Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro

“Pensei que a roupa de cachorro personificaria toda a minha vocação de ser jogado para escanteio.”

Sou um memorialista por excelência. E exatamente por este fato, dias festivos provocam-me de forma particular. É assim com o Natal, a Páscoa, as viradas de ano, os Sete de Setembro. No dia das Crianças, sou levado pela mão a uma lembrança distante no tempo, mas muito próxima da memória. O mundo ainda era bom e não tinha um pingo de maldade – ou seja, escrevíamos os anos com o número um. Estávamos nos idos de 1997, 1998. Tremo ao pensar que este caso já tem mais de vinte anos.

Nessa época, eu não tinha conhecimento nenhum sobre a vida. Eu vivia entre a realidade e os devaneios de meu mundo infantil e onírico. Sim, eu sonhava. E inclusive algumas crianças chamavam-me de boca aberta, nos primeiros anos de escola: “Por que ele pensa tanto? Ele é tão avoado…” Explico. “Avoado” é um termo nordestino que indica alguém etéreo, desconcentrado, com a cabeça nas nuvens. Ser avoado, atualmente, é possuir o privilégio de a internet não ter destruído minha capacidade de imaginar – o que me garante o pão como ficcionista, inclusive. Reitero que estávamos nos anos de 1997, 1998. Toda essa balela de “globalização” era só uma utopia.

Neste período, eu estudava na pré-escola Monteiro Lobato (esses escritores que não me largam!). Num dia, um homem chegou na escola com as roupas dos bichinhos da Parmalat (em outro texto, já expliquei o que essa propaganda causou a nível nacional). O fotógrafo causou um frisson em todas as crianças, e em mim também. Enquanto as crianças escolhiam as fantasias para tirar a foto, fiquei envergonhado de pedir a roupa de coelho, que uma garota já tinha escolhido. Sobrou-me a roupa – e a casinha – do cachorro.

“Para sobreviver, aprendi a ser politicamente incorreto com a minha própria dor.”

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Foto tirada na época da minha pré-escola. Mauá, ano de 1997.

Dado a símbolos que sou, pensei que a roupa de cachorro personificaria toda a minha vocação de ser jogado para escanteio. Na hora do sorriso para a foto, já vestido de cachorro, escuto de uma tia: “Não sorria, seus dentes são abertos. É feio.” Fiz uma cara séria e sisuda, incoerente com a criança que eu era. (Ainda não tinha maturidade para entender que ela usava dentadura…!) Desde aquele momento, fui atingido por uma premonição: eu só faria ou teria alguma coisa se eu lutasse com minhas próprias forças. Enquanto isso, eu seria digno de uma perfeita vida de cão.

De fato, demorei quase vinte anos para entender essa lei da vida. Para sobreviver, aprendi a ser politicamente incorreto com a minha própria dor. Tive que retirar forças de onde não tinha. Mas os erros, infelizmente, são mais pedagógicos que os acertos. Aceitei durante anos a fantasia e a casa de cachorro. (Num exemplo: só consegui a chave da porta principal de minha casa após uma grande luta. Até então, eu só entrava pela porta de trás, na sala.) Por ignorância, eu fui tão negligente comigo que levei minha saúde emocional à bancarrota. Acreditava que a erudição intelectual me ajudaria a fugir do sofrimento. Acabei por criar uma incrível habilidade de fugir de mim mesmo. Eu sabia falar inglês e, mais tarde, alemão; aprendi conceitos filosóficos e nomes de poetas estrangeiros. De que isso adiantava, se eu não sabia me preservar de gente tóxica?

“A humildade cristã era a minha única verdade.”

Acontece que eu pensava demais nos outros. Fui educado para ser o novo Jesus, pronto para entregar-se quantas vezes fosse preciso. Estava treinado desde o berço para ser um “alter Christus” (do latim, outro Cristo). A humildade cristã era minha única verdade. Aos poucos, muito paulatinamente, passei a acreditar que merecia sempre os últimos lugares, que devia ser lembrado ou chamado sempre depois dos outros, que precisava suportar as piores dores calado – pois o Mestre nunca reclamou. Pois é: neste período, convivi com uma dolorosa gastrite (nervosa, de preferência).

Eu estava possuído por ideias enfermas: havia agarrado meu sofrimento com unhas e dentes. Não havia ninguém que pudesse me salvar daquele calvário. E como se não bastasse, tudo isso aconteceu na época da escola. Tenho a opinião de que é na escola onde podemos ver a crueldade do ser humano no estado mais puro. Uma professora dessa época, pela qual eu tinha muita ternura, disse numa tarde nublada: “Vou dizer com carinho, mas você parece um feijão.” Sim, até a professora mencionou que eu tinha cabeça grande. Senti-me humilhado. Hoje eu sei que crânios grandes podem guardar verdadeiras máquinas cerebrais, mas como eu me defenderia sozinho aos dez, onze anos de idade?

