Resenha: Kaki

Livro: Kaki
Autor: Alvaro Posselt
Editora: Blanche
Ano de lançamento: 2015
Nota: ☆☆☆☆☆

A simplicidade é o ápice da perfeição. Nenhuma teoria pode expressar, nas palavras de Drummond, a inteireza do sentimento do mundo – uma integração particular entre o artista e seu universo criativo. Sou ainda mais ousado ao dizer que a simplicidade artística é um caminho de elevação espiritual: quando a técnica assume seu lugar verdadeiro, resta a alma do artista.

E falando em simplicidade, não posso deixar de lembrar Kaki, o quarto livro de poemas do curitibano Alvaro Posselt. Professor de Língua Portuguesa, Alvaro possui maturidade técnica para escrever poemas. Seu valor, no entanto, está muito acima da pura técnica.

Alvaro se dedica particularmente ao haikai, gênero de poesia japonesa popularizado com Matsuó Bashô no século XVII. Tendo vivido como samurai, Bashô possuía disciplina e técnica suficientes para buscar evolução espiritual na solidão. Embora fizesse discípulos, peregrinou sozinho pelo Japão e praticou meditação zen. Foi responsável por espiritualizar o haikai e deixá-lo como legado às futuras gerações.

O haikai chegou a nós no início do século passado, pelas mãos de Guilherme de Almeida. Como o caqui, logo adaptou-se ao espírito brasileiro e aprendeu a se divertir. O próprio Guilherme criou seu estilo, o haikai guilhermino, com regras próprias. Em Kaki, Alvaro nos brinda com um haikai guilhermino de sua autoria:

a prece, um engenho
um véu, flecha para o céu
é tudo o que tenho

“O instante passa adiante.” A poesia do haikai preza pelo instante puro, sem interpretações do autor. E em sua vida e obra, Alvaro mostra-se um apaixonado pelo instante presente. Tomei a liberdade de reproduzir uma das ilustrações do livro, na qual o autor mostra os diversos fragmentos do agora em seu modo indica-ativo:

20180710_103325
Ilustração do livro “Kaki”, livremente reproduzida a mão por Henrique Vitorino. Curitiba, julho de 2018.

Esta devoção ao momento presente também se encontra no lirismo dos haikais de Alvaro, atento observador da natureza:

O rio vai embora
para nunca mais voltar –
A nascente chora

Consciente da brevidade do instante, Alvaro eterniza o momento puro – tão espontâneo quanto a nascente de um rio. Este fato comprova que não basta a técnica para compor um haikai: é preciso sensibilidade. E o que pode ser mais sensível que um poeta que goza a comunhão com a natureza?

Senryu: o riso traduzido em japonês. Embora possua rigor técnico, o haikai japonês também sabe sorrir. O estilo de haikais humorísticos, chamado senryu, muito influencia a obra de Alvaro, e é comum entre descendentes japoneses no Brasil. Seguindo a tradição de gênios do haikai paranaense, como Helena Kolody, Paulo Leminski e Alice Ruiz, Alvaro conjuga a espontaneidade japonesa com a irreverência brasileira:

Estou ficando calvo
O tempo acertou
o Alvaro no alvo

Fazendo menção ao clássico “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa, o poeta analisa o instante presente com uma pitada de humor. Nada mais japonês, nada mais brasileiro.

O polaco nipônico. Admirador da cultura oriental, Posselt afirma que o livro é uma homenagem ao povo japonês: “Neste livro, tudo é japonês – menos o autor.” E seu humor tem razão. As ilustrações assinadas por Edson Takeuti (o Tako-X) nos conduzem à alma do Japão: discrição, contemplação e profundidade. O primeiro haicai do livro confirma a devoção de Alvaro pelo país de Bashô:

Vento do oriente
Aqui caiu um caqui
que deixou semente

Ecos do silêncio. Cito o título do livro de Luka Magalhães (cuja resenha pode ser lida no link acima) para reforçar o caráter musical da obra de Posselt. Eu mesmo tive a honra de musicar vários de seus haikais. Meu preferido, o intitulado “Silêncio no Templo”, surgiu como melodia pronta, instantânea. Ao cantá-lo, tenho a impressão de ouvir sinos longínquos… E sou capaz de rezar.

Para compartilhar este momento de contemplação, ofereço a você este haikai de Alvaro Posselt musicado por mim.

 

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6 comentários em “Resenha: Kaki

  1. Haikai no Grande ABC:

    “Que mal há
    Passear em Curitiba
    Quem mora lá
    Perto do Guapituba,
    Na cidade de Mauá?”
    =.=.=.=.=.=.=.=.=.=.=.=
    “Artista não mente
    Se solta, vai à frente
    Amor e humor,
    Sempre presente
    Alegria é semente.”
    =.=.=.=.=.=.=.=.=.=.=.=
    “Inverno tipo verão
    Às margens do Ipiranga
    Sol, luz, disposição
    E ainda, um pé de Pitanga.”
    =.=.=.=.=.=.=.=.=.=.=.=.=.=.

    Curtido por 1 pessoa

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