicas; amantes impacientes são sequer suportáveis. Nos assuntos do corpo e da emoção, somente a paciência traz a cura completa.

Felizmente, minha infância me ensinou a esperar. É claro que eu tinha minhas impaciências pueris. Mas enquanto eu não pude ter um computador na minha casa, contentava-me em brincar de escrever num teclado. Minha imaginação era responsável por criar e registrar as informações da tela. Eu já terminava a primeira velhice quando pude ter um computador em casa. Para acessar a internet, ainda mais anos de espera. E hoje, vejo crianças berrarem com os pais porque não são atendidas quando querem. Sinceramente, não entendo o que ocorre com elas. Seria este mesmo frêmito digital o responsável pela amargura dessa geração? O que será das pessoas que desaprenderam a imaginar, desinventaram a capacidade de sonhar? As crianças amarguradas de hoje se tornarão adultos frustrados. Serão indecisas demais para enfrentar os seus fantasmas: preferirão entupir o seu cérebro com sites e jogos coloridos.

DSCF3545
Paranapiacaba. Santo André, dezembro de 2017.

Mas volto correndo ao assunto anterior. Em 2008, precisei operar meus dois joelhos. (A Vida sempre utilizou meus joelhos como alvo. Seria esta a minha revolta em ficar prostrado?) Como contei antes, o mercúrio-cromo já estava proibido. Sem ele, precisei aprender a conviver com as feridas das operações. Aqueles pontos me irritavam. Passei semanas inteiras sem dobrar as pernas, uma por vez, deitado numa cama. Fiquei restabelecido das duas cirurgias em menos de um ano. Mas a Vida tem seu tipo particular de crueldade: fui premiado com uma síndrome comum a atletas, a dolorosa femuro-patelar. Parei de me exercitar, os joelhos ficaram inchados, acostumei-me a sentir dores constantes e intensas. Aos 25 anos, cheguei a ir para o trabalho de bengala. Hoje, faço exercícios físicos sob orientação médica e estou bem melhor. Mas todo este sofrimento me ensinou uma lição.

“Alguns juraram que eu estava apaixonado.”

Percebi que, com o passar do tempo, nossas feridas não são mais curadas com tanta facilidade. Quando crianças, parecemos ter um corpo de borracha. A pele é perfeita, a pressão anda nos eixos, a visão faz inveja a uma águia. Quando entramos na fase adulta, a pele ganha marcas de expressão, a pressão oscila pelo estresse, a visão pede óculos de grau e sol. Assim também acontece com o coração. A criança ama porque ama; não existem racionalismos em seus sentimentos, apesar de haver uma ordem lógica. Nós adultos, pretensos racionais, metemos os pés pelas mãos ao sermos descrentes do amor alheio. Ou o subestimamos, ou criamos algo que não existe. Todas essas cicatrizes vão nos devolvendo maturidade, experiência. Mas a mesma maturidade nos ensina a ficarmos ariscos, perdendo chances de crescer. É impossível arriscar um salto sem temer o impacto.

De uns tempos para cá, os amigos mais íntimos dizem que eu melhorei. Ouvi coisas como “Seu humor está mais tolerável”, “Emagreceu”, “Você passou a se vestir melhor”, ou ainda “Seus olhos estão brilhando mais”. Alguns juraram que eu estava apaixonado. Sim, talvez por mim mesmo. A maturidade me ensinou a parar com o veneno do autojulgamento. Aprendi a concentrar energia para atividades positivas, como este blog e a criação de projetos artísticos. Mas lá no fundo, bem escondido, eu sinto falta do mercúrio-cromo. Como eu gostaria que uma gota de mercúrio-cromo resolvesse minha timidez, minha conta bancária ou minha gagueira! A experiência, contudo, me sopra ao ouvido: “Você tem que inventar e usar suas próprias ferramentas.” Isso me faz querer viver. Se em algum dia eu enjoar de criar – que Deus me impeça! -, minha profissão artística não fará mais sentido.

É impossível criar quando gastamos energia em coisas fúteis.

Assim como um problema de saúde, a criatividade exige tempo e poupança de energia. Se o artista se deixa vislumbrar pelo desejo da fama, ou pelos preconceitos alheios, ou ainda pelo pânico que sua conta bancária mingue, ele se condenará ao fracasso. A criatividade é o aprendizado da paciência. Às vezes estamos bem, noutras não tanto. Eu só escrevo no blog quando sinto a energia criativa, pois não quero forçar um Vitorino que não existe. Com o perdão da cacofonia, mas o artista imediatista frustra o próprio talento. É preciso aprender a nos autoconhecer, a nos amar na justa medida, a entender o nosso processo criativo. A visão imediatista, por sua vez, sempre possuirá um olho estrábico que distorce a realidade.

 

O pensamento imediatista faz coro com o pessimismo. Dou um exemplo de um conceito pessimista: “a vida não presta”. Quando bebês, somos super dependentes dos pais e não temos autonomia para andar sozinhos. Quando somos crianças, somos obrigados a ir à escola, estudar matérias chatas e a obedecer ordens que não entendemos. Quando somos adolescentes, invejamos nossos irmãos mais velhos e queremos ter a amizade de quem nossos pais menos gostam. Quando finalmente ficamos adultos, temos que ter um emprego, pagar contas e tentar cozinhar de forma decente. Gastamos metade da vida aprendendo a fazer tudo isso. Quando finalmente envelhecemos e ficamos livres de tudo, não temos energia para aproveitar a vida. Pensando assim, vale a pena viver?

“O amor é o mercúrio-cromo do coração.”

O amor, no entanto, vence todas essas barreiras. Arrisco-me a dizer que o amor é o mercúrio-cromo do coração. Não há barreira insuperável para a verdade do amor. Ele dignifica nossa existência e nos dá forças para superar nossos limites. Para ser breve, contarei apenas um caso de como o amor é mercúrio-cromo.

Em 2015, uma aluna do meu curso de Informática dizia que a morte do marido era algo insuperável, um verdadeiro golpe do destino. Até que minha equipe de trabalho e eu organizamos um baile para alegrar os idosos. Ao tocar um bolero, todos se levantaram para dançar, sozinhos ou acompanhados. Notei que esta aluna ficou sozinha, sentada num canto. Eu a chamei para dançar. Ela recusou. Lembrei que a ausência de seu amado ainda a machucava. Agachei em sua frente, olhei em seus olhos e ofereci a mão: “Dança comigo, de verdade?” Ela sorriu e, timidamente, me deu sua mão. Ambos começamos a girar pelo salão, acompanhados de inúmeros amigos. No meio da dança, minha aluna confessa:

– Professor, em cinquenta anos de casamento, meu marido foi a única pessoa com quem dancei. Sabia que você é o único que dançou comigo, depois dele?”

Ao confessar este detalhe, minha aluna passou a sorrir e cantar. Ela sentiu o alívio da dor. Embora eu não demonstrasse, minhas pernas travaram. Naquele momento, minha responsabilidade era imensa. Enquanto dançava, fiquei chocado: eu pude fazer a diferença na vida de alguém.

DSCF2671
Henrique Vitorino fazendo o que mais ama: alegrar quem está ao seu redor. Santo André, dezembro de 2016.
Anúncios

Um comentário em “Mercúrio-cromo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s