Uma vida crepuscular

“Quem olha nos olhos de seus fantasmas nunca mais é o mesmo.”

Naquela Mauá de lembranças ternas e antiquíssimas, algo particular me ronda a mente. Nestes momentos, é incrível perceber como algo tão distante pode materializar-se em meus pensamentos: o crepúsculo. Como poderei definir a sensação mágica de uma criança ao assistir quase diariamente aos mais belos crepúsculos de sua vida?

Em minhas imaginatividades, creio que o crepúsculo é o momento onde o tempo entra em suspensão. A mágica ilumina o ambiente. Quem para para assistir pode tocar esta atmosfera etérea. Eu, particularmente, fui criado em um lugar alto. Nas palavras de Herivelto Martins, esse detalhe me deixava “mais pertinho do céu”. Nas costas da casa, o sol se punha. À frente vinha o clarão de seu nascimento. Ao ler a Odisseia de Homero, aprendi que a deusa Aurora vinha pessoalmente em sua carruagem para acordar o Sol. Sem querer, passei a desejar-me encontrar com ela, mesmo que por um segundo.

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Tenho a maior vergonha de odiar

“…a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.”

Como me sinto velho, não confio em minhas próprias sensações. Não sei se esta impressão é apenas minha. Mas creio que nós vivemos em verdadeira época de fúria. Quando ouço Nelson Rodrigues dizer que os anos 60 eram furiosos, sinto-me levemente indignado. É claro que haviam fúrias sessentistas. Mas a fúria do século XXI possui algo mais requintado, mais encorpado, talvez mais apodrecido.

Não é novidade repetir que vivemos numa época de crise geral. Praticamente todos os setores pastam em campos críticos: a religião, a política, a economia, até o futebol. Transformaram o templo da arte popular em vendilhão. Eles, os donos da bola, dominaram os estádios com suas propagandas. Nem as camisas dos jogadores se salvaram. Vez ou outra, alguns torcedores dos times grandes esbravejam nas redes sociais: “Fomos roubados.” Outros dizem até haver um esquema de benefícios entre times. Nada afirmo. Apenas constato o que se diz por aí. Talvez o Brasil ainda esteja no aprendizado existencial, por isso os tropeções em tantas coisas simples.

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Henrique Vitorino no Anael Lopes Show

[Anael Lopes (centro) com os convidados Henrique Vitorino e Marco Aurélio Manupella. Foto: Jota Jardim.]

Henrique Vitorino esteve no programa Anael Lopes Show, da Rádio ABC 1570 AM, ontem (21).

Com muito bom humor, Anael conversou com Vitorino sobre o seu interesse pela seresta, ouvido absoluto e a gagueira – uma peculiariedade também comum ao Rei dos Boêmios, Nelson Gonçalves. Além da conversa, Vitorino interpretou dois sucessos de Nelson: “A volta do boêmio”, de Adelino Moreira, e “Nunca”, composição do gaúcho Lupicínio Rodrigues.

Além de Henrique Vitorino, Anael recebeu Marco Aurélio Manupella. Em nome do Fórum São Paulo, Manupella entregou-lhe um prêmio pelos serviços prestados no rádio.

O Programa Anael Lopes Show é transmitido aos sábados, das 13h00 às 15h00.

O referido programa pode ser assistido aqui ou na fanpage da Rádio ABC.

Santo André, um tutorial

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“Alguma coisa acontece quando ando a pé / Pelas avenidas do centro de ti, Santo André”

o futuro já começou quando encontro Santo André, é incrível como minha sintonia com a cidade não se perde, aos poucos me vejo dentro de seus cruzamentos e faróis, é verdade que tudo isto tem um alto preço para o ambiente, sou fruto desta paranoia urbana, mas tudo também tem suas alegrias. o céu estava cinza e é assim que gosto de ver a minha terra da garoa particular, que é mãe da garoa de são paulo

pra quem não conhece esta é a avenida edson danillo dotto, mas qualquer andreense chama de avenida perimetral, o primeiro e eterno nome

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Os santos também traem (Ato III)

“Quem viu o carnaval de Antônio deve assistir sua retratação.”

