Guarda-chuva

eu era muito pequeno e lembro
minha mãe dizer coisas que até hoje
estão guardadas em minha memória

uma delas, a mais importante delas
era o conselho que definiria minha personalidade
por muitos anos, e até os dias de hoje
seus fonemas reverberam em minha memória

sempre que eu saía de casa
eu tinha mania de levar casaco
graças à serra do mar paulista
e dos ventos de paranapiacaba
mas o mais impressionante surge agora:
mamãe dizia –
filho, leve um guarda-chuva
a todas as minhas experiências fora do útero
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Decapitação, por Wisława Szymborska

Decote vem de decollo,
decollo significa cortar o pescoço.
A rainha da Escócia Maria Stuart
chegou ao patíbulo numa veste apropriada,
a veste era decotada
e vermelha como uma hemorragia.

No mesmo momento
num quarto apartado
Elizabeth Tudor, rainha da Inglaterra,
estava à janela num vestido branco.
O vestido vitoriosamente abotoado até o queixo
terminando num rufo engomado.

Pensavam em coro:
“Deus, tende piedade de mim”
“A razão está comigo”
“Viver é atrapalhar”
“Em certas situações a coruja é filha do padeiro”
“Isso nunca vai acabar”
“Isso já acabou”
“O que faço aqui, não tem nada aqui”

A diferença no traje – sim, dessa tenhamos certeza.
O detalhe
é inabalável.

* * *

In: SZYMBORSKA, Wisława. O amor feliz. Traduzido por Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Wisława Szymborska (1923-2012) é polonesa, premiada com o Nobel de Literatura em 1996. Foi formada pela Universidade Jagellonica em Filologia e Sociologia. Sua obra foi traduzida para trinta e seis línguas, dentre as quais o português.

 

Poesia metroviária: Marechal Deodoro

I

em pleno abandono e caos,
onde os homens se esquecem dos deuses,
estive de passagem. os que ali ficaram
não entregaram suas vidas,
antes foram roubadas
pelo estupor e clarão da morte.
lutei como nunca, corri por vales,
cavei e escondi-me entre trincheiras,
carreguei feridos em campos de batalha.
nada disso me satisfez:
era como andar em círculos
na rua em que somente se anda a esmo.
sim, estava morto. mais morto que meus amigos
sem pernas, sem braços, sem olhos:
nada mais podiam ver.
eu estava sem espírito, vagando pela terra,
de ricochetes o sangue brotando em flor.
mal eu sabia que era a primavera,
prometendo metade de vida para o próximo ano.
as ruas haviam me dito, mas não quis escutar.
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Pais, meus queridos pais

Neste tristíssimo dia em que o Brasil perde Bibi Ferreira, surge à lembrança um texto que escrevi sobre meus pais: como eu os entendia, como eu os entendo agora, como suas atitudes reverberaram em mim. Hoje entendo que, felizmente, não caí muito longe de minhas raízes. Este mistério está divinamente velado em nós: quem nos gera está entranhado em nosso ser, moldando inclusive o jeito de existirmos no mundo. Que continuemos cada vez mais parecidos àqueles que nos carregam no ventre, adotiva ou biologicamente.

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Recuso-me a ser coração de pedra

Quando não nos resta porto seguro a nos conter, cabe abrigar-nos em nosso próprio coração. O importante é não deixar de emocionar-se, nem deixar-se abater. Que as lágrimas sempre nos corram os olhos, mesmo se o choro for o único desabafo possível.

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O velhinho de 27

Incomoda-me saber que estamos caminhando para um abismo sem volta. É chegado a hora do duelo final: ou tomamos vergonha e damos um jeito na humanidade, ou a natureza dará um jeito em nós. Cada um é digno e merecedor de fazer sua parte – mesmo que pequena. Por mais que haja a tristeza, ela não é desculpa para nos fazer de pessimistas. Segue o texto (vulgo desabafo) que escrevi sobre como as novas gerações não assumem o protagonismo de suas vidas por estarem ocupadas demais com futilidades.

