Perguntas sem respostas

De que vale todo o afeto espalhado em carinhos?
De que vale tudo isso que se acredita sentir,
que se acredita existir como o que nos dá vida?
De que vale aquilo que acredito?
Como entender o que não se pode ver?
É possível viver para amar até a consumição total?
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O quase não é “só mais um detalhe”

“João foi o contraponto da tristeza de minha infância.”

Ao Rei da noite paulistana, o Roberto Luna,
que me sugeriu esta crônica após uma noite de trabalho

Nestes dias, a Escola Nacional de Teatro fez um pedido de protocolo: era necessária uma cópia de meu histórico escolar. Para encontrar tal documento, realizei verdadeira epopeia dentro de meu quarto. Foi necessário procurar, fuçar, revirar, mexericar e xeretar, além de outros sinônimos. Depois de árdua busca, encontrei o tal documento. Tendo-o em mãos, exultei, mas não por muito tempo: outros grifos me roubaram a atenção. Com bordas vermelhas, enxerguei o sussurro que vinha da caixa: Pedagogia do violão Del Vecchio. Ali estava outro documento: meu diploma de violonista assinado pelo mestre João.

É fato inconteste que tive dois mestres do violão: além de meu cunhado Rafael, o João propriamente dito. Se o primeiro deu o impulso inicial, o último aprimorou a crueza de meu talento. João foi o contraponto da tristeza de minha infância. Nossa amizade, coroada por trinta e três anos de diferença, era peculiar e curiosa. Deixei o histórico escolar de lado. Aquele caderno antigo já me havia transportado para a década passada, quando pude conviver intensamente com meu professor. Continue lendo “O quase não é “só mais um detalhe””

O Maridinho e a Mulherzinha

Por Luis Fernando Veríssimo

Todos conhecem o Maridinho. Sempre bem arrumado. E perfumado. Quando tem alguém novo no grupo, o Maridinho se apresenta com uma pergunta:

– Como é que a sua esposa lhe chama?
– “Ei, você!” “Ó peste.” Às vezes até pelo nome…

Os outros dão risada mas o Maridinho fica sério. Espera até que o barulho acabe e então continua:

– A minha mulher me chama de Maridinho.

Os outros fazem força para não rir. O novo no grupo pergunta:

– Maridinho?
– Ela me adora – diz o Maridinho, faceiro. – Agora mesmo ela me vestiu, me penteou e me deixou sair para dar uma volta.
– É a sua mulher que veste você?
– É. Depois de me dar banho.
– E deixou você sair para dar uma volta…
– E ai que não deixasse. Ai que não deixasse! Continue lendo “O Maridinho e a Mulherzinha”

Aos ainda-humanos

Os tempos estão difíceis, todos sabemos, mas isto não é motivo para deixar de crer. Apesar da onda acéfala que se instala e cria raízes na humanidade, ainda existem valores como afeto, gratidão, generosidade, amor ao próximo, honestidade e carinho – e não somente entre os animais. Que este poema nos provoque a ser melhores para nós mesmos, para os outros e o ambiente que nos circunda.

Que não sejamos humanos apenas na aparência, mas principalmente no caráter.

escute uma coisa:
você pode perder tudo nesse mundo
você pode perder a fé em qualquer coisa que seja
você pode perder as ilusões ou até mesmo a esperança
só não perca a sua humanidade

você pode perder dinheiro
você pode perder uma gorda e bela chance
você pode perder o pouquinho que faltava
só não perca a sua humanidade

se você perder a paciência, ou perder o jogo
se você perder as estribeiras, ou perder a razão
se você perder aquilo que sempre quis
ou o que demorou tanto para conquistar
não perca o que lhe faz aguentar a barra
e ter sua dignidade respeitada

você pode perder alguns minutos do seu dia
pode também perder seu pai, sua mãe ou os dois

pode perder até mesmo o fruto de seu ventre
só não perca a sua humanidade

este é o imperativo categórico,
a lei universal que rege nossas vidas:

que o humano não perca a sua humanidade.
pois nada justifica a perda da humanidade.
a perda da humanidade legitimou os piores vícios,
as piores traições do mundo, os piores crimes da História.
a perda da humanidade é o único pecado original,
e é também o princípio do
nosso fim.

