O quase não é “só mais um detalhe”

“João foi o contraponto da tristeza de minha infância.”

Ao Rei da noite paulistana, o Roberto Luna,
que me sugeriu esta crônica após uma noite de trabalho

Nestes dias, a Escola Nacional de Teatro fez um pedido de protocolo: era necessária uma cópia de meu histórico escolar. Para encontrar tal documento, realizei verdadeira epopeia dentro de meu quarto. Foi necessário procurar, fuçar, revirar, mexericar e xeretar, além de outros sinônimos. Depois de árdua busca, encontrei o tal documento. Tendo-o em mãos, exultei, mas não por muito tempo: outros grifos me roubaram a atenção. Com bordas vermelhas, enxerguei o sussurro que vinha da caixa: Pedagogia do violão Del Vecchio. Ali estava outro documento: meu diploma de violonista assinado pelo mestre João.

É fato inconteste que tive dois mestres do violão: além de meu cunhado Rafael, o João propriamente dito. Se o primeiro deu o impulso inicial, o último aprimorou a crueza de meu talento. João foi o contraponto da tristeza de minha infância. Nossa amizade, coroada por trinta e três anos de diferença, era peculiar e curiosa. Deixei o histórico escolar de lado. Aquele caderno antigo já me havia transportado para a década passada, quando pude conviver intensamente com meu professor.

“Foi ao lado do João onde percebi que minha vida não bastava sozinha. Eu precisava da arte.”

Acontece que o João tinha um cd do Glenn Miller, pelo qual ele se consumia de ciúmes. Certo dia, sua esposa pôs o disco para tocar, achando que eu meramente gostaria dos arranjos. Ledo engano. A melodia de Moonlight Serenade absorveu meu espírito. Eu sabia que tinha ouvido a melodia em algum lugar, de alguma forma. Considerei a mística do momento: eu já não pertencia mais ao lugar onde morava, vivia e sonhava. A melodia havia me tomado por completo. Voltei calado para casa. Foi ao lado do João onde percebi que minha vida não bastava sozinha. Eu precisava da arte.

20180826_145754
Anotações do mestre João de Deus para a música “Detalhes”, de Roberto Carlos, provavelmente escritas nos anos 1970. Mauá, agosto de 2018.

A descoberta com Glenn Miller foi um duplo castigo: além de perceber que eu tinha mais idade que meu corpo, senti que um ser misterioso havia me escolhido. Como todo chamado divino, temi a voz que dizia: “Você não será padre, mas artista.” E por mais que me esforçasse em calar essa voz, eu sentia a brisa que crispou o espírito de Elias no monte Horebe. Depois de Glenn Miller, passei a enxergar coisas que ninguém via. Sentia as mesmas coisas com novas intensidades. João não soube, mas comecei a escrever poemas em segredo.

“…João comportava-se como em confissão: voz embargada, cabeça baixa…”

Este evento eclodiu um conflito tamanho em minha consciência. De um lado havia o seminarista, que já nascera pronto e velho. Do outro, havia o artista, tão menino quanto eu mesmo era. (Só pude resolver essa querela há pouco mais de um ano, quando ingressei nas artes profissionais.) Enquanto eu vivia em zona de guerra comigo mesmo, os outros aplaudiam minha tenacidade em servir a Deus. João me chamava de “meu padre”, pedia a bênção e orações particulares. Não obstante seu respeito, ele parecia saber de minha vocação secreta. Provocava-me ao contar suas vivências na noite, o sonho de estar no Terraço Itália, os belos jantares em churrascarias, os romances que viveu. Ao dividir sua “vida de homem”, João comportava-se como em confissão: voz embargada, cabeça baixa, um misto de orgulho e despeito. Eu sinceramente ficava dividido entre dar-lhe o perdão divino ou pedir conselhos.

Deste modo, descobri aos poucos o que significa o termo passado. João também me contava sobre seus empregos em empresas alemãs, e de que maneira os perdeu. Mostrava imensos desenhos técnicos feitos a mão, com precisão de prancheta antiga. Meu caro mestre passava horas contando toda a sua vida. (Seria um augúrio?) Eu não sentia a menor vontade de falar. Com João, minha vida era plena escuta. Por ser muito jovem, aprendi a criar um passado subjetivo, o que ofertou-me a possibilidade de ser ficcionista. Aos poucos, passei a reconhecer as vivências inomináveis de cada ruga, cada cabelo branco. Além do violão, o mestre João ensinou-me a afinar o ouvido – na música e na vida.

O dia em que “tornei-me um ébrio” – involuntariamente.

Voltemos ao assunto principal. Um ano antes de ingressar na vida seminarística, aos dezessete anos, fui visitar nosso amigo João. Neste dia, outros companheiros de copo também o visitavam. Apesar do espanto geral, fui muito bem recebido: – “O que um ‘padre’ está fazendo em nosso meio?” Eu havia esquecido completamente de comer. (Que mania besta a minha, a de esquecer de comer.) No fim da tarde, desfaleci de fome qual projeto de Cura D’Ars. Meus amigos não fizeram-se de rogados: logo ofereceram água. De súbito, a surpresa: eles me deram água no copo onde bebiam cachaça. Naquele momento, senti-me fraterno àqueles homens sofridos, taciturnos, tão incompreendidos quanto eu. Comunguei daquela água com o prazer indizível da transgressão.

