Cigarro, cheguei!

“Quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso.”

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”, dizia Gérson, o jogador de futebol que nos trouxe o Tri de 1970. Com esta frase, Gérson revelou uma das facetas brasileiras até então desconhecida. Em essência, somos duais, duplos. Se os brasileiros são inocentes e festivos, também sabem ser perversos e cruentos; todos vivemos na corda bamba entre a hospitalidade e a intolerância. Uma frase de propaganda de cigarro tornou-se a explicação cabal do brasileiro hodierno, quiçá de todos os que existiram.

Ainda hoje, a voz de Gérson ecoa em meus ouvidos. O que nós, pessoas comuns, seríamos capazes de fazer para “levar vantagem”? O que é uma vantagem, afinal? Ora, a vantagem é um benefício, um privilégio. No futebol – o esporte praticado pelo autor da frase -, a vantagem significa não interromper o jogo por conta de uma falta insignificante, se isso for melhor para o time que sofreu a falta. É possível concluir que a vantagem é uma situação onde estamos à frente, ou em melhor condição que outrem. Deste modo, quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso.

Os espíritos generosos, por sua vez, vivem uma luta cotidiana com o seu instinto de sobrevivência – aquilo que nos impele a tirar vantagem. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, diria que este é o nosso “id”, o princípio vital de prazer. Para contê-lo, são necessários esteios morais, verdadeiros freios que nos permitem viver em sociedade. Há dois séculos, o filósofo alemão Immanuel Kant afirmava que o conceito de Deus era necessário para vivermos em harmonia (o que ele chama de “postulado da razão prática”). Sem o esteio moral, estaríamos entregues à barbárie. E longe do trocadilho barato, tirar vantagem a qualquer custo é mandar o humanismo ao diabo.

“Ao fumar em lugar fechado, o fumante afirma indiretamente que tudo pertence a ele.”

Entretanto, não devo citar a frase de Gérson sem retirá-la de seu contexto. Nosso caro jogador pronunciou o bordão numa propaganda para o cigarro Vila Rica, afirmando que a vantagem estava no preço. Infelizmente, “tirar vantagem em tudo” foi levado ao pé da letra, sendo criada a infame Lei de Gérson. O homem atrás do garoto-propaganda levou a culpa do sensacionalismo do script. Mas deu certo: o produto, assim como a frase, ficou na memória do povo. Por isto desejo ater-me ao verdadeiro tema da crônica: o cigarro. Pensar no assunto me fez descobrir algumas vantagens que os fumantes possuem sobre os não-fumantes. E tratarei de um tipo de fumante específico: o que tira vantagem dos não-fumantes.

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Incenso de flor de laranjeira: o luxo que me permito. Mauá, julho de 2018.

Uma das vantagens dos fumantes não-generosos é privatizar os espaços onde se encontram. Ao fumar em local fechado, o fumante afirma indiretamente que tudo pertence a ele. Nada escapa de seu halo de fumaça: o sofá, o tapete, a roupa, o perfume dos presentes e o ar que todos respiram. Para eles, lembrar do não-fumante é um luxo impensável; imaginar que alguém não gosta de cigarro seria um cúmulo. Os fumantes que tiram vantagem não oferecem espaço para a dissidência. É como se berrassem: “Melhor com ele, pior sem ele”. Os não-fumantes, acuados, são obrigados a engolir a fumaça mórbida – sem filtro, inclusive.

Não desejo questionar a dependência química, um assunto por demais complexo para esta humilde crônica. Mas um detalhe da adição me atrai os olhos: o cigarro é o álibi perfeito para interromper momentos difíceis. Imagine um casal no meio de uma briga. Acusações, cobranças e gestos dignos de ópera. De repente, um dos dois implora: “Dê-me licença, preciso fumar” – com a ênclise, óbvio. Enquanto o fumante se retira, o não-fumante possui tempo hábil para esfriar os nervos. O fumante devoto vai até a calçada e acende o incenso de nicotina: “Obrigado por aliviar o peso de minha souza cruz.” Na volta, ambos estão preparados para retomar o assunto com mais calma. Mas como qualquer coisa boa, o prazer do cigarro é caro demais, para o bolso e a vida. Será que a vantagem vale a pena?

“Como eu queria ser aquele velhinho de bigode!”

