Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro

“Pensei que a roupa de cachorro personificaria toda a minha vocação de ser jogado para escanteio.”

Sou um memorialista por excelência. E exatamente por este fato, dias festivos provocam-me de forma particular. É assim com o Natal, a Páscoa, as viradas de ano, os Sete de Setembro. No dia das Crianças, sou levado pela mão a uma lembrança distante no tempo, mas muito próxima da memória. O mundo ainda era bom e não tinha um pingo de maldade – ou seja, escrevíamos os anos com o número um. Estávamos nos idos de 1997, 1998. Tremo ao pensar que este caso já tem mais de vinte anos.

Nessa época, eu não tinha conhecimento nenhum sobre a vida. Eu vivia entre a realidade e os devaneios de meu mundo infantil e onírico. Sim, eu sonhava. E inclusive algumas crianças chamavam-me de boca aberta, nos primeiros anos de escola: “Por que ele pensa tanto? Ele é tão avoado…” Explico. “Avoado” é um termo nordestino que indica alguém etéreo, desconcentrado, com a cabeça nas nuvens. Ser avoado, atualmente, é possuir o privilégio de a internet não ter destruído minha capacidade de imaginar – o que me garante o pão como ficcionista, inclusive. Reitero que estávamos nos anos de 1997, 1998. Toda essa balela de “globalização” era só uma utopia. Continue lendo “Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro”

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Cara ao cuspe

Quando a gente escolhe amar alguém até as últimas consequências, assumimos o risco de oferecer nossos dentes ao murro.

Quando gostamos de forma verdadeira, sem máscaras de proteção ou aventais de segurança, damos nossa cara ao cuspe.

Todo amor é um risco iminente de dar errado, da pessoa perfeita falhar, de uma palavra errada ferir nossas entranhas e retirar-nos o sono. Toda entrega é uma chance de cair no abismo.
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O quase não é “só mais um detalhe”

“João foi o contraponto da tristeza de minha infância.”

Ao Rei da noite paulistana, o Roberto Luna,
que me sugeriu esta crônica após uma noite de trabalho

Nestes dias, a Escola Nacional de Teatro fez um pedido de protocolo: era necessária uma cópia de meu histórico escolar. Para encontrar tal documento, realizei verdadeira epopeia dentro de meu quarto. Foi necessário procurar, fuçar, revirar, mexericar e xeretar, além de outros sinônimos. Depois de árdua busca, encontrei o tal documento. Tendo-o em mãos, exultei, mas não por muito tempo: outros grifos me roubaram a atenção. Com bordas vermelhas, enxerguei o sussurro que vinha da caixa: Pedagogia do violão Del Vecchio. Ali estava outro documento: meu diploma de violonista assinado pelo mestre João.

É fato inconteste que tive dois mestres do violão: além de meu cunhado Rafael, o João propriamente dito. Se o primeiro deu o impulso inicial, o último aprimorou a crueza de meu talento. João foi o contraponto da tristeza de minha infância. Nossa amizade, coroada por trinta e três anos de diferença, era peculiar e curiosa. Deixei o histórico escolar de lado. Aquele caderno antigo já me havia transportado para a década passada, quando pude conviver intensamente com meu professor. Continue lendo “O quase não é “só mais um detalhe””

A paixão fatal

“Tem congestionamento até para morrer?”

Entre pensamentos, Seu José fazia casa de paisagem:

– Que coisa mais sem graça! Ó, tédio!

Não havia quem o demovesse de criticar o velório da própria esposa. Os outros parentes comentavam:

Coitado do Zé… Tão quieto! Deve estar sofrendo.

Seu sofrimento, no entanto, era ficar rodeado de parentes escandalosos e insuportáveis. Dino, um dos irmãos da mulher, era seu verdadeiro desafeto. Decidiu capitular ao vê-lo de olhos marejados: “Na morte não se odeia ninguém.” Mas ao ouvir o choro exagerado de seu adversário, foi capaz de berrar:

– Não aguento essa palhaçada!

E saiu para queimar cigarros, esperando que um milagre o salvasse do marasmo. Continue lendo “A paixão fatal”

Cigarro, cheguei!

“Quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso.”

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”, dizia Gérson, o jogador de futebol que nos trouxe o Tri de 1970. Com esta frase, Gérson revelou uma das facetas brasileiras até então desconhecida. Em essência, somos duais, duplos. Se os brasileiros são inocentes e festivos, também sabem ser perversos e cruentos; todos vivemos na corda bamba entre a hospitalidade e a intolerância. Uma frase de propaganda de cigarro tornou-se a explicação cabal do brasileiro hodierno, quiçá de todos os que existiram.

Ainda hoje, a voz de Gérson ecoa em meus ouvidos. O que nós, pessoas comuns, seríamos capazes de fazer para “levar vantagem”? O que é uma vantagem, afinal? Ora, a vantagem é um benefício, um privilégio. No futebol – o esporte praticado pelo autor da frase -, a vantagem significa não interromper o jogo por conta de uma falta insignificante, se isso for melhor para o time que sofreu a falta. É possível concluir que a vantagem é uma situação onde estamos à frente, ou em melhor condição que outrem. Deste modo, quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso. Continue lendo “Cigarro, cheguei!”

27 lições dos meus 27 anos

1. Sempre esteja de acordo com suas próprias convicções mesmo que, por vezes, você se contradiga. A contradição é o direito de quem pensa melhor.

2. Desfrute, sempre que possível, de seu anonimato.

3. Os amigos são nossa reserva de calor para os dias frios, nosso montante financeiro em tempos de crise, o colo para nossas traquinagens. Eles são tudo o que temos. Continue lendo “27 lições dos meus 27 anos”

Resenha: Kaki

Livro: Kaki
Autor: Alvaro Posselt
Editora: Blanche
Ano de lançamento: 2015
Nota: ☆☆☆☆☆

A simplicidade é o ápice da perfeição. Nenhuma teoria pode expressar, nas palavras de Drummond, a inteireza do sentimento do mundo – uma integração particular entre o artista e seu universo criativo. Sou ainda mais ousado ao dizer que a simplicidade artística é um caminho de elevação espiritual: quando a técnica assume seu lugar verdadeiro, resta a alma do artista. Continue lendo “Resenha: Kaki”

Mercúrio-cromo

“Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje.”

Para Rosinha Morais

No último 23 de junho, fui convidado para participar do lançamento dos livros “Um segredo na letra H”, do genial Mario Neves, e “Ecos do Silêncio”, de Luka Magalhães – do qual, inclusive, já fiz uma resenha no blog. Entre os lançamentos, eu conversava com a poeta Rosinha Morais sobre os diversos tombos que levamos na vida. Pelo papo, lembramos do mercúrio-cromo: aquele remedinho que colocávamos nos machucados do século passado. Logo fui abduzido pelas memórias que o tal mercúrio me causou. Pensei obsessivamente no assunto até conseguir escrever esta crônica, o que significa uma semana.

Até o ano de 2001, eu não tinha noção do que era a vida. Tampouco tinha noção de minha velhice. Mas as memórias de minha infância são vagas e desconexas. Talvez as sofridas descobertas da vida fizeram-me assim. Ou talvez a constatação precoce de que aquela vida se tornaria pó de estrelas, guardada afetuosamente em alguns de meus neurônios. Esta descoberta foi duríssima, embora verdadeira. Aos poucos, o tempo passou e não pude acompanhar o crescimento do garoto que eu era. Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje. Continue lendo “Mercúrio-cromo”

Luto: uma visão alternativa

Escrevi este texto há alguns meses. Como estou me preparando para escrever uma pequena série contra a psicofobia, inicio com este tema, que muitas vezes é considerado um tabu.

* * *

O que dói não é o soco, mas o músculo ressentido. O que realmente cansa não é o esforço físico, mas a distração da sobrecarga. O que machuca de verdade não é o tapa, mas o desentendimento que conduz à agressão humilhante.

O que dói não é a morte em si, mas o que ela acarreta. Continue lendo “Luto: uma visão alternativa”

Nome de homem

“Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino.”