[Abro parênteses: Há a lenda de que um único gole no copo de um beberrão possa transformar um indivíduo totalmente. O engraçado é que, anos mais tarde, eu haveria de me apaixonar por Vicente Celestino, o cantor que eternizou os bebedores por vocação, e cuja canção eu cantaria exaustivamente:

“Tornei-me um ébrio, e na bebida busco esquecer
aquela ingrata que eu amava e que me abandonou…”

Anos mais tarde, eu concluiria num poema que se a escuridão turva os olhos, a luz ofusca-os. Aquela irônica eucaristia ensinou-me a enfrentar o medo do que é humano. De fato, compreender o medo faz-nos intrépidos. E só pude fortalecer o brio ao fazer alianças com meus fantasmas. Nisso consiste, em minha humilde opinião, a genialidade de Vicente Celestino: quem é capaz de cantar um filho que arranca o coração da própria mãe? E Celestino tornou-se a voz-orgulho do Brasil cantando “Coração Materno”. Em minha adolescência, meu eu velhinho me aterrorizava. Hoje, ao assumir-se, está quieto e manso. Como havia dito, talvez essa velhice seja ficcional. Mas como entender minha naturalidade em conviver com um amigo nonagenário? Às vezes, a vida possui ironias lancinantes. Quem resolver este enigma, que me avise.

“A boemia é a meditação afetiva do mundo.”

20180816_233749
Henrique Vitorino e Roberto Luna, o Rei da noite de São Paulo, numa apresentação no bairro de Santana. São Paulo, agosto de 2018.

Dentro em mim, a união de ambos os polos tranquilizou-me. Menino e velho deram forma ao meu conceito de “boemia”, que muito difere do tradicional. Vejamos: a boêmia é conhecida nos dicionários como vida airada, dedicação ao prazer, vadiagem (que termo infame.) Para mim, a boemia é a meditação afetiva do mundo. Ser boêmio faz-me enxergar as coisas com olhos sentimentais. Não é só amar os melodramas de Lupicínio Rodrigues ou cantar em uníssono com Nelson Gonçalves. Ser boêmio, para mim, é amar romanticamente tudo o que é humano. O seminário ofereceu-me certa visão perigosa e maniqueísta: a de que era preciso morrer para o mundo e viver para o alto. Mas não há evolução em amar alguém perfeito e ilimitado. O que nos faz crescer é amar as pessoas, muitas vezes ingratas, imperfeitas e complexas. Não há sentido em sacrificar-se, mas em viver intensamente – o que não deixa de ser sacrificante. Se eu ouvi um dia a voz de Deus, foi quando Ele me disse: – “Saia do templo e vá viver entre pessoas de carne!”

“Sou boêmio setenta-e-dois: quem quiser, pode imitar…”

Os mais conservadores têm o direito de escandalizar-se. Entendo a discordância, e reitero: não sou puritano; minha boemia, contudo, não faz apologia à bebida. Inclusive perdi parentes e amigos por causa dela. Se alguém tiver dúvidas de como é meu jeito de ser boêmio, que ouça o depoimento de Nelson Gonçalves em “Boêmio 72”, uma composição de Adelino Moreira:

“Não faço apologia ao botequim,
e só bebo umas e outras
quando a coisa está pra mim…”

Para não transformar esta crônica em lamentação, cito apenas um caso de como o abuso do álcool pode marcar uma vida.

“Você se machucou?”: o dia em que apanhei com um frango.

Num episódio da minha infância, eu conversava com um amigo adulto – já alcoolizado, por sinal. Quando cessou o diálogo entre nós, virei as costas para fazer ou pensar qualquer coisa. De repente, fui atingido pelo frango cru que serviria de mistura no almoço. Nem tive tempo de sentir a pancada. A risada do amigo estremeceu as paredes de forma sarcástica. Ouvi de outra pessoa: – “Você se machucou?” Minha camisa branca estava indelevelmente manchada de sangue e gordura de frango. Sorri e fingi relevar. Mas voltei para casa chorando de vergonha, escondendo a camisa para mamãe não ver. Joguei ambas (a camisa e a raiva) no cesto de roupas sujas. Sequer houve pedido de desculpas. Às vezes, a vida possui ironias lancinantes.

20180826_145730
Nas anotações do mestre João, o acorde de Lá Maior com Sétima Maior (A7M), provavelmente escrito na década de 1970. Mauá, agosto de 2018.

Anos depois, ingressei no seminário e estudei filosofia, o que me deixou temporariamente acético. O mestre João, assim como meu eu menino, ficou em Mauá esperando meu retorno. Ao sair do internato, dei um basta à vida de redentor alheio: não tinha mais paciência para os excessos do velho mestre. Na ocasião, eu passava um trimestre em São Paulo quando veio a notícia: “Filho, o João não está bem”. Mesmo com a violência da cirrose, que lhe impunha convulsões e hemoptises, decidi não visitá-lo. Na época, tive a impressão de ter feito tudo o que estava em meu alcance. Dias depois, recebo outra ligação da mamãe: – “Filho, o João morreu.” Já se passam três anos, e ainda não fui vê-lo. Ele, certamente, passou a morar dentro de mim.

O histórico escolar permanece abandonado. Ponho o cd do Glenn Miller para tocar e sento no tapete. O velho diploma permanece à minha vista. As memórias, atrevidas, me invadem de sopetão. Vejo o nome “Del Vecchio” longamente: o João, que também se apelidava velhinho, morreu com menos de sessenta anos. Às vezes, a vida possui ironias lancinantes. E o que é a vida, senão esse imenso lugar-comum?

Evito chorar para não manchar o papel antigo. A janela mostra um sol se pondo ao longe. Levanto. Logo tomo banho, visto o paletó, ponho o perfume e penteio o bigode. Ao sair de casa para cantar, quase esqueço o mestre João. Mas este “quase”, com certeza, não é só mais um detalhe.

joao_oficial-001

 

Anúncios

4 comentários em “O quase não é “só mais um detalhe”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s