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Aos ainda-humanos

Os tempos estão difíceis, todos sabemos, mas isto não é motivo para deixar de crer. Apesar da onda acéfala que se instala e cria raízes na humanidade, ainda existem valores como afeto, gratidão, generosidade, amor ao próximo, honestidade e carinho – e não somente entre os animais. Que este poema nos provoque a ser melhores para nós mesmos, para os outros e o ambiente que nos circunda.

Que não sejamos humanos apenas na aparência, mas principalmente no caráter.

escute uma coisa:
você pode perder tudo nesse mundo
você pode perder a fé em qualquer coisa que seja
você pode perder as ilusões ou até mesmo a esperança
só não perca a sua humanidade

você pode perder dinheiro
você pode perder uma gorda e bela chance
você pode perder o pouquinho que faltava
só não perca a sua humanidade

se você perder a paciência, ou perder o jogo
se você perder as estribeiras, ou perder a razão
se você perder aquilo que sempre quis
ou o que demorou tanto para conquistar
não perca o que lhe faz aguentar a barra
e ter sua dignidade respeitada

você pode perder alguns minutos do seu dia
pode também perder seu pai, sua mãe ou os dois

pode perder até mesmo o fruto de seu ventre
só não perca a sua humanidade

este é o imperativo categórico,
a lei universal que rege nossas vidas:

que o humano não perca a sua humanidade.
pois nada justifica a perda da humanidade.
a perda da humanidade legitimou os piores vícios,
as piores traições do mundo, os piores crimes da História.
a perda da humanidade é o único pecado original,
e é também o princípio do
nosso fim.

a perda da humanidade não tampa o cinismo de sua cegueira
não sufoca o ruído agudo de sua raiva seletiva
não desculpa suas ofensas gratuitas
não oculta sua verborreia pútrida
não perdoa os espancamentos verbais e coletivos
e sim condena a sua empáfia
mastiga a sua infâmia
revela a sua vergonha
expõe a sua fratura até a cárie

o tanto que você xinga não te deixa mais belo
o tanto que você mente não te deixa mais puro
o tanto que você reage não te deixa mais esperto
:
cuidado – muito cuidado – com a sua humanidade

você pode perder um amigo ou outro
você pode perder dois amigos, cinquenta, ou cem
você pode perder até o convívio com os seres humanos
só não perca a sua humanidade

você pode perder a sanidade ou até a decência
você pode perder até o meu respeito
mas peço só uma coisa, pelo amor do Bom Deus:
só não perca a sua humanidade.

 

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Henrique Vitorino posa para o genial Luiz Rettamozo na Galeria 42. Curitiba, Paraná, meados de 2017.

Esse teimoso menino

Para o curitibano (ou quem se “curitibaneia”, como afirma Barbara Kirchner), toda saída de Curitiba é uma crise existencial, um autoexílio. Como visitante, atesto que quem chega a Curitiba encontra solo fértil para fincar raízes. Quem sai de Curitiba, por sua vez, torna-se naturalmente apátrida.  Enquanto eu sofria para reacostumar-me aos congestionamentos paulistas, meu eu-menino protestava: “Curitiba não nos poupa de saudade!” Logo surgiu a lembrança desse texto, íntimo e obscuro como um encontro na Boca Maldita.

Com vocês, o próprio:

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O sagrado prazer da criatividade

Senti falta do ócio criativo nos últimos dias. Tive, portanto, que arrumar algum tempo livre para rabiscar versos e consertar palavras – longe do sudoku ou das torturas matemáticas, agrada-me a arte dos versos métricos. Adoro contar palavras e pensar se elas encaixam-se ou não em determinado ritmo. Como a arte da música também é constante em meu trabalho, a métrica é fundamental.

Falando em métrica, este poema foi escrito em versos hendecassílabos: ou seja, com onze sílabas. Os acentos tônicos localizam-se nas sílabas 3, 7 e 11.

Foi também interessante escrever sem pensar em rimas finais. Tenho treinado exercícios de concisão literária, seja na prosa ou na poesia (veja aqui uma de minhas últimas lições), e a ausência de rimas roubou-me a timidez. O importante foi a mensagem: o prazer artístico é o combustível que nos permite caminhar. Num domingo onde participei do Sarau da Casa Amarela, em São Miguel Paulista, este poema muito vem a calhar.