Nós, mortais, sequer notamos a brevidade da inocência.

Quando me percebi, estava com dezenove anos. Havia acabado de prestar o vestibular. Todos da família estavam confiantes, inclusive os silêncios de meu pai. Uma pretensa maturidade em mim se esforçava para entendê-lo. De minha parte, não sabia o motivo de sua mudez. Lembro-me de seu carinho na infância, de sua eficácia como provedor da casa. Por que o distanciamento repentino? Talvez os primeiros fios de barba, os mesmos que apontavam o homem que seria, me afastaram dele. Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino. Desde então, meu pai ficou cada vez mais monossilábico. Passou a não interessar-se pelas minhas conversas, a não acompanhar-me no almoço, a ironizar meus gostos pessoais. Chegou o dia em que não mais nos abraçamos: ele disse que minha barba arranhava seu rosto. Desde então, me obriguei a ressignificar sua ausência. Eu, agora, devia ser um homem. Meu pai não sabia que me tornei o guardião dos meus próprios sonhos. Continue lendo “Nome de homem”

Nunca fui santinho

“Se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.”

Ao Carlos, meu professor de teatro

Embora não pareça, sempre flertei com o caótico da vida. Trocando em miúdos: eu adorava ver o circo pegar fogo. Não à toa, eu assistia freneticamente as fitas VHS do Rally Havoc, onde carros e motos voavam das formas mais perigosas possíveis. Meu eu criança também adorava o famoso programa “A ponte do rio que cai”, uma versão brasileira do americano Wipeout. Eu morria de rir com os tombos, quedas e cambalhotas dos participantes. No fundo, se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.

Na minha infância e primeira velhice, eu tinha tempo de sobra para pensar. Não havia o que “fazer”. Depois dos estudos, eu ia ao terreno que havia atrás de casa, ou ao lado – os terrenos baldios ainda eram abertos – para pesquisar e criar pensamentos. Além de minhas invenções, eu não era uma criança ocupada (e as crianças ocupadas de hoje me causam pânico.) Meu único trabalho era ler e criar. Continue lendo “Nunca fui santinho”

Questão de criatividade

“Um dia eu serei como Rimbaud!”

Artur sonhava com as glórias de um grande escritor. Seu desejo, porém, não era apenas vender livros best-seller. Ele desejava inscrever seu nome na história da Literatura. Sua juventude o fazia sonhar alto. Em seus devaneios, pensava:

– Um dia eu serei como Rimbaud!

Ao mesmo tempo em que sonhava com a glória, Artur padecia de um enorme bloqueio criativo. Fazia semanas que ele não escrevia. Quando o fazia, tinha a sensação que seu texto estava péssimo. Certo dia, louco de tédio, visitou uma exposição de pintura. Acabou conhecendo Lúcia e Donaldo, o casal de curadores responsáveis pela exposição. No meio da primeira conversa, Artur disparou:

– Vocês poderiam ajudar um escritor? Eu, no caso? Faz tempo que sofro de bloqueio criativo e não consigo escrever nada. Continue lendo “Questão de criatividade”

Entre os dedos da eternidade

“Se todos nós soubéssemos nossa data de partida, tal detalhe seria suficiente para entrarmos em histeria coletiva.”

Na minha primeira velhice (ou o que chamam infância), a morte era um dos meus temas preferidos para pesadelos. Morria de medo ao pensar em deixar de existir. Se a minha morte me causava horror, a morte dos outros era ainda mais estranha. Felizmente, fui poupado de tais acontecimentos. Na minha infância, lembro da morte de poucas e raras pessoas. Esta velhice pode ter sido triste, mas ainda não era povoada por fantasmas conhecidos. Continue lendo “Entre os dedos da eternidade”

Resenha: Ecos do Silêncio

Livro: Ecos do Silêncio
Autor: Luka Magalhães
Editora: Casa Amarela Edições
Ano de lançamento: 2018
Nota: ☆☆☆☆

Em certa ocasião, ele entregou-me um livro. Apenas. Citando o místico católico Afonso Ratisbonne (1814-1884), ele nada me disse, mas tudo entendi. Foi com este jogo silencioso que ele, o Luka, me convidou para apreciar “Ecos do Silêncio”, sua primeira obra. Continue lendo “Resenha: Ecos do Silêncio”

Cidade pequena

“Nós do interior somo mió que os da cidade!”

