Perguntas sem respostas

De que vale todo o afeto espalhado em carinhos?
De que vale tudo isso que se acredita sentir,
que se acredita existir como o que nos dá vida?
De que vale aquilo que acredito?
Como entender o que não se pode ver?
É possível viver para amar até a consumição total?
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O quase não é “só mais um detalhe”

“João foi o contraponto da tristeza de minha infância.”

Ao Rei da noite paulistana, o Roberto Luna,
que me sugeriu esta crônica após uma noite de trabalho

Nestes dias, a Escola Nacional de Teatro fez um pedido de protocolo: era necessária uma cópia de meu histórico escolar. Para encontrar tal documento, realizei verdadeira epopeia dentro de meu quarto. Foi necessário procurar, fuçar, revirar, mexericar e xeretar, além de outros sinônimos. Depois de árdua busca, encontrei o tal documento. Tendo-o em mãos, exultei, mas não por muito tempo: outros grifos me roubaram a atenção. Com bordas vermelhas, enxerguei o sussurro que vinha da caixa: Pedagogia do violão Del Vecchio. Ali estava outro documento: meu diploma de violonista assinado pelo mestre João.

É fato inconteste que tive dois mestres do violão: além de meu cunhado Rafael, o João propriamente dito. Se o primeiro deu o impulso inicial, o último aprimorou a crueza de meu talento. João foi o contraponto da tristeza de minha infância. Nossa amizade, coroada por trinta e três anos de diferença, era peculiar e curiosa. Deixei o histórico escolar de lado. Aquele caderno antigo já me havia transportado para a década passada, quando pude conviver intensamente com meu professor. Continue lendo “O quase não é “só mais um detalhe””

O Maridinho e a Mulherzinha

Por Luis Fernando Veríssimo

Todos conhecem o Maridinho. Sempre bem arrumado. E perfumado. Quando tem alguém novo no grupo, o Maridinho se apresenta com uma pergunta:

– Como é que a sua esposa lhe chama?
– “Ei, você!” “Ó peste.” Às vezes até pelo nome…

Os outros dão risada mas o Maridinho fica sério. Espera até que o barulho acabe e então continua:

– A minha mulher me chama de Maridinho.

Os outros fazem força para não rir. O novo no grupo pergunta:

– Maridinho?
– Ela me adora – diz o Maridinho, faceiro. – Agora mesmo ela me vestiu, me penteou e me deixou sair para dar uma volta.
– É a sua mulher que veste você?
– É. Depois de me dar banho.
– E deixou você sair para dar uma volta…
– E ai que não deixasse. Ai que não deixasse! Continue lendo “O Maridinho e a Mulherzinha”

Vida digital: um ato de comédia

Personagens: Moça, Velho.

Ambiente: Praça de bairro. Há um banco. Ao começar a cena, Moça mexe no celular. Velho chega aos poucos e senta-se ao lado de Moça.

Ato único

VELHO (sem querer incomodar)
O tempo está quente, né?

MOÇA (ignora)

VELHO
Gostaria de pedir uma coisa.

MOÇA (deixa o celular, incomodada)
Que foi?

VELHO
Desculpe incomodar. Não quero atrapalhar você.

MOÇA (ainda mais incomodada)
Agora que me chamou, fale! Continue lendo “Vida digital: um ato de comédia”

Guarda-chuva

eu era muito pequeno e lembro
minha mãe dizer coisas que até hoje
estão guardadas em minha memória

uma delas, a mais importante delas
era o conselho que definiria minha personalidade
por muitos anos, e até os dias de hoje
seus fonemas reverberam em minha memória

sempre que eu saía de casa
eu tinha mania de levar casaco
graças à serra do mar paulista
e dos ventos de paranapiacaba
mas o mais impressionante surge agora:
mamãe dizia –
filho, leve um guarda-chuva
a todas as minhas experiências fora do útero
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Decapitação, por Wisława Szymborska

Decote vem de decollo,
decollo significa cortar o pescoço.
A rainha da Escócia Maria Stuart
chegou ao patíbulo numa veste apropriada,
a veste era decotada
e vermelha como uma hemorragia.