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Quem diria que o “cabeção” chegaria onde chegou? Paranapiacaba, dezembro de 2016.

Minha cabeça grande continua comigo – cantando, compondo, escrevendo, dando aulas, atuando, decorando e criando textos. Não tenho mais notícias da professora cara-de-acelga. Mas volto ao assunto anterior. Meus colegas passaram a zombar-me pelo apelido aziago. Como era de se esperar, não reclamei nem contei aos meus pais. Acreditava piamente na minha vocação de saco de pancadas até o Juízo Final, onde me tornaria um santo ao lado de Jesus (tenho até vergonha de dizê-lo). Minha vida neste mundo seria a casa do cachorro vira-lata, do qual me orgulhava em representar. Anos mais tarde, quando descobri os niilismos de Nietzsche, senti-me ofendido. Mas o filósofo alemão lançou-me a verdade na cara: eu estava desperdiçando minha vida. Entendi devagar, muito aos poucos. Além de minhas resistências à sua filosofia, devoto-lhe minha gratidão.

Novamente surge a pergunta cabal: como eu (tão pequenito) iria defender-me sozinho, se eu sentia que ninguém poderia ajudar-me? Meu único modelo era o do Cristo Crucificado. Até deixar de aceitar esta imposição, eu detinha-me na irracionalidade e na violência do Calvário. O apelido de “Feijão” ou “Feijãozinho” durou até o final do meu período escolar. Na época, aprendi a gostar do apelido. Atualmente, na querida Escola Nacional de Teatro, minha turma diz que meu estilo de atuação é parecido com o do grande Mr. Bean (personagem do ator inglês Rowan Atkinson). Traduzindo: embora diferente, continuo a ser o mesmo Feijão de antes. Isto é carma de outras paragens ou tremenda ironia do destino? (Mas é claro que amei ser comparado ao Mr. Bean, diga-se de passagem).

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Esta é a criança que eu era – a que luto para que o tempo não leve. Mauá, meados de 1995.

Mas aconteceu a mudança. Numa tarde qualquer, ouvi um eco interior: “Não mais sofrimento! Chega de lágrimas!”, como diz o xampu Johnson’s. Jurei, então, enfrentar toda pessoa que me faltasse com o respeito. Por amor a mim, quis desacatar todos os que me diminuíssem. Abracei o conselho de Nietzsche: os fortes não precisam odiar para ser felizes. Eles simplesmente existem, e ponto. Os amigos comemoraram o surgimento de um novo Vitorino, este que sou agora. O antigo Henrique, o sofredor, só continua por questões de formalidade e cerimônias legais.

“Mais cedo ou mais tarde, eles vão te ouvir, viu?”

E vieram os Anos de Chumbo (2013-2014). Não prolongarei minhas peripécias adultas por dois motivos: para não estender a crônica demasiadamente, e por ser Dia das Crianças. Contarei aqui, então, um pequeno caso que vivi quando garoto. Dada sua perfeição, infelizmente nunca mais conseguirei repeti-lo. Apenas a sagacidade de uma criança poderia fazê-lo tão eficaz e potente, como se o pior murro do mundo ainda fosse um consolo desejável.

Na época da minha foto de cachorro, fui com minha família na casa de um amigo dos meus pais em São Paulo, no bairro de Santo Amaro. Para minha infância in-door e semi-rural, Santo Amaro era o legítimo outro lado do planeta. Aquele dia me foi torturante: trânsito, calor, ficarmos perdidos na rua – não havia GPS ou Waze -, gente que me era desconhecida. Os adultos conversavam e sorriam em seus assuntos insulsos, falando sobre trabalho. Sentia-me um peso morto, e o silêncio me apunhalava a garganta. Até que certa hora, meu eu velhinho prometeu para mim: “Mais cedo ou mais tarde, eles vão te ouvir, viu?”.

Esperei calado desde a manhã até a hora do café, em torno das cinco da tarde. Quando se lembraram de mim, recebi convite para sentar-me à mesa. Pela minha altura, apenas minha cabecinha grande despontava entre os talheres, xícaras e pratos. Quando houve o silêncio natural às boas refeições, falei justamente para o amigo dos meus pais:

– Sabia que um parente meu solta pum tão alto que levanta até o cobertor?

Moral da história: me deixaram assistir o recém-criado Canal Futura (que sempre gostei), fiz passeio no carro do amigo dos meus pais – um Logus cor-de-vinho -, ganhei presente e até um chocolate. Ao voltar para casa, meus pais me repreenderam duramente pela ousadia. Mas não me arrependi. Ao contrário: por sair sozinho da casa do cachorro, deram-me a atenção que sempre mereci.

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Uma foto do dia fatídico: o carro do meu pai. São Paulo: meados de 1997.

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