Os moradores do vilarejo diziam que tudo estava em seu devido lugar. Para eles, não havia necessidade de mexericos ou querelas. Cada um estava ocupado em lutar pela sua sobrevivência. Esse era o mesmo pretexto para se considerar superiores à cidade grande, inclusive. Ufanos, batiam no peito:

– Nós do interior somo mió que os da cidade!

Todo cidadão tinha um papel definido naquela pequena aldeia. Havia o padre, com fama de santo. Havia o delegado que se ocupava em vexar os garotos que roubavam frutas. Havia os aldeões simples, matutos e desconfiados. E havia o velho Petrônio, o louco da vila.

Poucos, na verdade, ousavam-lhe trocar cumprimentos. Petrônio não era dado a converseiros. Sua aparência física contrastava com a daquela população. Olheiras bem definidas, silencioso, sorumbático: seu corpo quase não conheceu lâmina. Cortava o cabelo apenas quando lembrava. Diziam que o velho Petrônio não dormia. Apenas se enfeitava em meados de agosto, nas festividades da colheita da moranga cabotiá.

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Um bombom salvou minha vida

Meu amigo é literalmente inquebrantável. Ele finge que não sabe.

Em outro texto, eu falava sobre as bem-aventuranças de um caxias. E dentre os meus amigos que possuem essa qualidade, não deixo de incluir o Toninho. Olhos firmes, sorriso tímido, espinha ereta: meu amigo possui a honestidade digna dos grandes caracteres. Ele, no entanto, finge que não sabe. Prefere pensar-se qual Pedro Pedreiro, cantado por Chico Buarque.

Desde que nos tornamos amigos, ele nunca mudou seu jeito de ser. Manteve o jeitão sossegado de outrora com fidelidade absolutíssima. Eu pensava: – “Ele é assim tão calmo?” Felizmente, percebi que sim. Sua paciência pode impressionar até um lama tibetano. Ele é literalmente inquebrantável – para um artista, como eu, inquebrantável até demais. Mas também esta diferença é facilmente equalizada entre nós.

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Tempo: o melhor casulo

“Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios.”

No dia de descanso, ao acordar de uma soneca, lembrei-me da criança triste e esforçada que eu era. Revisitei cada drama vivido na transição para a adolescência, ou segunda velhice, onde não sabia quem eu era ou o que faria no mundo. Foram tempos mágicos, mas igualmente sofridos. A inconstância típica de um ser em construção marcou-me profundamente. Hoje, mais calmo e indiferente a certas coisas, ainda me comovo quando vejo alguém se perguntando: – “Mas o que faço da vida, meu Deus?”

Minha segunda velhice tinha uma característica própria: o anseio de atrair carinho e atenção dos mais velhos. Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios. Aprendi a entender a mudez dos gestos e ler palavras entrecortadas. Competia comigo mesmo em busca de um ombro amigo. Não sabia se deveria encarnar o ser “maluco” que se plasmava em mim, ou se utilizaria a máscara que definiria minha vida, como numa peça da Commedia Dell’Arte. Meu espírito se curvava a um regime de meritocracia emocional. Continue lendo “Tempo: o melhor casulo”

Até os parquinhos apodrecem

“Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas.”

Muitas das inspirações deste blog surgem das minhas viagens de ônibus pela cidade. Nelas, não tenho vergonha de ser nostálgico. Sinto como se o clipe de minha vida passasse diante de meus olhos. Numa das reminiscências, fui transportado ao ano de 2003, talvez 2002. Devia ter entre dez a onze anos. Se minhas memórias da infância são sempre desconexas, as memórias do meu eu velhinho sempre estão intactas.