a perda da humanidade não tampa o cinismo de sua cegueira
não sufoca o ruído agudo de sua raiva seletiva
não desculpa suas ofensas gratuitas
não oculta sua verborreia pútrida
não perdoa os espancamentos verbais e coletivos
e sim condena a sua empáfia
mastiga a sua infâmia
revela a sua vergonha
expõe a sua fratura até a cárie

o tanto que você xinga não te deixa mais belo
o tanto que você mente não te deixa mais puro
o tanto que você reage não te deixa mais esperto
:
cuidado – muito cuidado – com a sua humanidade

você pode perder um amigo ou outro
você pode perder dois amigos, cinquenta, ou cem
você pode perder até o convívio com os seres humanos
só não perca a sua humanidade

você pode perder a sanidade ou até a decência
você pode perder até o meu respeito
mas peço só uma coisa, pelo amor do Bom Deus:
só não perca a sua humanidade.

 

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Henrique Vitorino posa para o genial Luiz Rettamozo na Galeria 42. Curitiba, Paraná, meados de 2017.

Esse teimoso menino

Para o curitibano (ou quem se “curitibaneia”, como afirma Barbara Kirchner), toda saída de Curitiba é uma crise existencial, um autoexílio. Como visitante, atesto que quem chega a Curitiba encontra solo fértil para fincar raízes. Quem sai de Curitiba, por sua vez, torna-se naturalmente apátrida.  Enquanto eu sofria para reacostumar-me aos congestionamentos paulistas, meu eu-menino protestava: “Curitiba não nos poupa de saudade!” Logo surgiu a lembrança desse texto, íntimo e obscuro como um encontro na Boca Maldita.

Com vocês, o próprio:

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Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro

“Pensei que a roupa de cachorro personificaria toda a minha vocação de ser jogado para escanteio.”

Sou um memorialista por excelência. E exatamente por este fato, dias festivos provocam-me de forma particular. É assim com o Natal, a Páscoa, as viradas de ano, os Sete de Setembro. No dia das Crianças, sou levado pela mão a uma lembrança distante no tempo, mas muito próxima da memória. O mundo ainda era bom e não tinha um pingo de maldade – ou seja, escrevíamos os anos com o número um. Estávamos nos idos de 1997, 1998. Tremo ao pensar que este caso já tem mais de vinte anos.

Nessa época, eu não tinha conhecimento nenhum sobre a vida. Eu vivia entre a realidade e os devaneios de meu mundo infantil e onírico. Sim, eu sonhava. E inclusive algumas crianças chamavam-me de boca aberta, nos primeiros anos de escola: “Por que ele pensa tanto? Ele é tão avoado…” Explico. “Avoado” é um termo nordestino que indica alguém etéreo, desconcentrado, com a cabeça nas nuvens. Ser avoado, atualmente, é possuir o privilégio de a internet não ter destruído minha capacidade de imaginar – o que me garante o pão como ficcionista, inclusive. Reitero que estávamos nos anos de 1997, 1998. Toda essa balela de “globalização” era só uma utopia. Continue lendo “Na minha infância, eu fiquei na casinha do cachorro”

Cara ao cuspe

Quando a gente escolhe amar alguém até as últimas consequências, assumimos o risco de oferecer nossos dentes ao murro.

Quando gostamos de forma verdadeira, sem máscaras de proteção ou aventais de segurança, damos nossa cara ao cuspe.

Todo amor é um risco iminente de dar errado, da pessoa perfeita falhar, de uma palavra errada ferir nossas entranhas e retirar-nos o sono. Toda entrega é uma chance de cair no abismo.
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O quase não é “só mais um detalhe”

“João foi o contraponto da tristeza de minha infância.”