No mesmo momento
num quarto apartado
Elizabeth Tudor, rainha da Inglaterra,
estava à janela num vestido branco.
O vestido vitoriosamente abotoado até o queixo
terminando num rufo engomado.

Pensavam em coro:
“Deus, tende piedade de mim”
“A razão está comigo”
“Viver é atrapalhar”
“Em certas situações a coruja é filha do padeiro”
“Isso nunca vai acabar”
“Isso já acabou”
“O que faço aqui, não tem nada aqui”

A diferença no traje – sim, dessa tenhamos certeza.
O detalhe
é inabalável.

* * *

In: SZYMBORSKA, Wisława. O amor feliz. Traduzido por Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Wisława Szymborska (1923-2012) é polonesa, premiada com o Nobel de Literatura em 1996. Foi formada pela Universidade Jagellonica em Filologia e Sociologia. Sua obra foi traduzida para trinta e seis línguas, dentre as quais o português.

 

Poesia metroviária: Marechal Deodoro

I

em pleno abandono e caos,
onde os homens se esquecem dos deuses,
estive de passagem. os que ali ficaram
não entregaram suas vidas,
antes foram roubadas
pelo estupor e clarão da morte.
lutei como nunca, corri por vales,
cavei e escondi-me entre trincheiras,
carreguei feridos em campos de batalha.
nada disso me satisfez:
era como andar em círculos
na rua em que somente se anda a esmo.
sim, estava morto. mais morto que meus amigos
sem pernas, sem braços, sem olhos:
nada mais podiam ver.
eu estava sem espírito, vagando pela terra,
de ricochetes o sangue brotando em flor.
mal eu sabia que era a primavera,
prometendo metade de vida para o próximo ano.
as ruas haviam me dito, mas não quis escutar.
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Pais, meus queridos pais

Neste tristíssimo dia em que o Brasil perde Bibi Ferreira, surge à lembrança um texto que escrevi sobre meus pais: como eu os entendia, como eu os entendo agora, como suas atitudes reverberaram em mim. Hoje entendo que, felizmente, não caí muito longe de minhas raízes. Este mistério está divinamente velado em nós: quem nos gera está entranhado em nosso ser, moldando inclusive o jeito de existirmos no mundo. Que continuemos cada vez mais parecidos àqueles que nos carregam no ventre, adotiva ou biologicamente.

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Recuso-me a ser coração de pedra

Quando não nos resta porto seguro a nos conter, cabe abrigar-nos em nosso próprio coração. O importante é não deixar de emocionar-se, nem deixar-se abater. Que as lágrimas sempre nos corram os olhos, mesmo se o choro for o único desabafo possível.

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O velhinho de 27

Incomoda-me saber que estamos caminhando para um abismo sem volta. É chegado a hora do duelo final: ou tomamos vergonha e damos um jeito na humanidade, ou a natureza dará um jeito em nós. Cada um é digno e merecedor de fazer sua parte – mesmo que pequena. Por mais que haja a tristeza, ela não é desculpa para nos fazer de pessimistas. Segue o texto (vulgo desabafo) que escrevi sobre como as novas gerações não assumem o protagonismo de suas vidas por estarem ocupadas demais com futilidades.

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Aos ainda-humanos

Os tempos estão difíceis, todos sabemos, mas isto não é motivo para deixar de crer. Apesar da onda acéfala que se instala e cria raízes na humanidade, ainda existem valores como afeto, gratidão, generosidade, amor ao próximo, honestidade e carinho – e não somente entre os animais. Que este poema nos provoque a ser melhores para nós mesmos, para os outros e o ambiente que nos circunda.