Como qualquer velho que se preze, eu era uma criança triste e pungente. Sentia desde o berço, como Augusto dos Anjos, minha vocação para a pungência. A pungência é, inclusive, a qualidade-mor dos nostálgicos e dos observadores. Quando entendi (depois de adulto) o conceito japonês de wabi-sabi, acalmei-me. Wabi-sabi é algo que gosto de traduzir como “a estética do efêmero.” Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas. Continue lendo “Até os parquinhos apodrecem”

Drops: Carlos Drummond de Andrade

“O poeta da pedra no caminho me punha pedras no sapato.”

Drummond é um dos grandes poetas brasileiros que não deixa de pôr pedras em meu sapato. Seus poemas sempre me foram pungentes. Não à toa, carrego no peito uma grande estima pelo Itabirano.

Quem sou eu para falar de Drummond? Deixarei que ele fale por si mesmo, por seus poemas. Inclusive, a ideia do Drops é não trazer dados biográficos. Traremos apenas os poetas e suas mensagens. Que as palavras de Drummond continuem reverberando em nossos corações, assim como o meu coração tremeu ao ouvi-lo ainda na minha primeira velhice.

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Uma vida crepuscular

“Quem olha nos olhos de seus fantasmas nunca mais é o mesmo.”

Naquela Mauá de lembranças ternas e antiquíssimas, algo particular me ronda a mente. Nestes momentos, é incrível perceber como algo tão distante pode materializar-se em meus pensamentos: o crepúsculo. Como poderei definir a sensação mágica de uma criança ao assistir quase diariamente aos mais belos crepúsculos de sua vida?

Em minhas imaginatividades, creio que o crepúsculo é o momento onde o tempo entra em suspensão. A mágica ilumina o ambiente. Quem para para assistir pode tocar esta atmosfera etérea. Eu, particularmente, fui criado em um lugar alto. Nas palavras de Herivelto Martins, esse detalhe me deixava “mais pertinho do céu”. Nas costas da casa, o sol se punha. À frente vinha o clarão de seu nascimento. Ao ler a Odisseia de Homero, aprendi que a deusa Aurora vinha pessoalmente em sua carruagem para acordar o Sol. Sem querer, passei a desejar-me encontrar com ela, mesmo que por um segundo.

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Tenho a maior vergonha de odiar

“…a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.”

Como me sinto velho, não confio em minhas próprias sensações. Não sei se esta impressão é apenas minha. Mas creio que nós vivemos em verdadeira época de fúria. Quando ouço Nelson Rodrigues dizer que os anos 60 eram furiosos, sinto-me levemente indignado. É claro que haviam fúrias sessentistas. Mas a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.

Não é novidade repetir que vivemos numa época de crise geral. Praticamente todos os setores pastam em campos críticos: a religião, a política, a economia, até o futebol. Transformaram o templo da arte popular em vendilhão. Eles, os donos da bola, dominaram os estádios com suas propagandas. Nem as camisas dos jogadores se salvaram. Vez ou outra, alguns torcedores dos times grandes esbravejam nas redes sociais: “Fomos roubados.” Outros dizem até haver um esquema de benefícios entre times. Nada afirmo. Apenas constato o que se diz por aí. Talvez o Brasil ainda esteja no aprendizado existencial, por isso os tropeções em tantas coisas simples.

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Santo André, um tutorial

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“Alguma coisa acontece quando ando a pé / Pelas avenidas do centro de ti, Santo André”

o futuro já começou quando encontro Santo André, é incrível como minha sintonia com a cidade não se perde, aos poucos me vejo dentro de seus cruzamentos e faróis, é verdade que tudo isto tem um alto preço para o ambiente, sou fruto desta paranoia urbana, mas tudo também tem suas alegrias. o céu estava cinza e é assim que gosto de ver a minha terra da garoa particular, que é mãe da garoa de são paulo

pra quem não conhece esta é a avenida edson danillo dotto, mas qualquer andreense chama de avenida perimetral, o primeiro e eterno nome

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Os santos também traem (Ato III)

“Quem viu o carnaval de Antônio deve assistir sua retratação.”

IV – “Esse Santo Antônio me paga!”