Ao Rei da noite paulistana, o Roberto Luna,
que me sugeriu esta crônica após uma noite de trabalho

Nestes dias, a Escola Nacional de Teatro fez um pedido de protocolo: era necessária uma cópia de meu histórico escolar. Para encontrar tal documento, realizei verdadeira epopeia dentro de meu quarto. Foi necessário procurar, fuçar, revirar, mexericar e xeretar, além de outros sinônimos. Depois de árdua busca, encontrei o tal documento. Tendo-o em mãos, exultei, mas não por muito tempo: outros grifos me roubaram a atenção. Com bordas vermelhas, enxerguei o sussurro que vinha da caixa: Pedagogia do violão Del Vecchio. Ali estava outro documento: meu diploma de violonista assinado pelo mestre João.

É fato inconteste que tive dois mestres do violão: além de meu cunhado Rafael, o João propriamente dito. Se o primeiro deu o impulso inicial, o último aprimorou a crueza de meu talento. João foi o contraponto da tristeza de minha infância. Nossa amizade, coroada por trinta e três anos de diferença, era peculiar e curiosa. Deixei o histórico escolar de lado. Aquele caderno antigo já me havia transportado para a década passada, quando pude conviver intensamente com meu professor. Continue lendo “O quase não é “só mais um detalhe””

A paixão fatal

“Tem congestionamento até para morrer?”

Entre pensamentos, Seu José fazia casa de paisagem:

– Que coisa mais sem graça! Ó, tédio!

Não havia quem o demovesse de criticar o velório da própria esposa. Os outros parentes comentavam:

Coitado do Zé… Tão quieto! Deve estar sofrendo.

Seu sofrimento, no entanto, era ficar rodeado de parentes escandalosos e insuportáveis. Dino, um dos irmãos da mulher, era seu verdadeiro desafeto. Decidiu capitular ao vê-lo de olhos marejados: “Na morte não se odeia ninguém.” Mas ao ouvir o choro exagerado de seu adversário, foi capaz de berrar:

– Não aguento essa palhaçada!

E saiu para queimar cigarros, esperando que um milagre o salvasse do marasmo. Continue lendo “A paixão fatal”

Cigarro, cheguei!

“Quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso.”

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”, dizia Gérson, o jogador de futebol que nos trouxe o Tri de 1970. Com esta frase, Gérson revelou uma das facetas brasileiras até então desconhecida. Em essência, somos duais, duplos. Se os brasileiros são inocentes e festivos, também sabem ser perversos e cruentos; todos vivemos na corda bamba entre a hospitalidade e a intolerância. Uma frase de propaganda de cigarro tornou-se a explicação cabal do brasileiro hodierno, quiçá de todos os que existiram.

Ainda hoje, a voz de Gérson ecoa em meus ouvidos. O que nós, pessoas comuns, seríamos capazes de fazer para “levar vantagem”? O que é uma vantagem, afinal? Ora, a vantagem é um benefício, um privilégio. No futebol – o esporte praticado pelo autor da frase -, a vantagem significa não interromper o jogo por conta de uma falta insignificante, se isso for melhor para o time que sofreu a falta. É possível concluir que a vantagem é uma situação onde estamos à frente, ou em melhor condição que outrem. Deste modo, quem tira vantagem em tudo pode não ter um espírito muito generoso. Continue lendo “Cigarro, cheguei!”

27 lições dos meus 27 anos

1. Sempre esteja de acordo com suas próprias convicções mesmo que, por vezes, você se contradiga. A contradição é o direito de quem pensa melhor.

2. Desfrute, sempre que possível, de seu anonimato.

3. Os amigos são nossa reserva de calor para os dias frios, nosso montante financeiro em tempos de crise, o colo para nossas traquinagens. Eles são tudo o que temos. Continue lendo “27 lições dos meus 27 anos”

Resenha: Kaki

Livro: Kaki
Autor: Alvaro Posselt
Editora: Blanche
Ano de lançamento: 2015
Nota: ☆☆☆☆☆

A simplicidade é o ápice da perfeição. Nenhuma teoria pode expressar, nas palavras de Drummond, a inteireza do sentimento do mundo – uma integração particular entre o artista e seu universo criativo. Sou ainda mais ousado ao dizer que a simplicidade artística é um caminho de elevação espiritual: quando a técnica assume seu lugar verdadeiro, resta a alma do artista. Continue lendo “Resenha: Kaki”

Mercúrio-cromo

“Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje.”