Que não sejamos humanos apenas na aparência, mas principalmente no caráter.

escute uma coisa:
você pode perder tudo nesse mundo
você pode perder a fé em qualquer coisa que seja
você pode perder as ilusões ou até mesmo a esperança
só não perca a sua humanidade

você pode perder dinheiro
você pode perder uma gorda e bela chance
você pode perder o pouquinho que faltava
só não perca a sua humanidade

se você perder a paciência, ou perder o jogo
se você perder as estribeiras, ou perder a razão
se você perder aquilo que sempre quis
ou o que demorou tanto para conquistar
não perca o que lhe faz aguentar a barra
e ter sua dignidade respeitada

você pode perder alguns minutos do seu dia
pode também perder seu pai, sua mãe ou os dois

pode perder até mesmo o fruto de seu ventre
só não perca a sua humanidade

este é o imperativo categórico,
a lei universal que rege nossas vidas:

que o humano não perca a sua humanidade.
pois nada justifica a perda da humanidade.
a perda da humanidade legitimou os piores vícios,
as piores traições do mundo, os piores crimes da História.
a perda da humanidade é o único pecado original,
e é também o princípio do
nosso fim.

a perda da humanidade não tampa o cinismo de sua cegueira
não sufoca o ruído agudo de sua raiva seletiva
não desculpa suas ofensas gratuitas
não oculta sua verborreia pútrida
não perdoa os espancamentos verbais e coletivos
e sim condena a sua empáfia
mastiga a sua infâmia
revela a sua vergonha
expõe a sua fratura até a cárie

o tanto que você xinga não te deixa mais belo
o tanto que você mente não te deixa mais puro
o tanto que você reage não te deixa mais esperto
:
cuidado – muito cuidado – com a sua humanidade

você pode perder um amigo ou outro
você pode perder dois amigos, cinquenta, ou cem
você pode perder até o convívio com os seres humanos
só não perca a sua humanidade

você pode perder a sanidade ou até a decência
você pode perder até o meu respeito
mas peço só uma coisa, pelo amor do Bom Deus:
só não perca a sua humanidade.

 

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Henrique Vitorino posa para o genial Luiz Rettamozo na Galeria 42. Curitiba, Paraná, meados de 2017.

Esse teimoso menino

Para o curitibano (ou quem se “curitibaneia”, como afirma Barbara Kirchner), toda saída de Curitiba é uma crise existencial, um autoexílio. Como visitante, atesto que quem chega a Curitiba encontra solo fértil para fincar raízes. Quem sai de Curitiba, por sua vez, torna-se naturalmente apátrida.  Enquanto eu sofria para reacostumar-me aos congestionamentos paulistas, meu eu-menino protestava: “Curitiba não nos poupa de saudade!” Logo surgiu a lembrança desse texto, íntimo e obscuro como um encontro na Boca Maldita.

Com vocês, o próprio:

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Henrique Vitorino no CD/DVD da Casa Amarela

No dia 20 de outubro de 2018, a partir das 15h00, acontecerá o 72º Sarau da Casa Amarela. O evento será organizado para realizar a gravação do CD e DVD do referido sarau. Além dos pocket shows de Darc Maia, Tião Baia e Henrique Vitorino, o evento contará com microfone aberto para poetas.

Gerenciada por Sueli Kimura e Akira Yamasaki, a Casa Amarela é um coletivo artístico que abriga as mais diferentes expressões artísticas: música, literatura, dança, teatro, escultura, poesia. Henrique Vitorino participa da Casa desde 2014, onde já interagiu com artistas da região: o cantor e compositor Sacha Arcanjo, o ator/diretor Luka Magalhães e o multiartista Edvaldo Santana, projetado nacionalmente.

A gravação do CD/DVD será realizada no Centro Cultural Francisco Moriconi (Rua Benjamim Constant, 682, em Suzano-SP). O evento é apoiado pela Secretaria Municipal de Cultura de Suzano.

Segue a convocação oficial da Casa Amarela:

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Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro

“Pensei que a roupa de cachorro personificaria toda a minha vocação de ser jogado para escanteio.”