Para que o encontro não terminasse ainda mais funesto, Pedro e Joana juraram acalmar os ânimos de Graça. Foram correndo atrás da mãe combalida. Os músicos de Antônio faziam cara de paisagem. Os convidados, por sua vez, faziam cochichos mordazes. No banner, o rosto de Jorge reinava silencioso e absoluto.

Com muito suor, os dois filhos imploravam a atenção da mulher: – “Abre, mãe, abre a porta!” Ao deixar-se ver, a viúva estava em choque. Disse que jamais esperava tal atitude por parte de um filho. Os dois irmãos juraram que a situação seria resolvida ainda no mesmo dia: – “Quem viu o carnaval de Antônio deve assistir sua retratação.” Após o argumento filial, Graça conteve as lágrimas. Pediu que os filhos saíssem, pois queria pôr os sentimentos em ordem.

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Os santos também traem (Ato II)

“[…] passou a comportar-se como quando no quartel.”

II – A guerra que a Guerra causou

Apesar dos conflitos e de certa submissão de Graça, o casal permanecia firme. Ninguém ousava plantar dúvidas no sentimento entre os dois. Ambos batiam no peito quando diziam superar juntos os problemas individuais. Sua família servia como prova de autenticidade. Aos poucos, Jorge e Graça ganharam netos e bisnetos. A semente havia frutificado. Continue lendo “Os santos também traem (Ato II)”

Os santos também traem (Ato I)

“Se fosse necessário, ela morreria pura como nasceu. […] Ela orgulhava-se de sua fidelidade incorruptível.”

I – Os velhinhos amavam-se mais que tudo

Jorge era paranaense dos Campos Gerais. Maria da Graça vinha do Nordeste. Ambos encontraram-se em São Paulo, no tempo em que as mulheres eram recatadas e os homens ainda cumprimentavam com os chapéus abanando. Eram os anos trinta. Paixão à primeira vista, claro, mas sem agravos. Ela viera a estudo; ele preparava-se para guerrear no estrangeiro. Casaram-se neste interlúdio.

Ele só contou a Graça que era soldado quando estavam bem apaixonadinhos. Ela tremeu-se toda, disse que não era justo. Mas optou por ficar com ele. Passou a incomodar-se com os italianos berrantões do Bixiga, como se a guerra acontecesse por culpa deles. Alguns disseram que ela fazia até o sinal-da-cruz ao passar por lá. Continue lendo “Os santos também traem (Ato I)”

Quem é burro é mais feliz?

“Existe hoje uma miríade de seres iluminados…”

“Ó feliz culpa, que mereceu tão grande Redentor!” Com esta frase do Exultet de Páscoa, Tomás de Aquino exalta a existência do pecado original. É engraçado pensar num monge fazendo apologia ao pecado. Este gracejo, porém, não foi gratuito. Herdando do platonismo o puro desprezo à matéria, a tradição católica não poderia abandonar esta contradição entre Luz e Trevas, Bem e Mal, Deus e o Homem – assim mesmo, em maiúsculas. O conhecimento teológico guardado pelos monges era divino; a ignorância, reservada ao povo simples e analfabeto, era diabólica. O estado de beatitude (ou seja, conhecer a presença de Deus) só era permitido aos santos e iluminados. “O que vem além disso”, citando o apóstolo Paulo, “é do maligno”.

Encontramos um fato concreto neste conceito. A luz é o que permite o conhecimento. Mas surgem perguntas cabais: quem possui o acesso ao conhecimento? É possível fazer juízos de valor sobre a luz ou a treva de um indivíduo? E a mais importante: quem pode considerar-se iluminado? Visto o fenômeno atual dos “grandes iluminados”, gastei uma parte do meu dia para dissecar a questão.

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Diplomados em idiotice

“Sabia que quem chama o irmão de idiota vai para o inferno?”

Ao lembrar-me da infância, sinto um saudoso nó na garganta. Tenho muitas lembranças daquela Mauá onde apenas os livros eram meus fiéis companheiros. Em tenra idade, eu vivia minhas fantasias num bairro cheio de nomes de escritores: Tomás Antonio Gonzaga, Raul de Leoni, Inglês de Souza. O patrono de minha rua era o maranhense Raimundo Corrêa. Não havia ambiente melhor para educar minha alma pueril, já tão artista.