Para Rosinha Morais

No último 23 de junho, fui convidado para participar do lançamento dos livros “Um segredo na letra H”, do genial Mario Neves, e “Ecos do Silêncio”, de Luka Magalhães – do qual, inclusive, já fiz uma resenha no blog. Entre os lançamentos, eu conversava com a poeta Rosinha Morais sobre os diversos tombos que levamos na vida. Pelo papo, lembramos do mercúrio-cromo: aquele remedinho que colocávamos nos machucados do século passado. Logo fui abduzido pelas memórias que o tal mercúrio me causou. Pensei obsessivamente no assunto até conseguir escrever esta crônica, o que significa uma semana.

Até o ano de 2001, eu não tinha noção do que era a vida. Tampouco tinha noção de minha velhice. Mas as memórias de minha infância são vagas e desconexas. Talvez as sofridas descobertas da vida fizeram-me assim. Ou talvez a constatação precoce de que aquela vida se tornaria pó de estrelas, guardada afetuosamente em alguns de meus neurônios. Esta descoberta foi duríssima, embora verdadeira. Aos poucos, o tempo passou e não pude acompanhar o crescimento do garoto que eu era. Quando vi, pronto: eu era o velhinho que sou hoje. Continue lendo “Mercúrio-cromo”

Luto: uma visão alternativa

Escrevi este texto há alguns meses. Como estou me preparando para escrever uma pequena série contra a psicofobia, inicio com este tema, que muitas vezes é considerado um tabu.

* * *

O que dói não é o soco, mas o músculo ressentido. O que realmente cansa não é o esforço físico, mas a distração da sobrecarga. O que machuca de verdade não é o tapa, mas o desentendimento que conduz à agressão humilhante.

O que dói não é a morte em si, mas o que ela acarreta. Continue lendo “Luto: uma visão alternativa”

Nome de homem

“Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino.”

Nós, mortais, sequer notamos a brevidade da inocência.

Quando me percebi, estava com dezenove anos. Havia acabado de prestar o vestibular. Todos da família estavam confiantes, inclusive os silêncios de meu pai. Uma pretensa maturidade em mim se esforçava para entendê-lo. De minha parte, não sabia o motivo de sua mudez. Lembro-me de seu carinho na infância, de sua eficácia como provedor da casa. Por que o distanciamento repentino? Talvez os primeiros fios de barba, os mesmos que apontavam o homem que seria, me afastaram dele. Meu desenvolvimento era uma ameaça ao seu reinado masculino. Desde então, meu pai ficou cada vez mais monossilábico. Passou a não interessar-se pelas minhas conversas, a não acompanhar-me no almoço, a ironizar meus gostos pessoais. Chegou o dia em que não mais nos abraçamos: ele disse que minha barba arranhava seu rosto. Desde então, me obriguei a ressignificar sua ausência. Eu, agora, devia ser um homem. Meu pai não sabia que me tornei o guardião dos meus próprios sonhos. Continue lendo “Nome de homem”

Nunca fui santinho

“Se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.”

Ao Carlos, meu professor de teatro

Embora não pareça, sempre flertei com o caótico da vida. Trocando em miúdos: eu adorava ver o circo pegar fogo. Não à toa, eu assistia freneticamente as fitas VHS do Rally Havoc, onde carros e motos voavam das formas mais perigosas possíveis. Meu eu criança também adorava o famoso programa “A ponte do rio que cai”, uma versão brasileira do americano Wipeout. Eu morria de rir com os tombos, quedas e cambalhotas dos participantes. No fundo, se eu tivesse físico e saúde, talvez tivesse optado ser dublê.