IV – “Esse Santo Antônio me paga!”

Para que o encontro não terminasse ainda mais funesto, Pedro e Joana juraram acalmar os ânimos de Graça. Foram correndo atrás da mãe combalida. Os músicos de Antônio faziam cara de paisagem. Os convidados, por sua vez, faziam cochichos mordazes. No banner, o rosto de Jorge reinava silencioso e absoluto.

Com muito suor, os dois filhos imploravam a atenção da mulher: – “Abre, mãe, abre a porta!” Ao deixar-se ver, a viúva estava em choque. Disse que jamais esperava tal atitude por parte de um filho. Os dois irmãos juraram que a situação seria resolvida ainda no mesmo dia: – “Quem viu o carnaval de Antônio deve assistir sua retratação.” Após o argumento filial, Graça conteve as lágrimas. Pediu que os filhos saíssem, pois queria pôr os sentimentos em ordem.

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Os santos também traem (Ato II)

“[…] passou a comportar-se como quando no quartel.”

II – A guerra que a Guerra causou

Apesar dos conflitos e de certa submissão de Graça, o casal permanecia firme. Ninguém ousava plantar dúvidas no sentimento entre os dois. Ambos batiam no peito quando diziam superar juntos os problemas individuais. Sua família servia como prova de autenticidade. Aos poucos, Jorge e Graça ganharam netos e bisnetos. A semente havia frutificado. Continue lendo “Os santos também traem (Ato II)”

Os santos também traem (Ato I)

“Se fosse necessário, ela morreria pura como nasceu. […] Ela orgulhava-se de sua fidelidade incorruptível.”

I – Os velhinhos amavam-se mais que tudo

Jorge era paranaense dos Campos Gerais. Maria da Graça vinha do Nordeste. Ambos encontraram-se em São Paulo, no tempo em que as mulheres eram recatadas e os homens ainda cumprimentavam com os chapéus abanando. Eram os anos trinta. Paixão à primeira vista, claro, mas sem agravos. Ela viera a estudo; ele preparava-se para guerrear no estrangeiro. Casaram-se neste interlúdio.

Ele só contou a Graça que era soldado quando estavam bem apaixonadinhos. Ela tremeu-se toda, disse que não era justo. Mas optou por ficar com ele. Passou a incomodar-se com os italianos berrantões do Bixiga, como se a guerra acontecesse por culpa deles. Alguns disseram que ela fazia até o sinal-da-cruz ao passar por lá. Continue lendo “Os santos também traem (Ato I)”

Quem é burro é mais feliz?

“Existe hoje uma miríade de seres iluminados…”

“Ó feliz culpa, que mereceu tão grande Redentor!” Com esta frase do Exultet de Páscoa, Tomás de Aquino exalta a existência do pecado original. É engraçado pensar num monge fazendo apologia ao pecado. Este gracejo, porém, não foi gratuito. Herdando do platonismo o puro desprezo à matéria, a tradição católica não poderia abandonar esta contradição entre Luz e Trevas, Bem e Mal, Deus e o Homem – assim mesmo, em maiúsculas. O conhecimento teológico guardado pelos monges era divino; a ignorância, reservada ao povo simples e analfabeto, era diabólica. O estado de beatitude (ou seja, conhecer a presença de Deus) só era permitido aos santos e iluminados. “O que vem além disso”, citando o apóstolo Paulo, “é do maligno”.

Encontramos um fato concreto neste conceito. A luz é o que permite o conhecimento. Mas surgem perguntas cabais: quem possui o acesso ao conhecimento? É possível fazer juízos de valor sobre a luz ou a treva de um indivíduo? E a mais importante: quem pode considerar-se iluminado? Visto o fenômeno atual dos “grandes iluminados”, gastei uma parte do meu dia para dissecar a questão.

