Cara ao cuspe

Quando a gente escolhe amar alguém até as últimas consequências, assumimos o risco de oferecer nossos dentes ao murro.

Quando gostamos de forma verdadeira, sem máscaras de proteção ou aventais de segurança, damos nossa cara ao cuspe.

Todo amor é um risco iminente de dar errado, da pessoa perfeita falhar, de uma palavra errada ferir nossas entranhas e retirar-nos o sono. Toda entrega é uma chance de cair no abismo.

Muitos personagens já mataram ou morreram por amor. O amor é o remédio que traz a cura ou leva à morte. É por isso que o amor é atraente. O amor é a ponta da faca afiada e o conhaque quente em meio à neve.

Amores de amigo possuem mais risco de sofrer, visto que são eternos. Podem ser feridos profundamente e morrer nas sarjetas da vida. Podem também cair pelo caminho, já cansados de tantas pancadas – ironias, ausências, grosserias. O amor é muito sensível e não suporta egos inflados.

Continuamos a amar mesmo assim. Amamos muitas vezes sem porquês, sem ter motivos plausíveis. E amamos também por motivos: por gostar daqueles olhinhos que brilham tanto, pelo perfume inebriante, por um gesto que nos arrebata o coração, pelas benesses materiais que uma relação pode proporcionar. Existem ainda o amor desinteressado, o amor erótico e possessivo, o amor contraventor e o amor que chega inesperado.

E aí está o gosto de amar. É nos desafiar, empurrar-nos para a frente – mesmo sem saber o que nos aguarda.

Pode ser que eu ame apenas a ideia que eu fiz de alguém. Pode ser que eu esteja louco. Pode ser que eu me esvaia de tanto amar e não receber um grama de volta. Pode ser que eu seja injusto e cego a tanto amor que recebo. Mas por isso eu amo. Longe de mim a tranquilidade da terra firme: prefiro a corda bamba entre dois olhares.

Assim como o ódio, o primo que mora perto, o amor precisa de tempo para frutificar. É preciso aprender a arar o coração alheio, adubá-lo na medida certa, plantar algo que renderá boa colheita – gratidão, brio, afeto, respeito, honra, alteridade. E só o plantio não é suficiente. É preciso regar constantemente com sorrisos, ombros amigos, pequenas gentilezas; nossa presença, enfim.

Mesmo assim, ainda é possível que o amor não vingue. Pode ser que o coração seja ácido por natureza, que a dificuldade da empresa não valha o investimento, que o fruto não consiga germinar naquele solo, ou a pior das hipóteses: que uma nuvem de gafanhotos nos roube tudo o que plantamos.

Se você ama alguém que não é capaz de te amar, que não devolve este amor na mesma intensidade, que ignora ou zomba o que você sente: não se apavore. A Vida não desampara quem possui boas intenções. Não se machuque por quem tem um coração selvagem. Amar quem nos ama é bonito, mas amar sem interesses é puro exercício espiritual. Aproveite as falhas alheias para aprimorar as suas.

Pois quem carrega esse pedacinho divino em si, afinal, é você.

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2 comentários em “Cara ao cuspe

  1. Direta ou indireta? rsrs

    Em sex, 5 de out de 2018 11:58, Henrique Vitorino escreveu:

    > Henrique Vitorino posted: “Quando a gente escolhe amar alguém até as > últimas consequências, assumimos o risco de oferecer nossos dentes ao > murro. Quando gostamos de forma verdadeira, sem máscaras de proteção ou > aventais de segurança, damos nossa cara ao cuspe. Todo amor é um risco ” >

    Curtido por 1 pessoa

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