Na minha infância e primeira velhice, eu tinha tempo de sobra para pensar. Não havia o que “fazer”. Depois dos estudos, eu ia ao terreno que havia atrás de casa, ou ao lado – os terrenos baldios ainda eram abertos – para pesquisar e criar pensamentos. Além de minhas invenções, eu não era uma criança ocupada (e as crianças ocupadas de hoje me causam pânico.) Meu único trabalho era ler e criar. Continue lendo “Nunca fui santinho”

Questão de criatividade

“Um dia eu serei como Rimbaud!”

Artur sonhava com as glórias de um grande escritor. Seu desejo, porém, não era apenas vender livros best-seller. Ele desejava inscrever seu nome na história da Literatura. Sua juventude o fazia sonhar alto. Em seus devaneios, pensava:

– Um dia eu serei como Rimbaud!

Ao mesmo tempo em que sonhava com a glória, Artur padecia de um enorme bloqueio criativo. Fazia semanas que ele não escrevia. Quando o fazia, tinha a sensação que seu texto estava péssimo. Certo dia, louco de tédio, visitou uma exposição de pintura. Acabou conhecendo Lúcia e Donaldo, o casal de curadores responsáveis pela exposição. No meio da primeira conversa, Artur disparou:

– Vocês poderiam ajudar um escritor? Eu, no caso? Faz tempo que sofro de bloqueio criativo e não consigo escrever nada. Continue lendo “Questão de criatividade”

Entre os dedos da eternidade

“Se todos nós soubéssemos nossa data de partida, tal detalhe seria suficiente para entrarmos em histeria coletiva.”

Na minha primeira velhice (ou o que chamam infância), a morte era um dos meus temas preferidos para pesadelos. Morria de medo ao pensar em deixar de existir. Se a minha morte me causava horror, a morte dos outros era ainda mais estranha. Felizmente, fui poupado de tais acontecimentos. Na minha infância, lembro da morte de poucas e raras pessoas. Esta velhice pode ter sido triste, mas ainda não era povoada por fantasmas conhecidos. Continue lendo “Entre os dedos da eternidade”

Resenha: Ecos do Silêncio

Livro: Ecos do Silêncio
Autor: Luka Magalhães
Editora: Casa Amarela Edições
Ano de lançamento: 2018
Nota: ☆☆☆☆

Em certa ocasião, ele entregou-me um livro. Apenas. Citando o místico católico Afonso Ratisbonne (1814-1884), ele nada me disse, mas tudo entendi. Foi com este jogo silencioso que ele, o Luka, me convidou para apreciar “Ecos do Silêncio”, sua primeira obra. Continue lendo “Resenha: Ecos do Silêncio”

Cidade pequena

“Nós do interior somo mió que os da cidade!”

Os moradores do vilarejo diziam que tudo estava em seu devido lugar. Para eles, não havia necessidade de mexericos ou querelas. Cada um estava ocupado em lutar pela sua sobrevivência. Esse era o mesmo pretexto para se considerar superiores à cidade grande, inclusive. Ufanos, batiam no peito:

– Nós do interior somo mió que os da cidade!

Todo cidadão tinha um papel definido naquela pequena aldeia. Havia o padre, com fama de santo. Havia o delegado que se ocupava em vexar os garotos que roubavam frutas. Havia os aldeões simples, matutos e desconfiados. E havia o velho Petrônio, o louco da vila.

Poucos, na verdade, ousavam-lhe trocar cumprimentos. Petrônio não era dado a converseiros. Sua aparência física contrastava com a daquela população. Olheiras bem definidas, silencioso, sorumbático: seu corpo quase não conheceu lâmina. Cortava o cabelo apenas quando lembrava. Diziam que o velho Petrônio não dormia. Apenas se enfeitava em meados de agosto, nas festividades da colheita da moranga cabotiá.

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Um bombom salvou minha vida

Meu amigo é literalmente inquebrantável. Ele finge que não sabe.