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Diplomados em idiotice

“Sabia que quem chama o irmão de idiota vai para o inferno?”

Ao lembrar-me da infância, sinto um saudoso nó na garganta. Tenho muitas lembranças daquela Mauá onde apenas os livros eram meus fiéis companheiros. Em tenra idade, eu vivia minhas fantasias num bairro cheio de nomes de escritores: Tomás Antonio Gonzaga, Raul de Leoni, Inglês de Souza. O patrono de minha rua era o maranhense Raimundo Corrêa. Não havia ambiente melhor para educar minha alma pueril, já tão artista.

Sem que eu soubesse, minha meninice foi toda plenilúnio, exceto pelo fato de eu ser considerado um garoto-prodígio. Nunca tive paz. Entre louvores e elogios, eu tentava subsistir como uma criança normal. Recusava a superioridade que os outros me conferiam: saber de tudo aquilo era normal. Mas meu vocabulário destoava completamente de meu tamanho. Lembro-me de um caso curioso que aconteceu por volta dos meus seis anos.

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O Brasil não precisa de heróis, mas de cidadãos

“Barry Manilow tornou-se tão humano quanto uma banda punk de garagem.”

“Violão não é para mim!” Toninho confessou sua indecisão entre dois copos de chopp: o dele e o meu. Estamos à mesa, no ofício da psicanálise de boteco. Seus olhos vacilam. O gole alivia a garganta seca. Mais um gole ajuda a dar serventia às mãos indecisas. Depois da afirmação grave, calou-se.

A frase doeu fundo. Violão não é para mim, disse o amigo. Sabendo que trabalho com música, a frase soa como acinte. Se não é para alguém, o violão é para ninguém. Se é para ninguém, o violão também não é para mim. Mexo as sobrancelhas de propósito. Ele pretende suar frio, mas solta um riso tímido. Continuo repetindo em minha memória: violão não é para mim. Nos encaramos num silêncio largo.

Se o violão não é para o nosso amigo, para quem seria? O violão pertenceria somente aos artistas iluminados, como Francisco Tárrega, Agustín Barrios, Andrés Segovia? Quem poderia apropriar-se de um violão, a não ser alguém dotado de técnica sobrenatural? Quem poderia intitular-se bom violeiro, além da criatura que deixaria os anjos harpistas morrendo de inveja? Continue lendo “O Brasil não precisa de heróis, mas de cidadãos”

O amor véio é cabortêro

“Vou parar de ser teimoso / porque o tempo corre, homem!”

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Hoje o Pedro João estava proseadô e inspirado. Logo que cheguei, ele disse que queria brincá – como ele chama o ato de criar histórias. Sacando a lapisêra, comecei a escrever seus pensamentos em forma de verso.

Ele me assumiu que gostaria de ter seus causos escritos: ou seja, seus versos, histórias e canções. Percebi que era algo inédito de sua parte. Como ele não sabe ler e escrever, assumi a tarefa com orgulho de discípulo. Talvez Pedro fique contente, e até se anime a fazer novas músicas.

Vamos ao que interessa. Pedro disse que não estava apaixonado, mas que estava pensando sobre a loucura que é o amor (ele entendeu muito bem os sentimentos profissionais, já prenunciados por Mario Quintana). Esperando minha preparação, começou a esquentar os neurônios. Logo estava fazendo este poema:

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O maracujá (ou “A garota mais feia da paróquia”)

“Não suportava tamanha exposição de minha pequenez.

Sou um ser nostálgico por excelência. Creio que não consigo deixar de lembrar do passado nem debaixo d’água. Por isso mesmo, vieram à tona meus poemas de juventude – junto com o personagem que os escrevia, claro. Pelo fato de ter encontrado hoje um poema escrito há doze anos, esse antigo fantasma me fez cócegas nos pés. E para falar de meus poemas e do eu que me habitava, preciso falar sobre o ambiente em que estava metido.

