A paixão fatal

“Tem congestionamento até para morrer?”

Entre pensamentos, Seu José fazia casa de paisagem:

– Que coisa mais sem graça! Ó, tédio!

Não havia quem o demovesse de criticar o velório da própria esposa. Os outros parentes comentavam:

Coitado do Zé… Tão quieto! Deve estar sofrendo.

Seu sofrimento, no entanto, era ficar rodeado de parentes escandalosos e insuportáveis. Dino, um dos irmãos da mulher, era seu verdadeiro desafeto. Decidiu capitular ao vê-lo de olhos marejados: “Na morte não se odeia ninguém.” Mas ao ouvir o choro exagerado de seu adversário, foi capaz de berrar:

– Não aguento essa palhaçada!

E saiu para queimar cigarros, esperando que um milagre o salvasse do marasmo.

Tem congestionamento até para morrer?

Todos ficaram admirados com a reação de Seu José: “Justo ele, um homem tão calmo?” Mas poucos sabiam de seu comportamento rústico, até violento. Numa antiga discussão com a mulher, derrubou a pia com um murro de mão fechada. A esposa levantou os olhos ao céu, em prantos. Deste dia, José traumatizou-se. Conseguiu ser mais brando e paciente, embora não soubesse esconder seu tédio marital. Enquanto fumava, sentia que as lembranças lhe torturavam a mente. O que fazer quando não se tem com quem brigar?

O milagre apareceu num carro de bacanas. Dele, desce uma senhora bem vestida e aparentemente aflita. Choramingava: “Já cheguei, mas por que aqui? Não havia algo melhor?” Quando Seu José sentiu a oportunidade de sair do tédio, olhou para as nuvens: “E não é que você me ouviu, Senhor?”

Seguindo a mulher bem vestida, Seu José entendeu o que acontecia: um grande industrial havia morrido e, por falta de local disponível, seu corpo havia sido transferido para o velório municipal. Nada mais ultrajante para sua família. Um dos netos, acostumado a soltar pipa no ventilador, esbravejava: “Tem congestionamento até para morrer?” A dona estava inconsolável, sem saber se chorava pela perda do marido ou das benesses.

Minutos depois, chegou o corpo do cujo. Um exército de preto o acompanhou de óculos escuros, disfarçando – ser triste não é nada chique. Seu José os acompanhou de longe. A senhora bem-vestida o atraiu: “É um moranguinho!” Por ironia ou coincidência, o industrial foi velado na sala ao lado da esposa de Seu José. Quando se deu por conta, o velho havia abandonado o velório da própria mulher para olhar a última careta do ricaço.

Apenas acordou de seu êxtase quando ouviu uma voz feminina:

– De onde o senhor o conhece?

Aquele toque de homem-homem

Sim, era ela: a senhora bem-vestida que falava no celular. Seu José arregalou os olhos e tenta ajeitar a camisa desalinhada. Impostou a voz: “Vim fazer uma homenagem ao dotô.” As crianças sorriram, despudoradas: “Escutem como ele fala engraçado!” Logo foram censuradas pelo tio Rodolfo. Finíssima, a senhora ofereceu a mão ao beijo:

– Não é um bom momento para nos conhecermos, mas sou a Dona Luci.

– Eu sou só o Zé. Prazer.

E sentiu que sua barba roçou aquela mãozinha cheirosa.

“E velório de rico tem até padre particular?”

Não se brinca com vulcões adormecidos

Naquele momento, Luci foi alvejada pelas flechas inflamadas do amor. Quando a barba de Zé fez cócegas em sua mão, sentiu-se moça pela segunda vez. Passou a desconcentrar-se em receber os familiares, trocava nomes de parentes: um horror. Deixou que o padre contratado para a cerimônia fizesse o discurso. Enquanto Luci inflamava de desejo, Zé se dava admirado:

– E velório de rico tem até padre particular?

Aconteceu que Seu Zé nunca deixou de ser galanteador. Ao sentir que aqueles dois olhinhos claros o acompanhavam com agonia, encostou-se no umbral da porta. Balbuciou para si mesmo: “É agora que me dou bem!” Ela estufou os olhos, como que pedindo para que não fosse embora. Ele rapidamente piscou um olho e saiu.

Triste da Luci, que passou a gemer: “O que farei sem ele?” Os familiares tiveram que acudi-la com água Perrier.

*

Luci precisava espairecer e não foi contrariada, exceto pelo desejo de andar sozinha. Ela bufou: “Ou vou a sós, ou enterro-me junto ao Olavo!” Resolveram acatar a viúva. Pensou que procurar José era a perfeita decadência, mas que mais ela tinha? Resolveu seguir um velho de paletó que caminhava pelo verde infinito dos jazigos.

“Você já se sentiu realmente desejada?”

Seu Zé não demorou a perceber que alguém o seguia. Ao ouvir as batidinhas do salto de Luci, foi enfático: “Gostou de mim, não é?” Ela corou:

– Gostei, sim. Mas não conte a ninguém.

– Só se você me der um beijo.

– Beijo? Como assim?

– Só calo com um beijo. E tem que ser na boca.

Ela olhava para o céu, suspirando. A passos lentos, os dois chegaram no outro lado do cemitério, onde não havia transeuntes. Seu Zé não deixou barato: “Você já se sentiu realmente desejada?” Luci assustou-se com a audácia do velho. Diria-se casada, não fosse a morte de Dr. Olavo. Foi obrigada a concordar:

– Não. Meu marido cuidava mais das empresas do que de mim.