Embora minhas lembranças não sejam muito vastas – pois ainda não era um velhinho -, lembro-me de um comercial que chamou minha atenção. Era madrugada no ano de 1999, aproximadamente. Enquanto esperava o papai chegar do trabalho, eu assistia o Inter Cine, um antigo programa de filmes. De repente, a tela se apaga. Uma música em Dó maior embala a corrida: é a liberdade de uma manada de cavalos. Minha mente de criança imagina: “O que pode acontecer?” Um peão avista a manada e parte decidido em direção a ela. Fico boquiaberto com a música de ação, que intensifica a cena. O peão persegue um cavalo malhado, isto é, com pelagem de várias cores. Logo surge outro cowboy, um belo velhinho que observa a cena de longe. Me identifiquei de pronto: “Como eu queria ser aquele velhinho de bigode!” O peão que persegue o cavalo prepara o laço, lança-o, e pronto: o cavalo é domado. O peão (que, para minha surpresa, é uma peoa) faz carinho no cavalo capturado, que responde com amizade. O cowboy velhinho sai da colina, sem mostrar onde vai. Eu, o menino de cinco anos, estou completamente fascinado. A peoa dá um sorriso sensual e tímido, acompanhando a assinatura do comercial: Marlboro.

“Aquela propaganda criou em mim a necessidade de ser livre.”

Nesta época, no ano de 1996, o governo brasileiro restringiu as propagandas de cigarro para o horário noturno, das 22h às 06h. Isto teoricamente evitaria que crianças se expusessem a tais comerciais. Em 2001, as propagandas de cigarro foram proibidas. Mas aquela em especial criou em mim a necessidade de ser livre. Eu sabia que Marlboro era marca de cigarros, até porque um dos maiores heróis brasileiros, Ayrton Senna, já foi seu garoto-propaganda. Isso mexia com meu brio de criança: “Quero logo ser adulto para aprender a fumar!” E papai já era um fumante antes mesmo de eu nascer. Serei sincero: até hoje tenho vontade de fumar, mas isto não me obriga a pôr um cigarro na boca. Ter vontade não é motivo para cumpri-la cegamente. O que me prende é a liberdade de não me dar a chance de abraçar um vício.

O mais trágico é perceber onde chegou a intensidade da vida criada pelos comerciais da Marlboro. Ayrton Senna, que não era fumante, morreu de forma cruel no primeiro de maio de 1994, no autódromo de Ímola, na Itália. Cinco cowboys da Marlboro morreram de doenças ligadas ao pulmão, inclusive o do comercial citado, Dick Hammer – que não era fumante, nem cowboy. Não sei se exagero, mas sempre tive medo de cometer loucuras. Os livros, a Filosofia e o seminário me ensinaram a divagar, levando minhas boemias para o mundo da ficção*. Enquanto ocupo minha cabeça com mil histórias, não pratico nada do que invento.

(*Antes da publicação do texto, lembrei-me da curiosíssima letra de Boêmio 72, a composição de Adelino Moreira que marca a volta de Nelson Gonçalves à carreira artística. Não posso deixar de dividir esta riqueza com os leitores.)

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O ator Dick Hammer, no comercial da Marlboro. Imagem com fins educativos – direitos registrados à Marlboro.

É por isso que prefiro minha vida pacata de velhinho aos vinte e sete anos: não fumo, não bebo muito, não sou de baladas – e nunca tive problemas com isso. Procuro fruir a vida de acordo com minhas possibilidades reais. É certo que a falta de experiências de vida também é problema grave, mas nunca senti vontade de ser um adolescente incorrigível (meu eu velhinho não deixaria). Eu nunca precisei bater a cabeça no muro para saber que doía. Minha maturidade precoce e estranha me faz sentir livre em minhas imaginações criativas. Deste modo, não penso na liberdade como a oportunidade de abraçarmos livremente nossas prisões, mas como viver a leveza de uma consciência tranquila, sem amarras.

“O vovô me daria um safanão se me visse com cigarros no bolso.”

No fundo, é aquela velha história: quem pensa em levar vantagem sempre acaba em maus lençóis. A doce fábula do coelho e da tartaruga ilustra este contraste: inflado por sua rapidez, um coelhinho tira uma soneca ao disputar uma corrida com a tartaruga. Ela, com seu passo lento e pesado, o venceu enquanto ele dormia. Humilhado, o coelho nunca mais ousou falar com altivez. Aprendi a ser como a tartaruga. Prefiro não enfrentar a vida com valentia: que ela possa carregar-me no colo durante muitas décadas. Já estou fazendo minha parte para que este sonho aconteça.

Como se não bastasse, aqui está o motivo derradeiro para eu abolir o cigarro: meu avô está vencendo um câncer (que não é de pulmão, diga-se de passagem). Seria incoerente querer que meu avô viva enquanto eu condeno meu corpo ao sofrimento. E, além disso, o vovô me daria um safanão se me visse com cigarros no bolso. Prefiro deixar minha boca desocupada para cantar o amor, como fez Nelson Gonçalves: sem falsa modéstia, minha voz é muito preciosa – ao menos para mim mesmo.

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