Antes de escrever, eu lia e muito. Li autores dos mais variados, os mais e menos célebres. Graças à Elizangela, minha sempre venerada professora de Português, pude ter vasto conhecimento sobre a poesia brasileira. Mas peguei o péssimo hábito de comparar meus textos com os dos mestres. Não por influência dela, claro. O desejo de ser notado e aclamado era unicamente meu.

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Puxa vida, o tempo está passando!

Encontrei, nesta manhã e por engano, um blog que escrevi no longínquo ano de 2006. O nome do tal: Abaixo os puristas!, assim mesmo, em negrito. Ainda recordo da minha sanha adolescente de tentar ser diferente do resto…

Dada tamanha nostalgia, pretendo publicar um poema dos meus quinze anos: quando saía da minha primeira velhice. Prometo que as correções feitas não tirarão a graça e a virgindade do texto original. Continue lendo “Puxa vida, o tempo está passando!”

Sou velho demais pra ler textão

“Enquanto eu não vir um jovem que seja como eu fui, não acredito em nada.”

Nunca aprendi a lidar com minha necessidade de expressão. Só aprendi a me expressar melhor, inclusive, depois de um ano em terapia. Às vezes, a expressão ainda é algo embaraçoso para mim. Isso me faz incompreender os jovens do século XXI. Existe certo distanciamento entre mim e minha geração, mas não é voluntário de minha parte, ou da deles. Eu fui um velho desde criança.

Várias pessoas já me condenaram ao ouvir esta máxima, e eu repito sem nenhum pudor: fui um velho desde pequeno. Lembro-me de fazer uma lição de casa em 1997, condenando a violenta morte do memorável índio Galdino. Eu tinha seis anos de idade. Que criança de seis anos se importaria com um assassinato dessa magnitude, de tamanha crueldade? Mas lá estava eu, denunciando o crime em texto e desenhos – do nível de uma criança de seis anos. Fui parar em exposição e tudo. Nunca me considerei um gênio. Somente me considero mais velho do que sou. O duro era (e ainda é) aguentar as pessoas invertendo os fatores. Continue lendo “Sou velho demais pra ler textão”

Um bilhete a Paranapiacaba

Uma antiga egotrip de dezembro de 2017, maturada e publicada em abril de 2018. Sempre é tempo, aliás: não seria o Tempo uma concepção relativa?

(Início da egotrip)

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Permaneço longe. Ainda em mim não se aquietam muitas vagas. O horizonte dói na vista de quem o enfrenta. Por isso aprendo a andar mais lento, lutando contra estas vagas que por vezes se apoderam de meu corpo. É dia. As poucas nuvens presentes me sorriem. É dia de andar no trem que leva a Paranapiacaba. Para onde levará, ou melhor, por que caminhos segue o trem de minhas memórias? É difícil falar quando se tem tanto a observar. Continue lendo “Um bilhete a Paranapiacaba”

Os “caxias” correm risco de extinção

“Em terra de malandro, quem obedece é caxias.”

Gostaria de retratar um dos saudosismos mais caros de minha infância, o personagem do caxias. Ouvi a palavra pela primeira vez na minha idade escolar. Referindo-se a uma professora que não faltava no trabalho nem com o cumprimento do apocalipse, alguém disparou: – “Nossa, como ela é caxias!” Logo imaginei um senhor de quepe e barbas longas.

Eu não estava de todo errado: o termo remonta ao Duque de Caxias, o patrono do nosso Exército. Tendo barbas ou não, a imagem do tal caxias permaneceu intacta em minha cabeça infantil. Mais tarde, fiquei triste ao constatar que a professorinha anunciava o fim de um período em nosso país. Não existe sequer um caxias no Japão, terra de gente trabalhadora. Sua presença também não faria sentido nos Países Nórdicos. Nossa época rareia este personagem tipicamente brasileiro.

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