Sem que eu soubesse, minha meninice foi toda plenilúnio, exceto pelo fato de eu ser considerado um garoto-prodígio. Nunca tive paz. Entre louvores e elogios, eu tentava subsistir como uma criança normal. Recusava a superioridade que os outros me conferiam: saber de tudo aquilo era normal. Mas meu vocabulário destoava completamente de meu tamanho. Lembro-me de um caso curioso que aconteceu por volta dos meus seis anos.

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O Brasil não precisa de heróis, mas de cidadãos

“Barry Manilow tornou-se tão humano quanto uma banda punk de garagem.”

“Violão não é para mim!” Toninho confessou sua indecisão entre dois copos de chopp: o dele e o meu. Estamos à mesa, no ofício da psicanálise de boteco. Seus olhos vacilam. O gole alivia a garganta seca. Mais um gole ajuda a dar serventia às mãos indecisas. Depois da afirmação grave, calou-se.

A frase doeu fundo. Violão não é para mim, disse o amigo. Sabendo que trabalho com música, a frase soa como acinte. Se não é para alguém, o violão é para ninguém. Se é para ninguém, o violão também não é para mim. Mexo as sobrancelhas de propósito. Ele pretende suar frio, mas solta um riso tímido. Continuo repetindo em minha memória: violão não é para mim. Nos encaramos num silêncio largo.

Se o violão não é para o nosso amigo, para quem seria? O violão pertenceria somente aos artistas iluminados, como Francisco Tárrega, Agustín Barrios, Andrés Segovia? Quem poderia apropriar-se de um violão, a não ser alguém dotado de técnica sobrenatural? Quem poderia intitular-se bom violeiro, além da criatura que deixaria os anjos harpistas morrendo de inveja? Continue lendo “O Brasil não precisa de heróis, mas de cidadãos”

O maracujá (ou “A garota mais feia da paróquia”)

“Não suportava tamanha exposição de minha pequenez.

Sou um ser nostálgico por excelência. Creio que não consigo deixar de lembrar do passado nem debaixo d’água. Por isso mesmo, vieram à tona meus poemas de juventude – junto com o personagem que os escrevia, claro. Pelo fato de ter encontrado hoje um poema escrito há doze anos, esse antigo fantasma me fez cócegas nos pés. E para falar de meus poemas e do eu que me habitava, preciso falar sobre o ambiente em que estava metido.

Antes de escrever, eu lia e muito. Li autores dos mais variados, os mais e menos célebres. Graças à Elizangela, minha sempre venerada professora de Português, pude ter vasto conhecimento sobre a poesia brasileira. Mas peguei o péssimo hábito de comparar meus textos com os dos mestres. Não por influência dela, claro. O desejo de ser notado e aclamado era unicamente meu.

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Sou velho demais pra ler textão

“Enquanto eu não vir um jovem que seja como eu fui, não acredito em nada.”

Nunca aprendi a lidar com minha necessidade de expressão. Só aprendi a me expressar melhor, inclusive, depois de um ano em terapia. Às vezes, a expressão ainda é algo embaraçoso para mim. Isso me faz incompreender os jovens do século XXI. Existe certo distanciamento entre mim e minha geração, mas não é voluntário de minha parte, ou da deles. Eu fui um velho desde criança.

Várias pessoas já me condenaram ao ouvir esta máxima, e eu repito sem nenhum pudor: fui um velho desde pequeno. Lembro-me de fazer uma lição de casa em 1997, condenando a violenta morte do memorável índio Galdino. Eu tinha seis anos de idade. Que criança de seis anos se importaria com um assassinato dessa magnitude, de tamanha crueldade? Mas lá estava eu, denunciando o crime em texto e desenhos – do nível de uma criança de seis anos. Fui parar em exposição e tudo. Nunca me considerei um gênio. Somente me considero mais velho do que sou. O duro era (e ainda é) aguentar as pessoas invertendo os fatores. Continue lendo “Sou velho demais pra ler textão”