Sem mais conversas, segue o texto: Continue lendo “O sagrado prazer da criatividade”

Drops: Akira Yamasaki

“A sina que cumpro / […] é de guerra, não de paz” (A. Yamasaki)

Quem conhece sabe: a timidez do Akira não revela o número de suas atividades. Observador perspicaz do seu amado Itaim Paulista, também é agitador cultural, organiza e frequenta diversos saraus na cidade de São Paulo, é responsável pela revelação de diversos artistas de antigas e novas gerações, mantém um blog e escreve crônicas poéticas sobre seu entorno social, no facebook. Além de tudo isto, escreve poemas com a disciplina de um samurai. A particularíssima percepção torna seus textos legítimos haicais ampliados.

Eu mesmo tive a honra de musicar vários de seus poemas – o mais conhecido deles, Inverno, ainda me emociona -, e também o tema da peça “Oliveiras Blues”, na qual também tive o prazer de atuar, sendo dirigido por Sueli Kimura e Luka Magalhães.

De acordo com o conceito do Drops, deixarei que Akira se apresente por seus textos. Vale a pena lembrar: o contato do autor está nos nomes-links, junto a cada texto postado. Com vocês, Akira Yamasaki!

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“Tchau, gago”: o relato de um portador de gagueira

“Deus me livre de ter vergonha da minha gagueira. Mas já sofri muito por causa dela.”

Decidi escrever este texto com menos técnica e mais improviso. Não é segredo para os amigos mais íntimos que estudo a obra de Nelson Rodrigues com afinco – somente a prosa, por enquanto. Neste sentido, o blog me serve como espaço de estudo. Baseado no mestre, tenho escrito crônicas e contos que particularmente me alegraram. Mas farei questão de romper com a métrica para falar mais de mim; de um aspecto particular que toda pessoa que me conhece, sabe: a minha gagueira. Continue lendo ““Tchau, gago”: o relato de um portador de gagueira”

Ponto A (rumo ao Ponto B)

As pessoas não querem mais ficar perto umas das outras.
Mas o que afasta não é a máquina, é o descontrole do uso.

As populações dos países veem seus governos afundados em escândalos.
Mas os erros dos governantes não ficam mais nas gavetas.

As grandes corporações manipulam nossa realidade.
Mas o jornalismo independente cresce aos borbotões.

O preconceito de diversos tipos tornou-se mais escancarado.
Mas a luta contra eles está mais aberta.

Não temos futuro, nem sabemos para onde ir.
Mas os grandes passos da História sempre são incertos.

Temos medo do que vai nos acontecer no futuro.
Mas nossos pais e nossos avós também tiveram.

Hoje o conceito de “família” está desestruturado.
Mas novas formas de família o completam.

Os artistas estão perdidos ou comprados.
Mas a Arte não.

Os jovens de hoje não serão como os adultos de hoje.
Mas serão os adultos do amanhã.

Não há desculpas para o pessimismo.
Tudo depende do seu ponto de vista.

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Drops: Carlos Drummond de Andrade

“O poeta da pedra no caminho me punha pedras no sapato.”

Drummond é um dos grandes poetas brasileiros que não deixa de pôr pedras em meu sapato. Seus poemas sempre me foram pungentes. Não à toa, carrego no peito uma grande estima pelo Itabirano.

Quem sou eu para falar de Drummond? Deixarei que ele fale por si mesmo, por seus poemas. Inclusive, a ideia do Drops é não trazer dados biográficos. Traremos apenas os poetas e suas mensagens. Que as palavras de Drummond continuem reverberando em nossos corações, assim como o meu coração tremeu ao ouvi-lo ainda na minha primeira velhice.

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Puxa vida, o tempo está passando!

Encontrei, nesta manhã e por engano, um blog que escrevi no longínquo ano de 2006. O nome do tal: Abaixo os puristas!, assim mesmo, em negrito. Ainda recordo da minha sanha adolescente de tentar ser diferente do resto…

Dada tamanha nostalgia, pretendo publicar um poema dos meus quinze anos: quando saía da minha primeira velhice. Prometo que as correções feitas não tirarão a graça e a virgindade do texto original. Continue lendo “Puxa vida, o tempo está passando!”