Sou um memorialista por excelência. E exatamente por este fato, dias festivos provocam-me de forma particular. É assim com o Natal, a Páscoa, as viradas de ano, os Sete de Setembro. No dia das Crianças, sou levado pela mão a uma lembrança distante no tempo, mas muito próxima da memória. O mundo ainda era bom e não tinha um pingo de maldade – ou seja, escrevíamos os anos com o número um. Estávamos nos idos de 1997, 1998. Tremo ao pensar que este caso já tem mais de vinte anos.

Nessa época, eu não tinha conhecimento nenhum sobre a vida. Eu vivia entre a realidade e os devaneios de meu mundo infantil e onírico. Sim, eu sonhava. E inclusive algumas crianças chamavam-me de boca aberta, nos primeiros anos de escola: “Por que ele pensa tanto? Ele é tão avoado…” Explico. “Avoado” é um termo nordestino que indica alguém etéreo, desconcentrado, com a cabeça nas nuvens. Ser avoado, atualmente, é possuir o privilégio de a internet não ter destruído minha capacidade de imaginar – o que me garante o pão como ficcionista, inclusive. Reitero que estávamos nos anos de 1997, 1998. Toda essa balela de “globalização” era só uma utopia. Continue lendo “Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro”

Cara ao cuspe

Quando a gente escolhe amar alguém até as últimas consequências, assumimos o risco de oferecer nossos dentes ao murro.

Quando gostamos de forma verdadeira, sem máscaras de proteção ou aventais de segurança, damos nossa cara ao cuspe.

Todo amor é um risco iminente de dar errado, da pessoa perfeita falhar, de uma palavra errada ferir nossas entranhas e retirar-nos o sono. Toda entrega é uma chance de cair no abismo.
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Show “Henrique Vitorino em Curitiba!”

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(Texto por Pedro Leutmann)

Neste sábado (15), Henrique Vitorino fará o show Henrique Vitorino em Curitiba!, em única apresentação. Trazendo sucessos da Seresta, canções memoráveis da Bossa Nova e do Pop Rock, além de canções autorais e parcerias com poetas paulistanos e curitibanos, Vitorino nos convida a conhecer suas referências artísticas – seja na música, no teatro ou na literatura.

Inspirando-se no universo dos cantores da Era do Rádio, Henrique Vitorino nos guiará por uma viagem na História da Música, interpretando sucessos de várias épocas. Este multiartista de diversas facetas (cantor, poeta, violonista popular, ator, escritor, ficcionista) promete mesclar todas estas expressões de forma única.

Henrique Vitorino em Curitiba! é um show pensado “de coração para coração”, nas palavras de Vitorino. Esta intimidade afetuosa, muito própria deste garoto, com certeza conquistará a todos. Se você gosta de shows repletos de emoção, amizade e alegria, faça já sua reserva!

“Henrique Vitorino em Curitiba!”
15/09/2018, sábado, a partir das 20h30
Mestre dos Bares: Av. Paraná, 1820 – Boa Vista – Curitiba/PR
Reservas/informações: (41) 99646-3903
Couvert: R$ 15

 

O sagrado prazer da criatividade

Senti falta do ócio criativo nos últimos dias. Tive, portanto, que arrumar algum tempo livre para rabiscar versos e consertar palavras – longe do sudoku ou das torturas matemáticas, agrada-me a arte dos versos métricos. Adoro contar palavras e pensar se elas encaixam-se ou não em determinado ritmo. Como a arte da música também é constante em meu trabalho, a métrica é fundamental.

Falando em métrica, este poema foi escrito em versos hendecassílabos: ou seja, com onze sílabas. Os acentos tônicos localizam-se nas sílabas 3, 7 e 11.

Foi também interessante escrever sem pensar em rimas finais. Tenho treinado exercícios de concisão literária, seja na prosa ou na poesia (veja aqui uma de minhas últimas lições), e a ausência de rimas roubou-me a timidez. O importante foi a mensagem: o prazer artístico é o combustível que nos permite caminhar. Num domingo onde participei do Sarau da Casa Amarela, em São Miguel Paulista, este poema muito vem a calhar.