Em outro texto, eu falava sobre as bem-aventuranças de um caxias. E dentre os meus amigos que possuem essa qualidade, não deixo de incluir o Toninho. Olhos firmes, sorriso tímido, espinha ereta: meu amigo possui a honestidade digna dos grandes caracteres. Ele, no entanto, finge que não sabe. Prefere pensar-se qual Pedro Pedreiro, cantado por Chico Buarque.

Desde que nos tornamos amigos, ele nunca mudou seu jeito de ser. Manteve o jeitão sossegado de outrora com fidelidade absolutíssima. Eu pensava: – “Ele é assim tão calmo?” Felizmente, percebi que sim. Sua paciência pode impressionar até um lama tibetano. Ele é literalmente inquebrantável – para um artista, como eu, inquebrantável até demais. Mas também esta diferença é facilmente equalizada entre nós.

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Tempo: o melhor casulo

“Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios.”

No dia de descanso, ao acordar de uma soneca, lembrei-me da criança triste e esforçada que eu era. Revisitei cada drama vivido na transição para a adolescência, ou segunda velhice, onde não sabia quem eu era ou o que faria no mundo. Foram tempos mágicos, mas igualmente sofridos. A inconstância típica de um ser em construção marcou-me profundamente. Hoje, mais calmo e indiferente a certas coisas, ainda me comovo quando vejo alguém se perguntando: – “Mas o que faço da vida, meu Deus?”

Minha segunda velhice tinha uma característica própria: o anseio de atrair carinho e atenção dos mais velhos. Eu era um ser completamente inseguro dos sentimentos alheios. Aprendi a entender a mudez dos gestos e ler palavras entrecortadas. Competia comigo mesmo em busca de um ombro amigo. Não sabia se deveria encarnar o ser “maluco” que se plasmava em mim, ou se utilizaria a máscara que definiria minha vida, como numa peça da Commedia Dell’Arte. Meu espírito se curvava a um regime de meritocracia emocional. Continue lendo “Tempo: o melhor casulo”

Até os parquinhos apodrecem

“Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas.”

Muitas das inspirações deste blog surgem das minhas viagens de ônibus pela cidade. Nelas, não tenho vergonha de ser nostálgico. Sinto como se o clipe de minha vida passasse diante de meus olhos. Numa das reminiscências, fui transportado ao ano de 2003, talvez 2002. Devia ter entre dez a onze anos. Se minhas memórias da infância são sempre desconexas, as memórias do meu eu velhinho sempre estão intactas.

Como qualquer velho que se preze, eu era uma criança triste e pungente. Sentia desde o berço, como Augusto dos Anjos, minha vocação para a pungência. A pungência é, inclusive, a qualidade-mor dos nostálgicos e dos observadores. Quando entendi (depois de adulto) o conceito japonês de wabi-sabi, acalmei-me. Wabi-sabi é algo que gosto de traduzir como “a estética do efêmero.” Meu eu velhinho adorava apreciar o fim das coisas. Continue lendo “Até os parquinhos apodrecem”

Drops: Carlos Drummond de Andrade

“O poeta da pedra no caminho me punha pedras no sapato.”

Drummond é um dos grandes poetas brasileiros que não deixa de pôr pedras em meu sapato. Seus poemas sempre me foram pungentes. Não à toa, carrego no peito uma grande estima pelo Itabirano.

Quem sou eu para falar de Drummond? Deixarei que ele fale por si mesmo, por seus poemas. Inclusive, a ideia do Drops é não trazer dados biográficos. Traremos apenas os poetas e suas mensagens. Que as palavras de Drummond continuem reverberando em nossos corações, assim como o meu coração tremeu ao ouvi-lo ainda na minha primeira velhice.

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Uma vida crepuscular

“Quem olha nos olhos de seus fantasmas nunca mais é o mesmo.”

Naquela Mauá de lembranças ternas e antiquíssimas, algo particular me ronda a mente. Nestes momentos, é incrível perceber como algo tão distante pode materializar-se em meus pensamentos: o crepúsculo. Como poderei definir a sensação mágica de uma criança ao assistir quase diariamente aos mais belos crepúsculos de sua vida?