– Pois bem. O que acha disso?

Seu Zé mostrou-lhe a intumescência nada tímida que despontava em sua calça.

– Só por você, docinho.

“Ele não me dá o que eu quero!”

A fila está viva, e anda

Um desejo dúbio tomava os pensamentos de Luci. Se ela se chocava com a frieza de Seu Zé, se encantava por sua objetividade. Seu antigo marido, Dr. Olavo, era um homem cheio de dedos. Considerava Luci como sua ação mais valiosa, seu investimento mais seguro. Pelo medo de ferir sua mulher, ignorava os desejos picantes da pequena. Por vezes, ela dizia às amigas:

Não aguento mais o Olavo me levando para a cama ouvindo Brahms. Eu queria mesmo era um homem-homem.

As outras se arrepiavam:

– Isola! O Olavo é um amorzinho!

E Luci espumava, gesticulando com as mãos:

– Amorzinho demais! Ele não me dá o que eu quero!

*

Seu Zé já tomara a intimidade com Luci: “Não tem ninguém no velário.” Num momento de lucidez, ela chocou-se: “Passei minha lua de mel em Santorini, ouviu?” Mas ao mesmo tempo que fingia resistência, a pequena deixou-se render. Juntos, os dois caminham até o prédio do velário.

A luz das velas e o escuro da fumaça davam à situação um ar soturno. Seu Zé abraçou Luci pela cintura, num raro gesto de ternura: “Então vai querer que eu conte nosso segredo?” Ela, num gesto insano de amor, o agarra pela camisa e lhe dá um beijo de cinema. Delirava consigo mesma: “Ah, essa barba! Ah, esses braços!” Não demorou muito e os dois ficaram bem à vontade, devotando carícias e jurando promessas.

Seu Zé lhe fez certa pergunta. Luci, com malícia amorosa, permitiu:

– Sim, antes que morramos!

“É hoje que eu quebro a cara do Zé!”

Quem é vivo sempre desaparece

A vida acontecia no velário. Enquanto isso, Dino e a família velavam a esposa de Seu Zé, até que deram pela falta dele. O cunhado rosnou:

– Aquele tranqueira deve ter aprontado alguma!

Com o sumiço de Seu Zé, criou-se balbúrdia tamanha no velório. Pelo alarido, um dos familiares de Dr. Olavo cochichou no ouvido de Tio Rodolfo: “Veja como eles são diferenciados.” Censurando o parente, o velho foi pessoalmente ao velório vizinho.

– Gostaria de falar com o responsável pelo evento.

Dino enfureceu-se com a formalidade de Rodolfo:

Que evento? Minha irmã está morta e o marido dela sumiu!

Rodolfo desatou a chorar. Ao voltar para o seu lugar no velório de Dr. Olavo, qual foi a surpresa: Luci também havia sumido! Aquele parente, o que falou sobre os diferenciados, assustou-se: “Não acredito!” Uma das crianças lembrou que viu um velho que falava engraçado, e que ele falara com vovó Luci. O caos estava instaurado nas duas cerimônias. Enquanto Tio Rodolfo era consolado pelo padre particular, Dino berrava: “É hoje que eu quebro a cara do Zé, não passa de hoje!”

Até que a morte nos separe

Luci sorria enquanto Seu Zé lhe arranhava o rosto com a barba malfeita. Ele parecia ser o homem perfeito para ela: mandão, seguro de si, forte, viril, além de não passar por erudito. Enquanto ele se ocupava em beijá-la, ela sonhava: “Até o cheirinho de pinga, meu Deus!”

Mas como tudo o que é bom, o sossego durou pouco. Logo ouviram a aproximação de um vozerio: “Onde estão eles?” Luci apavorou-se entre os braços de Seu Zé. Ele aproximou seu rosto do dela:

– Você não quer ser feliz?

– …

– Não quer deixar toda essa bobeira para trás? Viver uma vida nova?

– Mas…

– Agora ou nunca, de vez: quer ficar comigo?

Luci respondeu sabendo da gravidade da situação:

– Sim, quero!

Ao selarem este compromisso com um beijo, Seu Zé e Dona Luci foram encontrados pelas duas famílias.

“Eu te mato, infeliz!”

Nossa vida depois da morte

A reação foi unânime. Naquela situação atroz, ninguém sabia o que pensar ou dizer. Dino foi quem rompeu o silêncio: “Zé, seu desgraçado!” O velho redarguiu:

– Dino, pegue leve.

O cunhado precisou ser contido por dois rapazes:

Desonrou minha irmã! Eu te mato, infeliz!

Com inédita calma, Seu Zé segurou a mão de Luci. Levou-a consigo até chegar perto de Dino. Olhou nos olhos de seu desafeto, bem próximo:

– Secundino, nossa relação de parentes termina aqui. Minha esposa e sua irmã não existem mais. Seu caminho está livre. Deixe-me seguir o meu.

Os familiares de Luci se impressionaram com o poder de decisão de Seu Zé: “Para um diferenciado, até que ele sabe o que quer!” Sob o peso do silêncio, o novo casal passou pelos presentes e saiu sem olhar para trás. Tio Rodolfo apenas coçou a cabeça.

Agora as famílias estariam ocupadas demais com seus próprios assuntos. Tio Rodolfo escolheria quem assumiria as empresas; a família de Dino faria uma festa para comemorar a partida do desafeto. Seu Zé e Luci, por sua vez, estariam ocupados em viver seu amor – até que a morte os separasse.

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Largo da Ordem. Curitiba: julho de 2018.
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