Sem mais conversas, segue o texto: Continue lendo “O sagrado prazer da criatividade”

O quase não é “só mais um detalhe”

“João foi o contraponto da tristeza de minha infância.”

Ao Rei da noite paulistana, o Roberto Luna,
que me sugeriu esta crônica após uma noite de trabalho

Nestes dias, a Escola Nacional de Teatro fez um pedido de protocolo: era necessária uma cópia de meu histórico escolar. Para encontrar tal documento, realizei verdadeira epopeia dentro de meu quarto. Foi necessário procurar, fuçar, revirar, mexericar e xeretar, além de outros sinônimos. Depois de árdua busca, encontrei o tal documento. Tendo-o em mãos, exultei, mas não por muito tempo: outros grifos me roubaram a atenção. Com bordas vermelhas, enxerguei o sussurro que vinha da caixa: Pedagogia do violão Del Vecchio. Ali estava outro documento: meu diploma de violonista assinado pelo mestre João.

É fato inconteste que tive dois mestres do violão: além de meu cunhado Rafael, o João propriamente dito. Se o primeiro deu o impulso inicial, o último aprimorou a crueza de meu talento. João foi o contraponto da tristeza de minha infância. Nossa amizade, coroada por trinta e três anos de diferença, era peculiar e curiosa. Deixei o histórico escolar de lado. Aquele caderno antigo já me havia transportado para a década passada, quando pude conviver intensamente com meu professor. Continue lendo “O quase não é “só mais um detalhe””

A paixão fatal

“Tem congestionamento até para morrer?”

Entre pensamentos, Seu José fazia casa de paisagem:

– Que coisa mais sem graça! Ó, tédio!

Não havia quem o demovesse de criticar o velório da própria esposa. Os outros parentes comentavam:

Coitado do Zé… Tão quieto! Deve estar sofrendo.

Seu sofrimento, no entanto, era ficar rodeado de parentes escandalosos e insuportáveis. Dino, um dos irmãos da mulher, era seu verdadeiro desafeto. Decidiu capitular ao vê-lo de olhos marejados: “Na morte não se odeia ninguém.” Mas ao ouvir o choro exagerado de seu adversário, foi capaz de berrar:

– Não aguento essa palhaçada!

E saiu para queimar cigarros, esperando que um milagre o salvasse do marasmo. Continue lendo “A paixão fatal”

Cigarro, cheguei!

“Quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso.”

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”, dizia Gérson, o jogador de futebol que nos trouxe o Tri de 1970. Com esta frase, Gérson revelou uma das facetas brasileiras até então desconhecida. Em essência, somos duais, duplos. Se os brasileiros são inocentes e festivos, também sabem ser perversos e cruentos; todos vivemos na corda bamba entre a hospitalidade e a intolerância. Uma frase de propaganda de cigarro tornou-se a explicação cabal do brasileiro hodierno, quiçá de todos os que existiram.

Ainda hoje, a voz de Gérson ecoa em meus ouvidos. O que nós, pessoas comuns, seríamos capazes de fazer para “levar vantagem”? O que é uma vantagem, afinal? Ora, a vantagem é um benefício, um privilégio. No futebol – o esporte praticado pelo autor da frase -, a vantagem significa não interromper o jogo por conta de uma falta insignificante, se isso for melhor para o time que sofreu a falta. É possível concluir que a vantagem é uma situação onde estamos à frente, ou em melhor condição que outrem. Deste modo, quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso. Continue lendo “Cigarro, cheguei!”

27 lições dos meus 27 anos

1. Sempre esteja de acordo com suas próprias convicções mesmo que, por vezes, você se contradiga. A contradição é o direito de quem pensa melhor.