Em minhas imaginatividades, creio que o crepúsculo é o momento onde o tempo entra em suspensão. A mágica ilumina o ambiente. Quem para para assistir pode tocar esta atmosfera etérea. Eu, particularmente, fui criado em um lugar alto. Nas palavras de Herivelto Martins, esse detalhe me deixava “mais pertinho do céu”. Nas costas da casa, o sol se punha. À frente vinha o clarão de seu nascimento. Ao ler a Odisseia de Homero, aprendi que a deusa Aurora vinha pessoalmente em sua carruagem para acordar o Sol. Sem querer, passei a desejar-me encontrar com ela, mesmo que por um segundo.

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Tenho a maior vergonha de odiar

“…a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.”

Como me sinto velho, não confio em minhas próprias sensações. Não sei se esta impressão é apenas minha. Mas creio que nós vivemos em verdadeira época de fúria. Quando ouço Nelson Rodrigues dizer que os anos 60 eram furiosos, sinto-me levemente indignado. É claro que haviam fúrias sessentistas. Mas a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.

Não é novidade repetir que vivemos numa época de crise geral. Praticamente todos os setores pastam em campos críticos: a religião, a política, a economia, até o futebol. Transformaram o templo da arte popular em vendilhão. Eles, os donos da bola, dominaram os estádios com suas propagandas. Nem as camisas dos jogadores se salvaram. Vez ou outra, alguns torcedores dos times grandes esbravejam nas redes sociais: “Fomos roubados.” Outros dizem até haver um esquema de benefícios entre times. Nada afirmo. Apenas constato o que se diz por aí. Talvez o Brasil ainda esteja no aprendizado existencial, por isso os tropeções em tantas coisas simples.

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Santo André, um tutorial

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“Alguma coisa acontece quando ando a pé / Pelas avenidas do centro de ti, Santo André”

o futuro já começou quando encontro Santo André, é incrível como minha sintonia com a cidade não se perde, aos poucos me vejo dentro de seus cruzamentos e faróis, é verdade que tudo isto tem um alto preço para o ambiente, sou fruto desta paranoia urbana, mas tudo também tem suas alegrias. o céu estava cinza e é assim que gosto de ver a minha terra da garoa particular, que é mãe da garoa de são paulo

pra quem não conhece esta é a avenida edson danillo dotto, mas qualquer andreense chama de avenida perimetral, o primeiro e eterno nome

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Os santos também traem (Ato III)

“Quem viu o carnaval de Antônio deve assistir sua retratação.”

IV – “Esse Santo Antônio me paga!”

Para que o encontro não terminasse ainda mais funesto, Pedro e Joana juraram acalmar os ânimos de Graça. Foram correndo atrás da mãe combalida. Os músicos de Antônio faziam cara de paisagem. Os convidados, por sua vez, faziam cochichos mordazes. No banner, o rosto de Jorge reinava silencioso e absoluto.

Com muito suor, os dois filhos imploravam a atenção da mulher: – “Abre, mãe, abre a porta!” Ao deixar-se ver, a viúva estava em choque. Disse que jamais esperava tal atitude por parte de um filho. Os dois irmãos juraram que a situação seria resolvida ainda no mesmo dia: – “Quem viu o carnaval de Antônio deve assistir sua retratação.” Após o argumento filial, Graça conteve as lágrimas. Pediu que os filhos saíssem, pois queria pôr os sentimentos em ordem.

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Os santos também traem (Ato II)

“[…] passou a comportar-se como quando no quartel.”

II – A guerra que a Guerra causou

Apesar dos conflitos e de certa submissão de Graça, o casal permanecia firme. Ninguém ousava plantar dúvidas no sentimento entre os dois. Ambos batiam no peito quando diziam superar juntos os problemas individuais. Sua família servia como prova de autenticidade. Aos poucos, Jorge e Graça ganharam netos e bisnetos. A semente havia frutificado. Continue lendo “Os santos também traem (Ato II)”