2. Desfrute, sempre que possível, de seu anonimato.

3. Os amigos são nossa reserva de calor para os dias frios, nosso montante financeiro em tempos de crise, o colo para nossas traquinagens. Eles são tudo o que temos. Continue lendo “27 lições dos meus 27 anos”

Resenha: Kaki

Livro: Kaki
Autor: Alvaro Posselt
Editora: Blanche
Ano de lançamento: 2015
Nota: ☆☆☆☆☆

A simplicidade é o ápice da perfeição. Nenhuma teoria pode expressar, nas palavras de Drummond, a inteireza do sentimento do mundo – uma integração particular entre o artista e seu universo criativo. Sou ainda mais ousado ao dizer que a simplicidade artística é um caminho de elevação espiritual: quando a técnica assume seu lugar verdadeiro, resta a alma do artista. Continue lendo “Resenha: Kaki”

Mercúrio-cromo

“Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje.”

Para Rosinha Morais

No último 23 de junho, fui convidado para participar do lançamento dos livros “Um segredo na letra H”, do genial Mario Neves, e “Ecos do Silêncio”, de Luka Magalhães – do qual, inclusive, já fiz uma resenha no blog. Entre os lançamentos, eu conversava com a poeta Rosinha Morais sobre os diversos tombos que levamos na vida. Pelo papo, lembramos do mercúrio-cromo: aquele remedinho que colocávamos nos machucados do século passado. Logo fui abduzido pelas memórias que o tal mercúrio me causou. Pensei obsessivamente no assunto até conseguir escrever esta crônica, o que significa uma semana.

Até o ano de 2001, eu não tinha noção do que era a vida. Tampouco tinha noção de minha velhice. Mas as memórias de minha infância são vagas e desconexas. Talvez as sofridas descobertas da vida fizeram-me assim. Ou talvez a constatação precoce de que aquela vida se tornaria pó de estrelas, guardada afetuosamente em alguns de meus neurônios. Esta descoberta foi duríssima, embora verdadeira. Aos poucos, o tempo passou e não pude acompanhar o crescimento do garoto que eu era. Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje. Continue lendo “Mercúrio-cromo”

Baile com Roberto Seresteiro e Banda Eira

A única forma de vislumbrar o futuro é reencontrar o passado. E ontem (24), o SESC 24 de Maio recebeu Roberto Seresteiro e a Banda Eira. Com muita disposição e bom humor, Roberto e banda nos conduziram por diversos clássicos da Música Popular Brasileira. Continue lendo “Baile com Roberto Seresteiro e Banda Eira”

Luto: uma visão alternativa

Escrevi este texto há alguns meses. Como estou me preparando para escrever uma pequena série contra a psicofobia, inicio com este tema, que muitas vezes é considerado um tabu.

* * *

O que dói não é o soco, mas o músculo ressentido. O que realmente cansa não é o esforço físico, mas a distração da sobrecarga. O que machuca de verdade não é o tapa, mas o desentendimento que conduz à agressão humilhante.

O que dói não é a morte em si, mas o que ela acarreta. Continue lendo “Luto: uma visão alternativa”

Nome de homem

“Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino.”

Nós, mortais, sequer notamos a brevidade da inocência.

Quando me percebi, estava com dezenove anos. Havia acabado de prestar o vestibular. Todos da família estavam confiantes, inclusive os silêncios de meu pai. Uma pretensa maturidade em mim se esforçava para entendê-lo. De minha parte, não sabia o motivo de sua mudez. Lembro-me de seu carinho na infância, de sua eficácia como provedor da casa. Por que o distanciamento repentino? Talvez os primeiros fios de barba, os mesmos que apontavam o homem que seria, me afastaram dele. Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino. Desde então, meu pai ficou cada vez mais monossilábico. Passou a não interessar-se pelas minhas conversas, a não acompanhar-me no almoço, a ironizar meus gostos pessoais. Chegou o dia em que não mais nos abraçamos: ele disse que minha barba arranhava seu rosto. Desde então, me obriguei a ressignificar sua ausência. Eu, agora, devia ser um homem. Meu pai não sabia que me tornei o guardião dos meus próprios sonhos. Continue lendo “Nome de homem”